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Cooperação militar com Rússia pode reduzir dependência do Brasil, diz analista

Parceria estratégica pode beneficiar setor de defesa, mas gera riscos com EUA e Europa

Sputnik Brasil 17/08/2026
Cooperação militar com Rússia pode reduzir dependência do Brasil, diz analista
Analistas destacam a importância da parceria militar entre Brasil e Rússia para reduzir dependência externa. - Foto: © AP Photo / Leo Correa

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que a aproximação militar entre os países, se acompanhada de transferência tecnológica, beneficiaria o setor nuclear e áreas estratégicas de defesa que enfrentam deficiências graves, mas pode despertar reações dos EUA e da Europa.

Países-parceiros de longa data, Brasil e Rússia podem expandir suas cooperações na área de defesa. A Rússia, referência no setor, pode ajudar o Brasil a melhorar suas capacidades, reduzindo sua dependência de fornecedores da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Em recente visita ao Brasil, Nikolai Patrushev, assessor do Kremlin e chefe do Colegiado Marítimo russo, se reuniram com o comandante da Marinha do Brasil, o almirante Marcos Sampaio Olsen, e discutiram a colaboração entre as forças. A cooperação tecnológica entre os países também foi defendida por Celso Amorim, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Juliana Zaniboni, doutoranda em estudos estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF), observa que toda essa movimentação de cooperação está dentro da agenda do BRICS e destaca que a busca do Brasil pela autonomia militar, investindo em acordos com a Rússia, pode despertar reações dos EUA e da União Europeia (UE), dependendo da profundidade dessa cooperação.

"Dependendo de quais tecnologias militares também forem desenvolvidas em parceria, se isso acontecer, acredito que possa gerar algum, não desentendimento, mas estranhamento por esses atores."

Zaniboni afirma que somente a parceria com a Rússia pode não ser suficiente para provocar melhorias na defesa do Brasil se não forem resolvidas questões internas que afetam o setor, principalmente em relação ao orçamento. Ela aponta que, enquanto em países da OTAN o gasto com pessoal (que envolve salários, benefícios e pensões) consome cerca de 31% das despesas militares, no Brasil esse percentual é de 85%, enquanto apenas 7,3% vão para investimentos. Tudo isso, pondera a especialista, precisa ser considerado ao se pensar em parcerias militares.

"A gente vai ter essa parceria aqui, mas a gente vai ter o dinheiro para conseguir transformar essa tecnologia que está sendo feita em parceria para algo nacional? A gente tem condição disso? Tem políticas públicas para apoiar esse tipo de iniciativa? É claro que a cooperação seria algo muito interessante, mas a gente precisa também entender o depois."

Para Zaniboni, as tecnologias mais estratégicas que a Rússia poderia oferecer em uma parceria com o Brasil seriam a tecnologia naval e oceânica, tecnologias de uso dual (que podem ser usadas tanto para fins civis quanto militares) e sistemas que possam ser progressivamente nacionalizados.

"Tecnologias que possam desenvolver monitoramento ambiental, exploração oceânica, até mesmo proteção do pré-sal ou pesquisas científicas," avalia.

Vinicius Modolo Teixeira, bacharel em ciências aeronáuticas, considera duas áreas da defesa brasileira bastante importantes e que sofrem com deficiências graves, podendo se beneficiar da cooperação com a Rússia. Uma delas é a defesa antiaérea, na qual o Brasil apresenta uma carência de décadas, enquanto a Rússia é líder mundial, com mísseis de defesa em várias camadas. A outra área é o setor nuclear.

"A experiência russa, derivada da experiência soviética no campo nuclear, é algo que o Brasil ainda demanda e precisa engrandecer esse campo. E essa experiência, tanto na fabricação, quanto na condução, construção e gestão de usinas e reatores, é essencial para o Brasil."

Teixeira acrescenta que um acordo nuclear, como o pleiteado e vislumbrado na missão liderada por Patrushev, tem um interesse estratégico muito grande para o Brasil.

"Isso daria para o Brasil uma condição de ampliar seu parque nuclear, garantindo segurança ao contar com um parceiro de confiança e experiência como a Rússia," diz o especialista.

O especialista afirma que a cooperação no âmbito do BRICS, relativa a questões econômicas, pode ser ampliada para a área de defesa, o que é muito importante, considerando que países ocidentais se mostraram pouco confiáveis como parceiros nesse setor, podendo recorrer a ações militares quando não conseguem alcançar seus interesses por meios legais, como vêm fazendo os EUA.

"Então, uma parceria com um país como a Rússia, que possui tecnologia militar de ponta, seria bastante interessante para o Brasil reduzir sua dependência de países que possam vir a ser hostis, rivais ou criar problemas para o Brasil."

Segundo o especialista, se o Brasil tivesse um maior recurso destinado à defesa e revisasse e reformasse os gastos com pessoal, em dez anos conseguiria construir uma capacidade bastante interessante.

"Mas é necessário ter vontade estratégica e um planejamento de Estado para isso. Não depende apenas de um governo querer, tem que ser um objetivo estatal, estratégico das nossas Forças Armadas e dos governos posteriores que venham a substituir o atual. Não pode ficar à mercê de uma política de um governo de quatro anos, e depois outro desfaz ou impõe um teto de gastos, impedindo investimentos em áreas estratégicas."

Na visão de Teixeira, os benefícios da aproximação militar com Moscou dependerão do tipo de cooperação estabelecida. Se for um acordo com previsão de transferência tecnológica, com habilitação de parceiros e empresas no Brasil que possam fabricar e realizar manutenção nos equipamentos, isso representará um progresso muito superior aos acordos anteriores firmados com os EUA, nos quais o Brasil se limitava a comprar equipamentos obsoletos, sem manutenção, que ficavam paralisados por falta de peças.

"Experiências como a compra de blindados no Brasil, como o tanque M60, foram de aquisição de produtos usados, velhos e sem manutenção. Portanto, depende muito do tipo de acordo. A Rússia tem a capacidade de fornecer uma gama de produtos bastante interessante," avalia o analista.