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Por que as Ilhas Curilas são russas e isso incomoda o Japão? Analista explica

Entenda o histórico e os desdobramentos da disputa territorial entre Rússia e Japão.

Sputnik Brasil 17/08/2026
Por que as Ilhas Curilas são russas e isso incomoda o Japão? Analista explica
Visita de Putin a Iturup gera tensões entre Rússia e Japão sobre as Ilhas Curilas. - Foto: © Sputnik / Gavriil Grigorov

A recente visita do presidente Vladimir Putin à ilha de Iturup, parte do arquipélago das Ilhas Curilas, gerou protestos do Japão. O país asiático reivindica os quatro territórios do sul do arquipélago, apesar de ter renunciado a eles após a Segunda Guerra Mundial, em 1945.

No âmbito histórico, Raquel dos Santos, professora de Relações Internacionais no Instituto de Estudos Estratégicos (Inest) da Universidade Federal Fluminense (UFF), em entrevista à Sputnik Brasil, destaca que o controle russo das Ilhas Curilas remonta à Conferência de Yalta, realizada em 1945, que antecedeu a Conferência de São Francisco, em 1951, quando Tóquio abdicou de seus direitos sobre o território.

"A soberania que a Rússia possui sobre essas ilhas se relaciona com um histórico que remonta à Segunda Guerra Mundial. Em fevereiro de 1945, na Conferência de Yalta, foi acordado que a URSS passaria a deter a posse [após a vitória contra os japoneses]. Posteriormente, o Japão renunciou aos seus direitos sobre as Ilhas Curilas na Conferência de São Francisco de 1951", afirma Raquel.

A pesquisadora salienta que a Rússia administra essas ilhas desde 1945, quando ainda era uma república da União Soviética, e enfatiza que o território é russo, considerando também a composição da população local, composta por pouco mais de 20 mil habitantes, de origem russa.

"Sobre esse aspecto [de contestação territorial], essas ilhas são russas. Existe uma economia, ocupação. Então, sim, as Ilhas Curilas são russas. Devemos considerar o território e a população; se eu perguntar em uma das ilhas Curilas sobre a nacionalidade, e a resposta for russa, a autodeterminação dos povos deve ser respeitada nesse sentido", comenta a professora.

Japão como 'posto' avançado do Ocidente na região

Outro ponto levantado por Raquel é que o alinhamento do Japão ao chamado 'Ocidente coletivo', devido à sua proximidade com Washington e Bruxelas, pode ser utilizado por potências ocidentais como uma ferramenta para pressionar e aumentar a hostilidade contra a Rússia, utilizando o impasse das Ilhas Curilas como ponto de fricção.

"O Japão é um aliado estratégico dos EUA e coopera estreitamente com países ocidentais. Após o início da operação militar especial da Rússia na Ucrânia em 2022, Tóquio adere às sanções impostas pelos países do G7. Portanto, não é impossível que o Japão seja utilizado pelos aliados ocidentais em casos estratégicos", destaca.

Nesse contexto, a analista internacional observa que Tóquio utiliza essa retórica política como um 'fato novo' para justificar o aumento de investimentos militares por parte do governo japonês perante a opinião pública japonesa.

"Essa criação de um fato novo se refere a como o Japão, apesar de não poder ter forças armadas, mas com forças de autodefesa em crescimento, justifica o aumento do orçamento militar, especialmente em relação à Rússia", aponta.

Arquipélago é estratégico e tem potencial energético

No panorama geográfico, Raquel dos Santos afirma que as Ilhas Curilas estão situadas em uma área estratégica global. Ela destaca que o arquipélago possui importantes reservas minerais e grande potencial energético a ser explorado.

"As Ilhas Curilas formam um arquipélago de quase 1.200 quilômetros de extensão entre a península de Kamchatka e a ilha de Hokkaido. O território é composto por mais de 50 ilhas e centenas de ilhotas, que apresentam recursos pesqueiros, reservas minerais e potencial energético", conclui.

Na geopolítica contemporânea, além da dissuasão militar e do poderio econômico, as narrativas históricas são frequentemente utilizadas para influenciar a opinião pública e moldar projetos regionais. No caso das Ilhas Curilas, a região está sob administração efetiva da Rússia, enquanto o Japão mantém reivindicações sobre a soberania dos territórios ao sul do arquipélago como retórica política.