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Da soberania digital à desdolarização: a estratégia geopolítica da aproximação Brasil–Índia
Com uma comitiva com 11 ministros e mais de 300 empresários brasileiros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou neste sábado (21) a visita oficial à Índia. Durante a agenda, Brasil e Índia assinaram acordo de cooperação em minerais críticos e avançaram nas discussões sobre inteligência artificial e fortalecimento do multilateralismo.
"Somos as duas maiores democracias do Sul Global e temos que dar bons exemplos". Assim o presidente Lula resumiu a importância das relações entre Brasil e Índia, parceiros no BRICS e protagonistas de uma articulação que busca ampliar o peso político e econômico dos países emergentes na governança internacional.
A visita ocorre em um momento de reconfiguração da ordem global, marcado pela disputa tecnológica, pelas tensões comerciais e pela busca de maior autonomia financeira por parte das economias em desenvolvimento. Nesse contexto, Brasil e Índia sinalizam que pretendem ir além da retórica diplomática e transformar a parceria estratégica em resultados concretos.
O pesquisador do Nubrics da Universidade Federal Fluminense (UFF), Fernando Goulart, destaca à Sputnik Brasil que o comércio bilateral entre os dois países cresceu de forma expressiva em 2025, alcançando cerca de US$ 15 bilhões (R$ 77,6 bilhões), recorde na relação entre os dois países — a meta anunciada é chegar a US$ 20 bilhões (R$ 103,5 bilhões) até 2030.
Apesar do avanço, o especialista aponta que ainda há desequilíbrios na pauta comercial. "O Brasil exporta majoritariamente bens primários e importa produtos mais industrializados", observa. A presença de mais de 300 empresários na comitiva presidencial, segundo ele, sinaliza uma tentativa de diversificar investimentos e ampliar acordos de cooperação técnica.
Desdolarização entra na agenda
Outro ponto central da visita foi a discussão sobre a possibilidade de ampliar transações em moedas nacionais, reduzindo a dependência do dólar no comércio bilateral. "Essa conversa tem acontecido de forma mais frequente recentemente, principalmente depois que os Estados Unidos sancionaram a Rússia no início da operação militar especial na Ucrânia, em que baniram a Rússia do sistema SWIFT. Diante disso, Rússia e China partiram para um sistema de pagamentos próprio que é bastante interessante", enfatiza.
Segundo Goulart, o tema ganhou força após as sanções impostas à Rússia e a exclusão do país do sistema SWIFT. "Brasil e Índia ressaltaram que seria importante realizar o comércio em reais e rupias, eliminando a necessidade da triangulação com o dólar", explica. Para ele, o debate está diretamente ligado à busca por maior autonomia financeira no âmbito do BRICS.
A assinatura do memorando sobre minerais críticos e terras raras também tem peso geopolítico. Esses insumos são fundamentais para veículos elétricos, painéis solares, data centers, indústria de defesa e inteligência artificial.
"Para quem não está familiarizado com o tema, os minerais críticos e as chamadas terras raras são insumos estratégicos no século XXI. Eles funcionam como matérias-primas essenciais para a produção de veículos elétricos, painéis solares e smartphones. Também são indispensáveis na fabricação de motores de aeronaves, mísseis guiados e na infraestrutura de data centers que sustentam os sistemas de inteligência artificial", destaca o pesquisador.
No entanto, Goulart lembra que o desafio não é apenas extrair, mas refinar e agregar valor. A Índia, por sua vez, já possui cadeias produtivas mais estruturadas e busca diversificar fornecedores. A cooperação pode fortalecer ambos diante da crescente competição global por recursos estratégicos.
Inteligência artificial e colonialismo digital
Um dos eixos mais densos da agenda foi a inteligência artificial e a soberania digital. Goulart chama atenção para o que define como “abismo computacional”. “Cerca de 75% do processamento de dados do mundo está nos Estados Unidos, 15% na China e apenas 10% no restante do planeta”, afirma.
Goulart recorre ao conceito de tecnofeudalismo, inspirado no economista Yanis Varoufakis, para explicar a concentração de poder nas big techs. Para o pesquisador, esse modelo gera um “colonialismo digital”, no qual países do Sul Global fornecem dados, mercado consumidor e até mão de obra barata, enquanto a infraestrutura tecnológica e os ganhos financeiros ficam concentrados. Nesse contexto, afirma que a regulação multilateral da inteligência artificial, mencionada por Lula, busca evitar a perpetuação desse desequilíbrio.
“Quando utilizamos ferramentas de inteligência artificial, estamos, na prática, trabalhando para empresas como Google e Microsoft ao treinar os sistemas delas. Estamos fornecendo nossos dados, nossos interesses e direcionando a nossa atenção para plataformas que detêm esse conhecimento. Essas empresas conseguem agregar todas essas informações à sua enorme capacidade computacional, processar os dados, transformá-los em conhecimento e monetizá-los. Os lucros gerados a partir desse modelo são extraordinários”, resume.
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