Poder e Governo
Flávio vota a favor do fim da escala 6x1 após meses de críticas
Senador mudou de posição na reta final do segundo turno, após classificar proposta como eleitoreira.
O candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) votou nesta quarta-feira a favor da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1. Essa decisão foi tomada após meses de duras críticas à medida e uma mudança de postura na reta final do segundo turno. O voto ocorre em meio à pressão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que transformou a redução da jornada em uma das principais bandeiras de sua campanha à reeleição. Flávio havia anteriormente classificado a iniciativa como eleitoreira, questionando seus efeitos sobre o emprego e defendendo uma proposta alternativa.
O voto foi realizado remotamente, enquanto Flávio cumpria compromissos de campanha em Porto Alegre, ao lado de governadores e lideranças políticas de direita.
A decisão de Flávio foi anunciada na terça-feira, depois de uma visita ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Essa mudança representou um contraste em relação ao discurso adotado pelo candidato desde o início da tramitação da PEC. Até então, o senador evitava assumir um compromisso com a aprovação da medida, que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, estabelece dois dias de descanso e proíbe a redução salarial.
— A maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da escala 6x1. Então, eu vou votar a favor do fim da 6x1. Só que a gente defende algo ainda melhor — afirmou Flávio na terça-feira.
A mudança ocorreu a menos de duas semanas do segundo turno, marcado para 25 de outubro, e na esteira de um crescente foco no tema na disputa entre os dois candidatos. Lula passou a cobrar publicamente uma posição do adversário, enquanto integrantes da oposição tentavam adiar a votação para depois das eleições, argumentando que a proposta estava sendo utilizada eleitoralmente pelo governo.
Em maio, uma semana antes da aprovação da PEC pela Câmara, Flávio havia declarado que a proposta tinha uma "grande carga de hipocrisia e interesse nas eleições". Em agosto, passou a defender um modelo que permitisse ao trabalhador escolher sua jornada. Na semana passada, acusou Lula de oportunismo ao tentar acelerar a votação em plena campanha do segundo turno.
— Lula, em quatro anos de governo, não faz. Agora, no meio do segundo turno, ele vem de uma forma oportunista querer fazer um movimento, achando que isso vai dar voto para ele — disse o senador no último dia 6.
Além de questionar as motivações eleitorais da proposta, Flávio também alertou para o risco de aumento dos custos para as empresas, avanço da informalidade e desemprego. Mesmo ao anunciar seu voto favorável, ele manteve ressalvas, defendendo que o governo ofereça compensações financeiras aos empregadores para facilitar a adaptação às novas regras.
— Os empresários estão sufocados, estão quebrados. Portanto, o governo terá que bancar essa compensação, porque, obviamente, ao reduzir a jornada de trabalho, será necessária a contratação de mais pessoas — afirmou na terça-feira.
A mudança de posição também se deu após as articulações proliferarem para a votação da PEC no Senado. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), passou a defender a conclusão da análise ainda nesta quarta-feira, com possibilidade de votação dos dois turnos no mesmo dia, através de um calendário especial.
O recuo de Flávio foi aproveitado por Lula, que atribuiu a mudança à pressão popular. A campanha petista acredita que a votação pode ajudar a mobilizar apoiadores na reta final. Eles pretendem usar as declarações anteriores do adversário como argumento para questionar seu compromisso com os direitos dos trabalhadores.
Apesar do voto favorável, Flávio não abandonou a defesa de um modelo alternativo na aprovação pelo Congresso. O senador tem apoiado uma proposta apresentada pelo coordenador de sua campanha, Rogério Marinho (PL-RN), que prevê maior flexibilidade na jornada e remuneração com base nas horas efetivamente trabalhadas.
Nos bastidores, aliados de Flávio já discutem a possibilidade de retomar essa proposta a partir de 2027, caso ele seja eleito presidente. A avaliação é de que o novo Congresso poderá abrir espaço para mudanças nas regras aprovadas agora, principalmente se houver impactos negativos sobre contratações e custos para as empresas.
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