Internacional

Greve na Argentina afeta mais de 31 mil passageiros e expõe fragilidade na gestão de viagens corporativas

Paralisação geral contra reforma trabalhista cancela mais de 250 voos entre Brasil e Argentina; especialistas alertam para necessidade de planos de contingência estruturados

Wilson Silva 19/02/2026
Greve na Argentina afeta mais de 31 mil passageiros e expõe fragilidade na gestão de viagens corporativas
Greve na Argentina afeta mais de 31 mil passageiros e expõe fragilidade na gestão de viagens corporativas

São Paulo, 19 de fevereiro de 2026 — A greve geral convocada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) da Argentina contra a reforma trabalhista do presidente Javier Milei paralisou operações aeroportuárias em todo o país nesta quinta-feira, afetando aproximadamente 31 mil passageiros e cancelando mais de 255 voos — incluindo diversas rotas entre Brasil e Argentina.

Segundo levantamentos preliminares, os aeroportos mais impactados no Brasil foram Guarulhos (GRU), RIOgaleão (GIG), Brasília (BSB) e Porto Alegre (POA), com destinos principais em Buenos Aires (Ezeiza e Aeroparque), Córdoba, Mendoza e Rosário. A Intercargo, empresa responsável pelos serviços de rampa em todos os aeroportos argentinos, aderiu formalmente à greve, impossibilitando operações de embarque, desembarque e manuseio de bagagens.

Impacto econômico e operacional

Para empresas brasileiras com operações na Argentina, o impacto foi imediato: reuniões comerciais canceladas, contratos adiados, auditorias interrompidas e executivos retidos em aeroportos ou hotéis sem previsão de retorno.

"O custo médio de um executivo retido por 24 a 48 horas varia entre R$ 2.300 e R$ 4.600, considerando hospedagem extra, alimentação, remarcação e perda de produtividade. Mas o prejuízo intangível — como perda de oportunidades comerciais e penalidades contratuais — pode ser ainda maior", explica Wilson Silva, diretor da R3 Viagens, agência especializada em gestão de viagens corporativas.

Vulnerabilidade exposta

O evento evidenciou a fragilidade de empresas que não possuem planos de contingência para crises geopolíticas. Segundo Silva, muitas organizações dependem exclusivamente de centrais de atendimento terceirizadas ou compram passagens diretamente, sem acesso a canais prioritários ou tarifas diferenciadas.

"Durante a greve, empresas sem parceria com agências especializadas enfrentaram tempo médio de espera de 45 minutos a 2 horas para falar com um atendente, respostas padronizadas e falta de autonomia para negociar alternativas urgentes. Em contraste, clientes com suporte dedicado conseguiram reacomodação em menos de 40 minutos", compara o executivo.

Casos de reacomodação bem-sucedida

A R3 Viagens reportou dois casos (com dados anonimizados) de reacomodação rápida durante a crise:

  • Cliente do setor farmacêutico com 3 executivos retidos em Buenos Aires: reacomodados em voo alternativo via Santiago em 38 minutos após o primeiro contato.
  • Cliente do setor de tecnologia com reunião crítica em Córdoba: rota alternativa via Montevidéu organizada em 52 minutos, incluindo hospedagem intermediária e transporte terrestre.

Contexto político e risco de novas paralisações

A greve foi uma resposta à proposta de reforma trabalhista que prevê ampliação do período de experiência para até 12 meses, jornadas de até 12 horas diárias, redução e parcelamento de indenizações por demissão e restrições a greves em setores essenciais.

O texto, já aprovado no Senado argentino, está em discussão na Câmara dos Deputados. Sindicatos já sinalizaram que podem convocar novas paralisações caso a proposta seja aprovada sem alterações, o que mantém o alerta para empresas com operações frequentes no país vizinho.

Recomendações para gestores de viagens

Especialistas indicam cinco medidas essenciais para proteger operações corporativas contra crises similares:

  1. Mapeamento de rotas de risco: identificar destinos com histórico de greves e instabilidade política
  2. Política de antecedência mínima: estabelecer compras com pelo menos 30 dias de antecedência para viagens internacionais
  3. Seguro-viagem corporativo ampliado: incluir cobertura para greves, atrasos e hospedagem extra
  4. Parceria com agência especializada: garantir acesso a canais prioritários e suporte 24/7
  5. Tecnologia de monitoramento: sistemas que identifiquem viajantes afetados e enviem alertas automáticos

Ferramentas tecnológicas para gestão de crises

A R3 Viagens destaca duas ferramentas desenvolvidas internamente para auxiliar empresas em situações de crise:

R3 Alerts: sistema que envia automaticamente aos viajantes dados completos da reserva, link para check-in online e notificações sobre alterações de voo via e-mail e WhatsApp.

R3 Insights: plataforma de inteligência artificial proprietária que analisa dados de viagens e envia relatórios prontos via e-mail e WhatsApp, incluindo valor gasto por categoria, cálculo de emissão de CO₂, árvores necessárias para compensação ambiental, desvios da política de antecedência e taxa de reemissões.

"Empresas que utilizam o R3 Insights economizam entre 15 e 20 horas por mês que antes gastavam compilando dados manualmente. As decisões passam a ser baseadas em inteligência real, não em achismos", afirma Silva.

Previsão para os próximos dias

A greve foi encerrada oficialmente às 23h59 (horário local argentino) de 19 de fevereiro. No entanto, permanece um backlog de mais de 31 mil passageiros aguardando reacomodação. Companhias aéreas como Latam e Gol informaram que aumentarão frequências nos dias 20 e 21 de fevereiro para normalizar as operações.

Para viagens já agendadas nos próximos 7 dias, especialistas recomendam confirmar o status do voo 48 horas antes, chegar ao aeroporto com 3 horas de antecedência e manter contato direto com a agência de viagens para atualizações em tempo real.