Geral

Doutrina Monroe e ameaça a Lula: EUA já intervém no Brasil, diz especialista

Análise revela aspectos da doutrina antiga em contexto contemporâneo

Sputnik Brasil 17/08/2026
Doutrina Monroe e ameaça a Lula: EUA já intervém no Brasil, diz especialista
Doutrina Monroe reafirma influência dos EUA sobre o Brasil, com impacto nas relações diplomáticas. - Foto: © AP Photo / Rebecca Blackwell

Do resgate à velha Doutrina Monroe, em que as Américas voltam a se subordinar aos Estados Unidos, até a montagem que remete à imagem de Lula à polêmica foto da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, a 'propaganda imperialista' segue a todo vapor. Especialistas analisam o impacto à Sputnik Brasil.

"A dominância das Américas nunca será questionada de novo". Em mais uma demonstração da política externa dos Estados Unidos sobre todo o continente, o perfil oficial do Departamento de Estado publicou na última semana um vídeo que remete à Doutrina Monroe, criada em 1823 sob a justificativa de proteger os recentes países das três Américas que se livraram do colonialismo europeu, mas que foi usada justamente para o contrário: Washington exercer domínio e provocar um legado de instabilidades.

Na sequência, foi a vez do deputado republicano Carlos Gimenez publicar uma montagem com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com a legenda "o que espera". Na foto, Lula aparece como se fosse Maduro após ser levado pelas forças norte-americanas depois da invasão em janeiro. A reação foi imediata, e o assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Celso Amorim, chegou a citar uma "ameaça" velada ao Brasil.

A situação ocorre em um momento de instabilidade nas relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos, com os recentes tarifaços sobre a importação de produtos brasileiros e a retirada do visto da embaixadora do país em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.

O professor de relações internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT/Ineu) Marcos Cordeiro Pires afirma à Sputnik Brasil que as ameaças norte-americanas "há muito tempo" saíram do campo retórico para "ações em curso".

"Eles não estão apenas falando, mas também agindo. O processo de intervenção no Brasil começou no ano passado, quando foram instituídas as tarifas de 50% contra o Brasil, além da inclusão do ministro [do Supremo Tribunal Federal] Alexandre de Moraes na Lei Magnitsky e da perda de visto de diversas autoridades brasileiras, incluindo o ministro da Saúde [Alexandre Padilha]. Depois disso, tivemos interferências claras, como a visita do candidato de oposição à Casa Branca [Flávio Bolsonaro], as ameaças de Marco Rubio [secretário de Estado] contra Lula e, mais recentemente, esses vídeos", afirma.

Aliado a isso, o especialista pontua os riscos trazidos pelas big techs norte-americanas que, desde 2018, utilizam os algoritmos para direcionar a maior parte do conteúdo nas redes sociais para "sites de extrema direita".

Outro caso preocupante, segundo Cordeiro, é o escândalo Honduras Gate, revelado em maio deste ano e que quase não teve repercussão na imprensa brasileira. Na ocasião, o presidente hondurenho Nasry Asfura, aliado de primeira hora de Trump, e outras autoridades apareciam em áudios vazados que apontavam a colaboração do governo do país com Estados Unidos e Israel para interferir nas eleições da América Latina, especialmente no Brasil, acrescenta o professor.

"Estamos em um momento muito similar à eleição da Argentina em 1946, quando o governo norte-americano tentou interferir, e isso foi um tiro no pé. Na época, o embaixador de Washington [Spruille Braden, 1945] falava que os argentinos poderiam votar em qualquer candidato, menos em [Juan Domingo] Perón. E o peronismo, naquela época, fez aos eleitores argentinos a seguinte pergunta: escolhe Braden ou Perón? Agora, no Brasil, pode ser despertado um sentimento nacionalista em que se pode colocar para o eleitor se ele escolhe Trump ou o próprio país", compara.

Doutrina Monroe e o retorno à lógica da hegemonia

Já o pesquisador do Núcleo de Estudos dos Países do BRICS da Universidade Federal Fluminense (NuBRICS/UFF) Lier Pires Ferreira vê uma tentativa direta dos Estados Unidos de "reestabelecer o continente sob uma lógica de tutela hegemônica", via uma reedição moderna da Doutrina Monroe, que confronta os próprios princípios da Constituição brasileira: o de não intervenção e de autodeterminação dos povos.

"Ao declarar a primazia de seus interesses sobre as Américas, essa postura visa frear a autonomia estratégica de Brasília, especialmente em sua capacidade de negociar livremente com múltiplos polos globais e consolidar uma política externa independente. Todavia, é importante dizer que não apenas governos progressistas reagem a esta manifestação crua do imperialismo norte-americano, mas, como se viu pela recente manifestação de Fernando Barros, ministro da Defesa do governo de [Antonio] Kast, um conservador, países como o Chile não pretendem ser 'quintais' dos EUA, ao contrário de Argentina e Colômbia", defende à Sputnik Brasil.

Para Lier Pires, os vídeos mostram justamente que as redes sociais são cada vez mais "terreno das guerras de informação", inclusive na articulação de grupos locais na defesa de interesses norte-americanos. "Os mecanismos de influência sobre a política de outros países deixaram de ser predominantemente militares [...]. Entretanto, considerando a psicopatia inerente ao governo Trump, ações belicosas, principalmente no contexto amazônico, não podem ser descartadas", frisa.

E o endurecimento do discurso de Washington ocorre, segundo o pesquisador, em um momento em que o Brasil busca fortalecer cada vez mais sua atuação no Sul Global e no BRICS. O plano de governo do presidente Lula tem entre seus eixos ampliar o multilateralismo e também inclui uma forte defesa da soberania nacional.

"Como qualquer potência 'alfa', a América não admite dissonâncias, em particular em um contexto de transição hegemônica em que os EUA (potência desafiada) perdem terreno para a China (potência desafiante). Diante disso, Washington busca projetar influência e realizar uma verdadeira contenção geopolítica para desarticular a posição pivotal do Brasil no BRICS e os esforços do Itamaraty rumo à construção de uma ordem internacional verdadeiramente multipolar, com uma governança global mais inclusiva e democrática", resume.

EUA e o interesse por minerais críticos e petróleo

Maior economia da América Latina, o Brasil concentra a segunda principal reserva de um dos recursos naturais mais cobiçados da atualidade: os minerais críticos. Aliado a isso, o país também conta com uma das maiores empresas petrolíferas do mundo, a Petrobras, que inclusive realizou acordos recentes com o México para apoiar a exploração em águas ultraprofundas. A doutora em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Beatriz Bandeira de Mello argumenta à Sputnik Brasil que o país exerce uma liderança regional e também é capaz de fazer articulações em níveis globais.

"O governo brasileiro adota como diretriz de política externa a diversificação de parcerias para o desenvolvimento de infraestrutura em áreas como a dos minerais raros, também essenciais para as indústrias estadunidenses. Por si só, essas posturas representam um impeditivo para a consolidação da hegemonia dos EUA sobre o hemisfério", enfatiza.

Além disso, a especialista vê que uma mudança na Presidência da República seria benéfica aos interesses da Casa Branca e cita como exemplo o próprio plano de governo do senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL) em temas como combate às facções criminosas e a política econômica.

"Seria, basicamente, uma retomada da estratégia mobilizada por Jair Bolsonaro entre 2019 e 2023, quando ele optou por aderir a um alinhamento aos Estados Unidos durante a pandemia de COVID-19, abrindo mão da integração regional e da diversificação de parcerias para lidar com a crise sanitária", exemplifica.

Diante disso, Bandeira acredita que as relações entre Brasil e Estados Unidos serão centrais no debate político das eleições, cuja campanha começou oficialmente no último domingo (16).

"A campanha presidencial é um momento de grande sensibilidade política e, dada a polarização política interna, capaz de inflamar os ânimos da sociedade em um período muito curto de tempo. É muito característico do governo Trump e de demais governos que se enquadram no que seria um 'populismo de extrema direita' usar esse tipo de discurso mais agressivo, distorcido e baseado em desinformação, justamente para atacar adversários e levar a um confronto direto", conclui.