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Dengue grave: estudo do Einstein mapeia impacto da doença em UTIs brasileiras
Análise de uma década revela quais perfis de pacientes concentram o maior risco de morte por doença
São Paulo, outubro de 2026 — O maior e mais abrangente estudo sobre dengue grave em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) na América do Sul revelou os indicadores registrados nas primeiras 24 horas de internação que ajudam a identificar pacientes com maior risco de morte. Conduzida por profissionais do Einstein Hospital Israelita, em conjunto com Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), a pesquisa analisou mais de 40 mil admissões em UTIs ao longo de 10 anos (2015 a 2024) e identificou como principais fatores associados à mortalidade por dengue grave a idade avançada, a fragilidade prévia dos pacientes e sinais precoces de queda de pressão. O artigo foi publicado no periódico científico internacional Journal of Critical Care.
A investigação avaliou duas grandes bases de dados nacionais complementares: o registro "UTIs Brasileiras", contemplando 32.016 internações em 357 hospitais públicos e 454 privados, e o banco de dados administrativo do DATASUS, com 11.241 admissões em UTIs públicas do Sistema Único de Saúde (SUS).
Grupos de maior risco e fatores críticos
A mortalidade hospitalar acumulada atingiu 8,2% no registro de UTIs brasileiras e 18,6% na base do DATASUS. O mapeamento identificou três grupos que exigem atenção especial no acompanhamento de casos graves de dengue:
Idosos: a mortalidade aumentou com a idade, passando de 3,5% entre pacientes de até 40 anos para 14,4% entre aqueles com mais de 65 anos no registro de UTIs. Na base do DATASUS, esse percentual chegou a 30% na mesma faixa etária.
Pacientes mais vulneráveis e com comorbidades: a mortalidade foi de 17% entre os pacientes identificados como frágeis no momento da internação. Esse grupo inclui, por exemplo, pessoas que já apresentavam limitações físicas ou outros problemas de saúde que reduzem a capacidade do organismo de reagir a doenças graves. Além disso, 35% apresentavam pelo menos uma doença crônica ativa.
Pacientes que desenvolvem comprometimento circulatório grave: entre aqueles que precisaram de medicamentos para elevar a pressão arterial (vasopressores) nas primeiras 24 horas de internação em UTI, a mortalidade foi de 55,4%, segundo análise da base de dados UTIs Brasileiras.
Sobre os mecanismos que tornam a doença tão letal nestes perfis, a rápida deterioração do sistema circulatório exige atenção imediata aos primeiros sinais. "A dengue costuma ter evolução benigna na maior parte dos casos, mas na sua manifestação grave o vírus desencadeia uma reação inflamatória e circulatória muito agressiva, levando ao choque. A taxa de mortalidade superior a 50% nos pacientes que precisam de vasopressores nas primeiras horas mostra o quão crítico é esse comprometimento. Em idosos e doentes crônicos, a capacidade de recuperação do organismo é menor, o que favorece a rápida piora do quadro clínico. Por isso, a avaliação médica não pode tardar ao primeiro sinal de alerta: converter a complexidade da doença em diagnóstico precoce é o que salva vidas", explica o Dr. Henrique Fonseca, pesquisador da Academic Research Organization (ARO) do Einstein.
Primeiras 24 horas revelam os perfis mais vulneráveis
Ao analisar as taxas de mortalidade hospitalar, a pesquisa constatou que quanto mais grave o quadro do paciente no momento da chegada à UTI, maior o risco de óbito. Essa relação é observada especialmente entre aqueles que já necessitam de suporte intensivo imediato na admissão, indicando um nível de criticidade que reduz drasticamente as chances de recuperação.
Os indicadores registrados nas primeiras 24 horas de internação mostram que 5,8% dos pacientes precisaram de ventilação mecânica invasiva, 7,2% receberam medicamentos vasopressores para manter a pressão arterial e 1,7% necessitaram de terapia renal substitutiva (diálise). Entre os pacientes que precisaram de vasopressores logo no primeiro dia de internação, a mortalidade hospitalar alcançou 55,4%, o maior percentual observado entre os grupos analisados no estudo.
Para os pesquisadores, esses indicadores das primeiras 24 horas funcionam como uma ferramenta valiosa para reconhecer precocemente os perfis mais vulneráveis e antecipar intervenções. "Os dados sugerem que a demora para admitir o paciente na UTI, com sua chegada num momento de maior gravidade, pode contribuir de forma relevante para um desfecho desfavorável. É por isso que buscamos, com essa pesquisa, gerar inteligência de vida real a partir dos indicadores para que os profissionais consigam reconhecer e agir rapidamente, muito antes de o paciente entrar em choque", avalia o Dr. Luciano Azevedo, pesquisador da Academic Research Organization (ARO) do Einstein.
Gestão e Aprimoramento de Fluxos
A partir dos achados, o mapeamento oferece subsídios práticos para orientar a tomada de decisão. "O estudo mostra que, se quisermos reduzir de forma sustentável as mortes por dengue no país, o nosso foco de gestão deve ser aperfeiçoar os fluxos de regulação e triagem pré-hospitalar. Em cenários de sobrecarga de leitos ou epidemias sazonais, a priorização máxima no encaminhamento intensivo e de urgência deve ser dada imediatamente a idosos, portadores de comorbidades e pacientes com sinais precoces de queda de pressão, garantindo o acesso antes que o quadro se torne irreversível", destaca Lucas Corrêa, gerente do Centro de Estudo e Promoção de Políticas de Saúde do Einstein.
O artigo “Clinical outcomes of dengue patients requiring intensive care in Brazil: A 10 year nationwide observational study” foi conduzido por pesquisadores da Academic Research Organization (ARO) e do Centro de Estudo e Promoção de Políticas de Saúde do Einstein Hospital Israelita em conjunto com Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), Epimed Solutions, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidad Autónoma de Chile e Universidade NOVA de Lisboa (Portugal).
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