Geral
Touros melhoradores são uma ferramenta de lucro na pecuária de corte
O pesquisador Cláudio Magnabosco mostrou, com dados de pesquisas, os impactos do uso de reprodutores com mérito genético no rebanho
Os ganhos econômicos e de qualidade que o pecuarista pode obter no rebanho com o uso de reprodutores de mérito genético comprovado foram demonstrados pelo pesquisador Cláudio Magnabosco, da Embrapa Cerrados (DF), na palestra “Impacto econômico de touros melhoradores na pecuária de corte”. A apresentação integrou o painel “Desafios e oportunidades na pecuária de corte”, promovido durante a 34ª Expoabra, feira agropecuária realizada no Parque Granja do Torto, em Brasília, de 28 de agosto até este domingo (13).
De acordo com dados apresentados pelo pesquisador, apesar de contarem com um rebanho bovino menor que o brasileiro, os Estados Unidos apresentam maiores índices de desfrute por praticarem uma pecuária mais eficiente. Por outro lado, enquanto o faturamento da carne frigorífica americana (US$ 72,28 bilhões anuais) representa 0,29% do PIB total do país, no Brasil (US$ 38,92 bilhões/ano) ele corresponde a 2,53% do PIB total e a 23,6% do PIB da pecuária nacional, evidenciando a importância do segmento para a economia.
A produção de carne no Brasil estimada pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) para 2026 é de 12,35 mil toneladas equivalente carcaça (TEC, medida baseada no peso da carne, considerando apenas as partes aproveitadas para consumo humano) por um rebanho de 195,5 milhões de cabeças, o que equivale a 15,83 cabeças produzindo 1 TEC. Já nos Estados Unidos, de acordo com o US Department of Agriculture (USDA), 86,7 milhões de cabeças produzem 11,81 mil TEC, ou seja, 7,34 cabeças produzem 1 TEC.
“A palavra de ordem é eficiência de produção, e na pecuária de corte temos que atender à demanda do mercado. Precisamos tornar o sistema mais rentável”, afirmou Magnabosco, explicando que para isso é necessário aumentar a produção por área, a qualidade e a eficiência de produção, reduzindo custos, com o uso adequado dos recursos naturais, forragem de qualidade e nutrição ajustada ao objetivo econômico do pecuarista.
“A realidade do produtor mudou. Hoje, os sistemas de produção são diferentes no bioma Cerrado. A nutrição, a sanidade e o manejo são fundamentais. Temos que buscar currais de bem-estar, centros de manejo humanizados”, disse, observando que essas tecnologias estão disponíveis para o produtor. Ele também destacou o papel essencial da genética, bem como os efeitos de sua interação com o ambiente.
Segundo o pesquisador, o maior problema é o “boi ponta de boiada”, como são comumente chamados os animais de baixo desempenho, que fornecem carne de pouca qualidade e, portanto, têm baixo valor agregado. Se o Brasil tem 320 mil touros avaliados para reprodução, 80% dos touros utilizados como reprodutores ainda são os “ponta de boiada”. “O produtor escolhe o que ele pensa ser o melhor boi do lote, e o usa como reprodutor. Mas ele não tem indicadores sobre esse touro. Ele é bom em quê? Em quais condições? Isso é um ciclo vicioso. Temos que atacar esse boi de ponta de boiada”, declarou, lembrando que um touro pode ser utilizado para emprenhar 25 a 30 vacas, em média, por estação de monta.
Quantidade e qualidade da produção importam na pecuária de corte e, conforme apontou Magnabosco, as matrizes e novilhas, que são as categorias de animais que permanecem no rebanho, são o estoque genético mais importante para o produtor. “Ninguém vende uma boa novilha comercial, é preciso fazê-la na propriedade. E ela vem de um touro avaliado. Temos que pensar em agregação (de valor)”, completou.
Como identificar e selecionar animais eficientes
Um touro eficiente é identificado pelas avaliações genética, genômica e funcional, além de testes de progênie (descendentes) e de touros jovens. O fenótipo (aparência física) do animal é resultado da interação entre a sua genética e o ambiente. “Todos querem animais bons, mas temos que buscar a genética que está dentro, o material genético contido nos cromossomos. E as variações (no DNA) é que vão nos dar a direção a tomar na seleção genética”, explicou o pesquisador.
Mas quem de fato direciona a seleção é o consumidor final. E o que realmente importa ao mercado e ao sistema de produção, segundo Magnabosco, depende do objetivo econômico. “Temos que nos balizar em quem paga a conta”, orientou, apontando a necessidade de touros aprovados e testados a pasto que tenham fertilidade e precocidade sexual; eficiência no uso do alimento; qualidade de carne e carcaça; desempenho; habilidade materna e desempenho à desmama.
Para obter animais com essas características, é necessário lançar mão de indicadores analisados em programas de melhoramento genético e seleção. Nesses programas, o material genético (pelos) é coletado na fazenda, os animais são cadastrados e avaliados quanto ao fenótipo. Com o uso de softwares, é feita a avaliação genética, com a análise da consistência dos dados junto à fazenda.
As ferramentas de avaliação genômica utilizadas são as diferenças esperadas na progênie genômicas (DEPGs) e biotécnicas moleculares. Nas DEPGs, são avaliados o fenótipo do animal, o desempenho das progênies e colaterais ligadas genomicamente, e é feita a genotipagem com marcadores moleculares para a predição dos valores genômicos, o que permite antecipar a tomada de decisão. Os marcadores moleculares são variações na sequência do DNA que estão associados a características de importância econômica. Com a informação genômica, é feito o cálculo da DEP do animal, somando, um a um, os efeitos dos marcadores presentes em seu genótipo.
Os marcadores moleculares utilizados nas DEPGs são úteis em animais jovens ou com pouca informação, possibilitando aumentar a acurácia (confiabilidade) significativamente. Também podem ser usados para características difíceis ou caras para medir; avaliar características de baixa variabilidade genética; identificar a paternidade; e para a evolução genética e produtiva. Entre as DEPGs mais importantes para o melhoramento genético de bovinos estão as para eficiência alimentar, que mede a eficiência do animal em converter alimento em carne; para maciez da carne e para stayability, que avalia a longevidade produtiva do animal no rebanho.
Para identificar um touro eficiente, podem ser realizados o teste de progênie, que é acurado, mas tem limitações de custo e longa duração; a avaliação genética, que necessita do fenótipo e deve ser associada a outras ferramentas; e os testes de desempenho, que avaliam o mérito genético. “Não precisamos excluir nenhuma avaliação, todas podem ser utilizadas. Se temos os bezerros nascidos, temos o teste de progênie e a avaliação genética. Os animais também podem ser avaliados em testes de desempenho num centro de desempenho animal e, assim, podemos selecionar aqueles que são superiores, de qualidade comprovada”, explicou o pesquisador.
Testes de desempenho e eficiência alimentar
Para identificar e selecionar reprodutores com mérito genético, a Embrapa Cerrados realiza o Teste de Desempenho de Touros Jovens (TDTJ) desde 1998, com o apoio de diversos parceiros. O TDTJ avalia, a pasto, características de crescimento (peso corporal e ganho em peso), reprodução (perímetro escrotal e volume testicular), funcionalidade (estrutura corporal, precocidade, musculosidade, umbigo, características raciais, aprumos e características sexuais) e carcaça (área de olho de lombo e acabamento de carcaça), compondo um índice que classifica os animais em elite, superiores e comerciais.
Em 27 anos de TDTJ, foram avaliados mais de 4800 animais das raças zebuínas Nelore – puros de origem (PO) e com Certificado Especial de Identificação e Produção (CEIP) –, Tabapuã, Guzerá e Brahman, provenientes das regiões Centro-Oeste e do Sudeste. Mais de 50 touros foram contratados por centrais de inseminação e estima-se que mais de 250 mil descendentes de animais avaliados tenham sido gerados.
Os touros elite e superiores do TDTJ são destinados ao Teste de Eficiência Alimentar, que avalia o ganho de peso em função do consumo de matéria seca. Os animais com maior eficiência alimentar são aqueles que consomem menos matéria seca que o esperado e têm maior ganho de peso residual (acima do esperado).
O teste também identifica outros três padrões possíveis, porém indesejáveis por resultarem em menor eficiência alimentar: animais com alta ingestão de matéria seca e alto ganho de peso; touros com alta ingestão de matéria seca e baixo ganho de peso; e aqueles com baixa ingestão de matéria seca e baixo ganho de peso. “Todos esses tipos de animais são reais e existem! E estão, muitas vezes, sendo vendidos na forma de sêmen, e o mercado vem adquirindo material genético desses touros”, alertou o pesquisador.
Para demonstrar o impacto econômico da eficiência alimentar nos rebanhos, Magnabosco apresentou dados de um novilho médio, de um animal com ganho médio de peso diário (GMD) de peso 10% maior e de outro com eficiência alimentar 10% superior. Eles foram comparados quanto ao consumo de matéria seca, ao GMD, à taxa alimento/ganho, ao custo do alimento, ao custo não alimentar, ao custo total do ganho, ao peso ao abate e ao lucro. O animal com mais eficiência alimentar proporcionou o maior lucro: cerca de R$ 2600, valor 27% maior que o do novilho médio, que ficou em torno de R$ 2000. “Por isso, é muito importante não adquirir animais que simplesmente comem pouco. É preciso verificar o ganho médio residual. O animal tem que ganhar muito e consumir pouco”, ensinou.
Ele também apresentou o retorno econômico de uma avaliação do consumo alimentar residual (CAR) com mil cabeças confinadas por 90 dias. Foram utilizados cerca de 38 ha de silagem de milho (custo de R$ 7000/ha) e relação volumoso/concentrado de 60/40. Quando foram usados animais eficientes, houve redução de 54 toneladas de matéria seca consumida e de R$ 264 mil no custo de produção.
Genética Nelore BRGN agrega valor ao sistema de produção
As pesquisas com a marca Brasil Genética Nelore (BRGN) foram iniciadas pela Embrapa Cerrados em 2000, com rebanhos participantes do antigo Programa de Melhoramento Genético da Universidade de São Paulo (PMGRN-USP), tendo como matrizes animais com genética Nelore LAIS, Nelore JR, Carlos Viacava, entre outras. A ideia era produzir e testar bovinos da raça Nelore adaptados ao bioma Cerrado e fornecer um germoplasma Embrapa para o mercado.
Ao longo do tempo, a marca obteve progresso contínuo no mérito genético total, índice medido pela Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP) composto por características de fertilidade, crescimento, carcaça, habilidade materna e precocidade sexual.
Os ganhos financeiros com o uso de touros Nelore com a genética BRGN foram demonstrados por Magnabosco: considerando mil matrizes parindo 800 bezerros ao ano, sendo a taxa de mortalidade 2%, resultando em 784 animais/ano; o uso de cerca de 34 touros BRGN (um para cada 30 vacas), com vida útil de sete anos; o valor da arroba (15kg) de R$ 330; e um ganho de mais uma arroba de carcaça por garrote filho de touro BRGN, obtém-se cerca de R$ 258 mil ao ano.
O mérito genético do BRGN também é comprovado por dados de desempenho produtivo. Enquanto a DEP para peso ao sobreano (450 dias) para animais Nelore avaliados em programas de melhoramento da raça é em média de +6,3 kg, para o Nelore BRGN é de +25,12 kg; a DEP para área de olho de lombo é de -0,56 cm2 na média do Nelore e de +3,1 cm2 para o BRGN. A superioridade do Nelore BGRN também é observada no peso ao abate (540,12 kg contra 505,8 kg), no peso das carcaças (19,28 @ contra 17,44 @) e na eficiência alimentar, que apresentou menores custos de alimentação.
Na comparação entre um touro jovem BRGN avaliado e um touro Nelore convencional com quatro anos de idade e não avaliado, o animal com a genética da Embrapa mostra valores superiores de acurácia para peso aos 210 dias (70% x 41%), para peso aos 365 dias (75% x 47%) e para stayability (68% x 12%). “Além do maior mérito genético, o BRGN tem maior confiabilidade”, comentou Magnabosco, também citando a redução do intervalo de geração para machos (de cinco anos no touro de quatro anos para três anos no touro jovem BRGN) e números superiores para ganho genético anual em peso aos 210 dias, peso ao ano e stayability.
A superioridade genética do BRGN também é comprovada em dados de peso, rendimento da carcaça e eficiência alimentar. Em mil cabeças, a DEP para peso aos 450 dias é de 6,3 (Nelore de quatro anos) e de 25,12 (Nelore BRGN jovem), ou seja, o ganho de produção passa de mais 6300 kg para mais 25.120 kg por mil cabeças. O rendimento de carcaça sobe de 51,72% para 53,53%; o peso de abate com genética aumenta de 505,8 kg para 540,12 kg; e o custo diário de alimentação é de R$ 9,72 para o touro Nelore de quatro anos e R$ 9,48 para o touro Nelore BRGN jovem. “Somando todas essas características, diminuindo o custo e aumentando o ganho, temos valores extremamente interessantes em favor do touro avaliado. No caso, um animal da marca Embrapa”, analisou o pesquisador.
Impactos de touros avaliados no rebanho
Para ilustrar como o uso de touros avaliados é importante para o sucesso reprodutivo dos rebanhos, Magnabosco apresentou dados reais de DEPs de reprodutores para probabilidade de parto até os 30 meses (DPP30) variando de 36% a 63%. Do grupo de touros cuja DPP30 é 36%, somente 8% das filhas conseguiram emprenhar até os 30 meses de idade; do grupo de touros com DPP30 de 49,5%, 47% das filhas ficaram prenhas até os 30 meses; e no grupo de touros com DPP30 de 63%, 98% das filhas efetivaram a prenhez até os 30 meses. “Ou seja, se você não tiver touros avaliados, não adianta dar comida, pois estará jogando dinheiro fora. O animal tem que ter potencial genético para emprenhar, e o uso de touros melhoradores é fundamental”, disse, também mostrando dados que correlacionam melhores DEPs para perímetro escrotal de touros a maiores taxas de prenhez das filhas.
Já o impacto econômico proporcionado por animais avaliados quanto à eficiência na conversão de alimento em carne foi demonstrado por um experimento que comparou dois touros em confinamento – um pesando 602 kg e outro de 565 kg. O ganho médio diário de peso previsto para ambos era de 1,74 kg/dia, com consumo alimentar esperado bem semelhante: 12,74 kg/dia e 12,16 kg/dia, respetivamente. Já o consumo de alimento real médio ao longo de 90 dias foi de 13,15 kg/dia (+0,419 kg ou 3,45% mais que o previsto) pelo touro de 602 kg e de 11,70 kg/dia (-0,564 kg ou 4,65% menos que o previsto) pelo de 565 kg, sendo este, portanto, o animal com a maior eficiência alimentar da dupla. A diferença de consumo entre os dois animais após 90 dias foi de 8,18%, o equivalente a R$ 368,01 (cerca de R$ 4 por dia), considerando o kg de alimento a R$ 2,82.
“Vamos pensar que a herdabilidade da característica eficiência alimentar é 0,50 (50%) e temos, nesse caso, um touro com genética para consumo alimentar 4,65% menor que o esperado. Se coletarmos o sêmen, emprenharmos as vacas e fizermos o confinamento de mil filhos desse touro consumindo R$ 4 a menos de alimento por dia, economizaremos R$ 360 mil após 90 dias só pelo fato de termos usado um animal eficiente”, explicou.
O pesquisador comentou que, apesar das diferenças em eficiência alimentar entre os touros, os preços das doses do sêmen comercializadas são os mesmos. “Só que o produtor tem que comprar aquilo que o seu sistema de produção precisa, e não o que a central de inseminação quer lhe vender”, afirmou, apresentando exemplos de índices de touros melhoradores da Embrapa Cerrados com avaliação genômica e vinculados a programas de melhoramento genético. Os dados dos animais demonstram que não existe um reprodutor igual ao outro, já que eles podem se destacar em diferentes características, como produção de leite (pelas filhas), stayability, acabamento de carcaça, produtividade acumulada, idade das filhas ao primeiro parto e área de olho de lombo.
Segundo Magnabosco, touros avaliados como melhoradores são animais identificados como geneticamente superiores e que melhoram a eficiência produtiva e reprodutiva dos rebanhos, proporcionando ganhos genéticos e econômicos cumulativos. Eles aceleram a precocidade sexual, encurtando o ciclo de produção; são voltados à produção de carne e carregam eficiência produtiva, velocidade de crescimento, precocidade sexual e de terminação, agregando valor ao rebanho.
“O touro melhorador é uma ferramenta de lucro. De uma geração para outra, o ganho genético é cumulativo e permanente, assim como o erro, o ‘pioramento’ (genético). O investimento em genética realmente vale a pena porque muda a cara do rebanho. Vários touros avaliados representam isso”, concluiu o pesquisador.
O painel “Desafios e oportunidades na pecuária de corte” também contou com palestras do pesquisador Marcelo Ayres, da Embrapa Cerrados (“Se até o boi mudou, por que seu pasto continua o mesmo?”); Letícia Pereira, do Instituto de Zootecnia e Programa GMA-USP (“Estratégias para aumentar a eficiência e a rentabilidade do rebanho de cria”); e Ricardo Arantes, da TRI Comunicação (“Desafios do agro moderno: como enfrenta-los?”).
Breno Lobato (MTb 9417/MG)
Embrapa Cerrados
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Telefone: (61) 3388-9945
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