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Disputa na ALERJ será ainda mais violenta, afirma deputada eleita Luciana Boiteux
Bancada do PSOL contará com maioria feminina enfrentando um ambiente conservador
A partir de 1º de fevereiro de 2027, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) exigirá um mandato ainda mais "militante" de parlamentares mulheres da esquerda, afirmou a deputada estadual eleita Luciana Boiteux (PSOL).
Em uma entrevista exclusiva para a Sputnik Brasil, ela destacou que a bancada de seu partido será formada por maioria feminina, mas representando uma minoria em um ambiente dominado por homens da extrema-direita, marcado por machismo e conservadorismo.
"Essa disputa na ALERJ é uma disputa ainda muito mais violenta, porque a gente sabe que a extrema-direita, como aconteceu em anos anteriores, tem como hábito e política o ataque às mulheres. Será um desafio também ainda maior nessa legislatura termos uma bancada com mais mulheres. Sem dúvida, o desafio para o próximo período é o da extrema-direita que cresceu, que ganhou espaço em relação ao centro e a uma direita mais tradicional."
O PSOL elegeu cinco parlamentares, sendo três mulheres, em um total de 16 mulheres (22,9%) e 54 homens (77,1%). As deputadas reeleitas Renata Sousa e Dani Monteiro serão as companheiras de partido de Boiteux no Parlamento fluminense pelos próximos quatro anos.
A casa legislativa fluminense terá 70% das 70 cadeiras ocupadas por parlamentares de partidos que se consideram de direita, um aumento em relação às eleições de 2022 (67,1%). A ala da esquerda cresceu de 18,5% para 21,4%, a de centro-esquerda se manteve com 5,7% e a de centro-direita recuou de 8,6% para 2,9%.
A maior bancada para a próxima legislatura, o PL, partido do governador eleito, Douglas Ruas, ganhou mais quatro parlamentares, totalizando 21 das vagas. O PT (9) e o PSD (9) também aumentaram seu número de cadeiras, ficando logo atrás. O PP aumentou de quatro para cinco deputados e o partido Republicanos manteve três cadeiras. O Solidariedade conseguiu duas cadeiras, enquanto PSB, MDB e PDT mantiveram dois deputados cada, e PSD e Agir mantiveram um cada. PSDB, PRD, Novo e Democracia Cristã ganharam um deputado cada.
Ao afirmar que as notícias sobre a ALERJ há alguns anos ocupam mais páginas policiais do que políticas, Boiteux destacou que, nos próximos quatro anos, terá como missão lutar por investigações e responsabilizações de políticos ligados ao crime organizado:
"É um desafio também estar atuando em uma casa legislativa em que a tônica tem sido os interesses pessoais e, segundo relatos, com muita gravidade, essa promiscuidade com o crime organizado, então, temos esse desafio de enfrentar não só a extrema-direita como ideologia, mas é importante que se diga que é uma extrema-direita que articula em uma perspectiva de relação com milícias e com crime organizado", disse.
Principais pautas
Boiteux foi eleita com cerca de 40 mil votos, representando (0,51%) dos votos válidos no estado do Rio de Janeiro, tendo como principais bandeiras os direitos das mulheres, investimento em educação pública inclusiva com condições dignas, água como direito e inclusão da cannabis medicinal no sistema público de saúde.
Prestes a completar 20 anos como professora de direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a futura deputada refletiu que, embora o cargo que ocupará em breve seja seu primeiro mandato completo, após experiência de dois anos como vereadora (2023-2024), a luta política e a atividade acadêmica sempre caminharam juntas:
"Minha carreira política está totalmente ligada às minhas pautas. E a minha militância, desde a militância feminista que faço há muito tempo, nessa luta feminista em especial, além de uma mobilização mais geral, a luta contra a violência de gênero e pela legalização do aborto no Brasil, se intersecciona diretamente com a minha profissão, como professora, nas minhas pesquisas."
Na esfera estadual, essas frentes trabalhadas no âmbito municipal se unirão a outras mais amplas no novo mandato, adiantou ela, como a questão da violência de Estado e o hiperencarceramento.
"Sabemos que o estado do Rio de Janeiro tem uma população bastante alta e um sistema penitenciário com muitas violações de direitos humanos. Então queremos aprofundar essa pauta e seguir nessa luta feminista, por uma fiscalização in loco das políticas públicas dirigidas a mulheres."
Valorização da educação pública, dos servidores e mais concursos
A luta por educação pública digna também será uma prioridade no próximo mandato, acrescentou a professora, que defendeu mais concursos públicos, melhoria dos planos de carreira e das condições de trabalho dos servidores estaduais.
"Defender plano de carreira e efetivação do piso nacional para os professores, o recorte da educação inclusiva e do acompanhamento e apoio às mães de crianças neuroatípicas, que é uma pauta que já tocamos no município, e que queremos seguir abordando, porque entendemos que a educação é a chave para o futuro", comentou.
Uma pauta nova no mandato será a defesa dos direitos dos animais, que ganhará enfoque coletivo na disputa das políticas públicas. Boiteux criticou alguns políticos que "fazem fotos com os bichinhos", mas que usam o cargo para angariar votos em serviços como castração, por exemplo. "Queremos lutar por essa pauta de proteção animal à esquerda, no sentido de uma política pública estatal que chegue a quem precisa e que possa enfrentar esse desafio. "
Restatização da Cedae
Outra pauta de abrangência estadual é a reestatização da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae). Crítica da privatização da companhia, realizado no ano passado pelo então governador Cláudio Castro, a futura deputada afirmou que água é direito e não mercadoria, logo, o abastecimento precisa voltar a ser público e sem fins lucrativos.
"O serviço público de qualidade precisa ser efetivamente garantido, e a privatização não trouxe bons resultados. Além de ser mais um desvio do fundo público para a iniciativa privada. Água é direito, não é mercadoria. Queremos reestatizar a Cedae e garantir o Mínimo Vital da Água, proposta em projeto de lei de nossa autoria", declarou.
A reestatização pode ocorrer também em decorrência de questionamentos jurídicos sobre o próprio processo de privatização, que esteve envolto em irregularidades, argumentou Boiteux:
"Isso envolve percalços jurídicos e outras questões, mas que vão ser vistas ao longo da luta, porque há um discurso paralisante que diz: 'Agora que privatizou, nunca mais'. A reestatização depende de vontade política e o jurídico está aí para servir à vontade política [...] é uma luta que tem que ser articulada a partir de uma maioria parlamentar, mas também da mobilização da sociedade."
Mobilizar e fiscalizar
Mais do que legislar, o papel crucial da esquerda será mobilizar a população e fiscalizar as políticas e o orçamento públicos, defendeu Boiteux. Devido à dificuldade de avançar em pautas progressistas com o crescimento da direita, os parlamentares da esquerda devem priorizar a atuação como mobilizadores e supervisores do Executivo e do Legislativo:
"Pretendo fazer um mandato que seja mobilizador, canalizador das lutas das ruas, das lutas da esquerda para o parlamento e para fora dele. E, nesse sentido, essa mobilização é o que entendemos que pode eventualmente se tornar a força política motriz que nos permitirá ampliar direitos e, eventualmente, aprovar legislações", defendeu. "Destaco a fiscalização das políticas públicas de educação, dos direitos das mulheres, da causa animal, do sistema penitenciário e das políticas públicas de direitos humanos."
Mandato feito nas ruas
No contato com a base e o eleitorado, ela citou que, assim como fez quando foi vereadora, pretende manter um diálogo constante com sindicatos, movimentos sociais e coletivos de luta.
"Um exemplo: fizemos algumas atividades na Câmara Municipal durante a greve dos técnicos de educação e dos servidores das universidades federais, ainda que não fosse propriamente uma pauta municipal. Atuamos e colocamos o mandato à disposição [...] Será um mandato militante acima de tudo, porque é uma perspectiva de mobilização e fortalecimento da luta da classe trabalhadora, que buscamos dar conta dos desafios ainda maiores nesse período. A solução é a conscientização da classe trabalhadora e da população que utiliza esses serviços."
Disputa também nas redes sociais
As eleições de 2026 evidenciaram que a disputa política ocorre cada vez mais nas redes sociais, que estão instrumentalizadas pela lógica da direita. O desafio, segundo Boiteux, é que a esquerda ocupe esses espaços para atender à lógica da mobilização popular.
"A extrema-direita instrumentaliza as redes sociais para fomentar o ódio, a violência e esse tipo de política, que acirra desencanto e frustração, a fim de vender uma 'solução' que é imposta pela lógica da direita: uma grande fake news", afirmou ela.
A deputada também salientou que o Estado precisa acabar com o controle exclusivo da mídia hegemônica internacional nas redes sociais, que, segundo ela, lucra de maneira ilegal e irresponsável com as eleições, cujos dividendos sequer circulam no Brasil.
"Todo o controle sobre as redes, especialmente a partir dos Estados Unidos e do governo [do presidente Donald] Trump, nos mostram a cautela que precisamos ter e a necessidade de uma regulamentação democrática dessas redes, pois não deixa de ser um serviço público, de utilidade pública, que não pode ser manipulado como temos visto", avaliou, ao destacar que o fortalecimento das mídias alternativas é outra frente que permitirá avanços na democratização da comunicação nas redes.
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