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Iraque luta para se reerguer após resistir à colonização dos EUA, afirmam especialistas

Analistas comentam sobre a presença militar e os desafios pós-invasão

Sputnik Brasil 14/10/2026
Iraque luta para se reerguer após resistir à colonização dos EUA, afirmam especialistas
Iraque enfrenta desafios na reconstrução após a ocupação militar dos EUA. - Foto: © AP Photo / Leo Correa

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que, após duas décadas de presença militar norte-americana, o Iraque vive um momento dinâmico de mudança, como se estivesse sendo reconstruído.

Os Estados Unidos concluíram a retirada de suas últimas tropas do Iraque, encerrando mais de duas décadas de ocupação militar no país.

A saída marca o fim de uma operação iniciada em 2003, com a invasão liderada pelos EUA sob a alegação de que o país armazenava armas de destruição em massa, argumento que posteriormente se provou falso. A invasão norte-americana derrubou o então governante iraquiano Saddam Hussein e abriu caminho para anos de insurgência e violência sectária no Iraque.

No auge da Guerra do Iraque, em 2007, mais de 170.000 soldados norte-americanos estavam mobilizados no país. Em dezembro de 2023, antes do acordo de retirada ser firmado, esse número havia caído para cerca de 2.400, segundo o Comando Central dos EUA (CENTCOM). Desde então, as forças norte-americanas reduziram sua presença, deixando apenas um pequeno contingente na região autônoma do Curdistão, no norte do Iraque.

Ao podcast Mundioka, Nasser Kazharji, diretor do Arresala, que testemunhou o início da invasão norte-americana ao Iraque, afirma que a presença das tropas estadunidenses impunha uma sensação de subordinação.

“Você vê ali tropas estrangeiras que podem te machucar, que podem atirar em você, podem te enquadrar e você não pode dizer nada, porque não existe um governo, não existe um país que te proteja”, afirma.

Ele diz que, após a queda de Hussein, o país teve de recomeçar do zero, sendo que tudo tinha de passar pela “benção” das tropas estrangeiras.

“O novo Iraque era um Iraque sem nenhuma segurança; o mínimo de segurança que existia tinha acabado. Era um país onde a coalizão podia deixar ali todos os grupos ou aliados atuarem, testarem armas, um país onde praticamente não tinha lei, e eles estavam acima da lei.”

Kazharji ressalta que, ao longo dessas duas décadas de presença militar norte-americana, o Iraque conseguiu resistir à tentativa de colonização e demonstrou, em vários momentos, independência e soberania.

“Mostrou que é capaz de administrar o seu país, de decidir o futuro do seu país, como, por exemplo, a elaboração da Constituição Iraquiana, que foi feita por iraquianos, por comitês iraquianos”, destaca.

Porém, algumas questões cruciais ainda eram geridas pelos norte-americanos, como a renda gerada pela venda do petróleo do país, que obrigatoriamente era enviada a um fundo com sede nos Estados Unidos.

“Qualquer gota de petróleo vendida do Iraque é paga em dólar para esse fundo, que repassa o dinheiro físico uma vez por mês para o Iraque. Então, isso é uma dependência total e não tem como você falar que o país é independente se tem esse modelo de dependência para pagar os salários dos funcionários públicos.”

Lucas Mendes, geógrafo e cofundador do Geopolítica Hoje, que esteve no Iraque recentemente, afirma que o país hoje atravessa um momento dinâmico de mudança.

“Você tem investimentos, grandes shoppings, grandes avenidas sendo construídas. Então, é esse momento, como se o Iraque estivesse sendo reconstruído 20 anos depois de tanta guerra e tantas invasões”, afirma.

Ele considera o país um grande campo de batalha geopolítico e de influência internacional entre potências e diz que o Iraque possui muitas semelhanças culturais com o Irã, potência regional que é o maior obstáculo à influência dos Estados Unidos no Oriente Médio.

“São povos islâmicos, xiitas, que seguem uma tradição muito importante que é preciso entender. Não é só uma religião, como muitas vezes se trata no Brasil ou é vista no chamado Ocidente, mas é uma integração cultural muito mais forte que esses povos possuem. Isso gera uma influência natural dentro do Iraque, melhor dizendo, em relação ao Irã.”

Mendes acrescenta que os Estados Unidos nunca conseguiram estabelecer uma influência duradoura dentro do Iraque, da mesma forma que ocorreu no Afeganistão, embora tenham criado instituições no modelo estadunidense no país.

“Você vê instituições norte-americanas dentro do Iraque, universidades dos Estados Unidos em Bagdá, você vê hospitais sendo patrocinados pelos Estados Unidos, mas não vê a sociedade iraquiana votando [...] nesses partidos e nessas lideranças que são pró-Estados Unidos”, observa.

Mendes destaca que atualmente existem casos bem documentados que mostram que a guerra civil iraquiana, que sucedeu a invasão dos Estados Unidos, foi um dos episódios geopolíticos mais graves do século XXI.

“Uma ação dos Estados Unidos extremamente irresponsável, não se sabia o nível da barbárie que ia chegar ali; 500 mil crianças mortas dentro do Iraque, você tem estimativas de milhões, pelo menos um milhão de mortos, envolvendo todo o período da invasão e posterior guerra civil.”

Além de se recuperar da barbárie humana, o Iraque enfrenta um desafio relacionado à questão energética, já que, apesar de ser um dos maiores produtores de petróleo do mundo, tem dificuldade para suprir a demanda de energia da população por questões geográficas. Segundo Mendes, foi isso que levou o país a tentar se munir de energia nuclear na era Saddam Hussein, sem obter sucesso.

“Por exemplo, o Iraque não tem a quantidade de rios que o Brasil possui para aportar energia hidrelétrica, não tem a quantidade de petróleo que dê também para ser refinado e bancar todas as necessidades do país; há a necessidade de buscar outras formas de desenvolvimento”, afirma.

Ele considera que essa é uma questão a ser resolvida a longo prazo, pois a invasão e ocupação do país desestabilizaram a matriz energética iraquiana.

“O Iraque deixou de investir em projetos muito importantes, destruiu projetos que estavam acontecendo no curso desses acontecimentos, e agora são também algumas décadas para reinvestir e chegar ao ponto anterior.”


Por Sputnik Brasil