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Pioneirismo no BRICS: Brasil inova com voto eletrônico e Pix

O Brasil desafia o sistema imperial global com tecnologias próprias

Sputnik Brasil 19/10/2026
Pioneirismo no BRICS: Brasil inova com voto eletrônico e Pix
Brasil inova com sistemas de voto eletrônico e pagamento Pix, desafiando o sistema imperial global. - Foto: © Sputnik / Aleksandr Galperin

Em entrevista ao podcast Mundioka, na série Pioneirismo no BRICS, especialistas apontam que estruturas tecnológicas desenvolvidas pelo Brasil rompem o paradigma histórico de reservar aos países da periferia global a posição de dependentes.

As urnas eletrônicas e o Pix mostram a capacidade brasileira de desenvolver infraestruturas públicas essenciais, algo de extrema importância em um momento em que o debate geopolítico discute soberania de dados e redução da dependência de tecnologia estrangeira.

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, na série Pioneirismo no BRICS, que tem o primeiro episódio dedicado ao Brasil, a advogada especialista em direito internacional público e estudo humanitário diplomático Laura Ludovico diz que o fato de conseguir desenvolver essas estruturas demonstra a evolução e o desenvolvimento do país, que, assim como outros da periferia global, é estrategicamente alimentado para ser subdesenvolvido.

"Não é esperado que nós consigamos produzir e exportar algum tipo de tecnologia. [...] Então, possuí-las vai, obviamente, reduzir essa vulnerabilidade do país a pressões externas, a alguma interferência de algum outro país. Isso faz parte da estrutura da nossa própria soberania."

Ela acrescenta que outros países parceiros do BRICS, como Rússia e Índia, também têm sistemas de pagamento eletrônico, o que reduz a dependência de economias como as dos EUA e de países europeus.

"Nós nos unirmos em uma cooperação comercial e financeira, como é o BRICS, abre esse tipo de possibilidade para implementarmos esse sistema ou incentivarmos outros sistemas a serem criados em países que ainda dependem dessa macropotência."

Ludovico afirma que o desenvolvimento dessas tecnologias desafia aquilo que historicamente é reservado aos países periféricos, o que explica os ataques feitos pelos EUA ao criticar o Pix e colocar em dúvida a segurança das urnas eletrônicas. Segundo ela, tudo isso faz parte da manutenção desse sistema imperial.

"Sempre vai ser posto em dúvida algo que nós criamos. O que incomoda, na verdade, é que no momento em que essas potências que foram destinadas a serem sempre dependentes conseguem a sua autonomia, sua soberania, esses outros países que enriqueceram por causa do nosso subdesenvolvimento precisarão trabalhar com as próprias pernas."

Quanto às big techs, que nessas eleições vêm sendo acusadas de prejudicar o alcance das postagens da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de priorizar a de Flávio Bolsonaro (PL), entre outros problemas, ela considera que ainda é cedo para o Brasil ter sua própria plataforma de rede social.

"Acho que criarmos uma alternativa para essas redes sociais não seria necessariamente uma alternativa, porque precisaríamos da confiança do público e, em um momento tão polarizado como esse, seria muita desconfiança e muito ataque ao nosso próprio produto nacional", pondera.

O pesquisador de riscos no sistema financeiro Gustavo Pessoa, professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), destaca que o Brasil é um dos maiores países do mundo, tem dimensões econômicas e sociais de escala continental e vem desenvolvendo infraestruturas de larga escala para exportar a outros países.

"Estamos exportando e mostrando ao mundo a nossa capacidade integrativa e adaptável a cada região," afirma.

Ele diz que as urnas eletrônicas e o Pix são dois sistemas que conseguiram extravasar as barreiras culturais do Brasil ao demonstrar o desenvolvimento do país em aspectos financeiros.

"Nós, como brasileiros, mostramos muitos aspectos do soft power, aspectos da cultura, seja o futebol, a música, a culinária, mas em questão de tecnologia e questão financeira, nós estamos muito recentemente aprendendo como fazer essa diplomacia digital."

No entanto, ele avalia que pelo fato de o Brasil ser um país relativamente novo, que conquistou a independência em 1822 e tem um processo eleitoral que data de pouco mais de três décadas, faz com que sua população ainda não se entenda como uma sociedade próspera.

"Falta o brasileiro entender a sua identidade e a sua importância perante o mundo. [...] Falta a sociedade brasileira entender que nós produzimos tecnologia de ponta, nós produzimos cultura, nós temos muita coisa a oferecer a muitos outros países."

Pessoa considera que o mundo hoje está diante de um período de total mudança no pensamento ocidental, que se assemelha com o vivido no início do século XX, quando os EUA começaram a despontar sobre a Inglaterra como a maior economia hegemônica. A diferença é que agora é a China que está em ascensão, colocando em xeque a soberania global norte-americana.

"Estamos em um novo paradigma do século XXI, com a ascensão de países enormes, seja a China, a Rússia, a Índia, que já representam quase que metade da população mundial [...] todo esse ataque contra o PIX me parece muito mais uma forma de [os EUA] tentarem proteger o seu quintal da interferência de uma nova soberania, que é representada através dos BRICS," aponta.

O pesquisador destaca que, além da urna eletrônica e do Pix, o Brasil também é pioneiro em tecnologias agrícolas desenvolvidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que tem potencial de exportação.

"Os tipos de equipamento que nós desenvolvemos aqui no Brasil hoje em dia, se você for ver a automação que nós temos no campo, ela é comparável a qualquer país de primeiro mundo. Nós não estamos nada atrás de Estados Unidos ou da Europa em termos de produção agrícola."