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Mestre Biloco morre aos 83 anos em Goiana e deixa um vazio na cultura popular de Pernambuco
Severino Luiz de França faleceu neste sábado, 11, aos 83 anos, em Goiana. Um dos mais importantes artistas da cultura popular pernambucana, ele deixa um legado de mais de cinco décadas de dedicação às tradições da Mata Norte
Goiana acordou mais silenciosa neste sábado, 11 de abril. A cidade da Mata Norte, a 65 quilômetros do Recife, perdeu na manhã de hoje um de seus filhos mais ilustres: Severino Luiz de França, o Mestre Biloco, morreu aos 83 anos em sua própria casa. Os detalhes do velório e do sepultamento ainda não foram informados pela família. A partida deixa um vazio difícil de mensurar na cultura popular de Pernambuco.
Biloco era muito mais que um músico, era uma instituição viva. Maestro, instrumentista, mestre de maracatu, regente de frevo e guardião de tradições que só existiam porque ele as carregava na memória, atravessou décadas sendo a espinha dorsal da vida cultural de Goiana e da Zona da Mata Norte.
Nascido no Sertão pernambucano, Severino chegou a Goiana com apenas quatro meses de idade, criando-se no coração da cidade. Desde cedo, revelou um talento musical que floresceu de forma completamente autodidata, inspirado pelo irmão mais velho, que o apresentou ao mundo dos sons ainda na infância. Aos oito anos, já construía seus próprios instrumentos com latas de doce e canos, e logo dominaria o trombone de pisto com a precisão de quem lê uma partitura.
Sua trajetória formal na cultura popular teve início em 1971, com a fundação da Ciranda dos Cangaceiros, grupo que se tornaria, ao longo de mais de cinco décadas, a mais antiga ciranda ativa de Pernambuco. A inspiração para o nome veio de uma admiração genuína: Lampião. Até seus últimos dias, Biloco fazia questão de honrar essa referência com figurino, lenço no pescoço em cor diferenciada, objetos que remetiam ao cangaceiro e, claro, o apito, sua marca mais pessoal.
"Quando eu formei a ciranda eu pensei em homenagear o cangaceiro Lampião. Até hoje, mais de cinco décadas depois, nós, integrantes do grupo, seguimos seus trajes. Eu, como sou o mestre, uso lenço no pescoço, em cor diferenciada, e alguns objetos utilizados por Lampião. Também coloco peruca e óculos escuros, objetos que me deixam mais parecido com cangaceiro", contou ele, entusiasmado, por ocasião do lançamento de seu primeiro CD, em 2024.
Poucos títulos lhe cabiam tão bem quanto o de "mestre completo". Biloco liderou a Ciranda dos Cangaceiros, atuou como mestre de maracatu de baque solto no Leão do Fortaleza e regeu orquestras de frevo com a mesma naturalidade com que transitava entre os diferentes ciclos festivos da região, carnavalesco, junino, natalino e religioso.
O Inventário Nacional de Referências Culturais da Ciranda, produzido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), atesta que Biloco era o único mestre que ainda usava o apito para iniciar a cirandagem, tradição que remonta às origens do gênero. Sua ciranda tinha formato singular: estrofes curtas, repetidas e cadenciadas, semelhantes ao coco de roda do litoral pernambucano, ao contrário da narração de histórias praticada por outros mestres e mestras. Um estilo exclusivo, raro e de traços já quase desaparecidos na cena atual da ciranda pernambucana.
A ciranda é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil desde agosto de 2021, e Biloco era um de seus guardiões mais singulares.
Sua presença era certa nas cantadas de Santo Antônio e na procissão fluvial de São Pedro. Era figura de esquina, de cortejo e de altar. Para Mestra Jeane, colega de geração, Biloco era simplesmente "uma pessoa especial", encontrada em cada dobra da cultura de Goiana, no Boi, nas Ciganas, no Caboclo União Sete Flechas.
"Eu toco as coisas com prazer", dizia ele, numa frase que sintetizava toda a sua filosofia de vida e de arte.
Talvez o legado mais frágil e precioso que Biloco deixa seja o da Aruenda, folguedo surgido entre os séculos XVI e XVIII, no ciclo do açúcar nordestino, durante a colonização portuguesa. Por meio do grupo Aroeira da Saudade, ele foi o responsável pelo resgate dessa manifestação em Pernambuco, sendo o único remanescente da cultura do estado a preservá-la viva. Quando o antigo mestre partiu, foi Biloco quem salvou a tradição do esquecimento. Agora, com sua partida, a comunidade cultural enfrenta o desafio de manter acesa uma chama que só ele sabia alimentar.
Além de guardião, foi educador. Fundou a Banda Musical Independente Senhor Bom Jesus dos Passos, que funcionava dentro de sua própria casa, e formou gerações de músicos em bandas marciais da Mata Norte. Em cada aluno, plantou um pouco da sabedoria que acreditava ser o verdadeiro alicerce da cultura: "a sabedoria e o amor deveriam guiar tudo", pregava.
Em setembro de 2023, ao completar 80 anos, Mestre Biloco realizou um dos maiores sonhos de sua vida. O terreiro de sua própria casa, na Rua Rio, coração histórico de Goiana e antiga área portuária da cidade, foi palco da primeira edição da Festa das Primaveras, uma celebração que misturou gerações, homenageou cinco décadas de trajetória e serviu de estúdio a céu aberto para a gravação de seu primeiro registro sonoro.
Ao lado dos cirandeiros Carlos Antônio, de Itaquitinga, e Anderson Miguel, de Nazaré da Mata, Biloco gravou 13 faixas autorais que retratam lembranças e vivências de uma vida inteira dedicada à cultura popular. O projeto foi produzido pelo selo Matinada Records, idealizado pelo produtor cultural Alexandre Veloso, com a proposta de registrar, documentar, salvaguardar e difundir mestres e mestras da ciranda pernambucana.
"Estou muito feliz de poder realizar este sonho ao lado de tantas pessoas especiais. Por toda minha vida quis viver este momento. Este ano, meu aniversário tem um sabor especial: chegar aos 80 anos e poder gravar meu CD. Melhores presentes não há", disse ele, emocionado, naquela noite.
O lançamento oficial do álbum aconteceu no domingo, 22 de setembro de 2024, no Calçadão da Misericórdia, Centro de Goiana, dentro das comemorações dos 53 anos da Ciranda dos Cangaceiros. O CD foi disponibilizado nas plataformas de streaming e em formato físico, numa festa que reuniu artistas como Mano de Baé, Rodriguinho do Acordeon, Philippe Wollney, Edivaldo Cordelista, Nildo Violon e Italo Pay e Zabumba Mundi, uma celebração à altura de quem dedicou a vida inteira à música.
Alexandre Veloso, idealizador do projeto, resume o peso daquele registro: "o trabalho de Mestre Biloco e a Ciranda dos Cangaceiros é uma ação de suma importância para o cenário cultural e para a história. Poucos fragmentos das obras dos mestres e mestras ficaram e ficarão com o tempo. Essas 13 cirandas gravadas agora serão talvez um último vestígio da obra deste importante artista popular." As palavras, pronunciadas à época do lançamento, ganham hoje um peso ainda maior.
A morte de Mestre Biloco abre uma ferida na memória viva de Pernambuco. Tradições que existem na fronteira tênue entre o presente e o esquecimento perderam hoje seu principal fiador. A Aruenda, a Ciranda dos Cangaceiros, o maracatu de baque solto, a banda marcial, cada uma dessas expressões carregava um pouco da alma de Severino Luiz de França.
Mas sua voz está gravada. Suas 13 cirandas existem. Os músicos que formou continuam tocando. E as ruas de Goiana guardam o eco de seus compassos.
A "cultura do amor" que Biloco tanto propagou permanece viva, nas mãos dos que aprenderam com ele, nos tambores que ele ensinou a falar e no apito que, por mais de cinco décadas, deu sinal de que era hora de cirandar. O silêncio desta manhã de sábado é pesado, mas provisório. A Aruenda, o frevo e o maracatu continuarão soando, porque um dia, um menino do Sertão decidiu que a música era coisa séria demais para ficar quieta.
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