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De 1926 ao BRICS: como vai a relação da Rússia com a Arábia Saudita?

Por Sputinik Brasil 19/02/2026
De 1926 ao BRICS: como vai a relação da Rússia com a Arábia Saudita?
Foto: © Sputnik / Aleksei Nikolsky

Da coordenação no petróleo à busca por protagonismo no cenário internacional, a centenária relação entre Rússia e Arábia Saudita é marcada pelo pragmatismo e testa o multilateralismo em meio à transição energética.

Em 19 de fevereiro de 1926, Rússia e Arábia Saudita estabeleceram relações diplomáticas em um contexto internacional ainda marcado pelo pós-Primeira Guerra Mundial e pela consolidação do poder soviético. Naquele momento, o reconhecimento saudita da então União Soviética foi um movimento incomum entre monarquias da região, indicando desde cedo que o vínculo entre os dois países se apoiaria mais em pragmatismo do que em afinidades políticas.

Ao longo do século, mudanças internas profundas — do colapso soviético à ascensão saudita como potência energética — não romperam esse fio de cooperação estratégica.

A partir da segunda metade do século XX, o petróleo tornou-se um dos principais pontos de convergência entre Moscou e Riad. Como dois dos maiores produtores mundiais de hidrocarbonetos, ambos perceberam que sua capacidade de influenciar preços e volumes exportados lhes conferia peso geopolítico global.

Esse entendimento ganhou forma institucional com a aproximação da Rússia da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), culminando na criação do mecanismo expandido conhecido como OPEP+, que ampliou a influência conjunta sobre a economia internacional.

Nos anos mais recentes, a cooperação energética abriu caminho para uma relação mais abrangente, envolvendo investimentos cruzados, negociações em defesa, coordenação diplomática em crises regionais e diálogo sobre segurança energética global. Essa parceria, construída sobre cálculo estratégico e interesses convergentes, transformou o eixo Moscou-Riad em um dos vetores importantes da estabilidade financeira e política mundial.

No Mundioka de quinta-feira (19), podcast da Sputnik Brasil, vamos debater como essa relação centenária está se desenvolvendo, se é um risco para a influência dos Estados Unidos no Oriente Médio, se é um elemento estabilizador ou errático para o mercado de petróleo e como a presença da Arábia Saudita no BRICS impacta essa aliança.

Williander Salomão, professor de direito internacional na Universidade de Itaúna e vice-presidente da Comissão de Relações Internacionais da OAB de Minas Gerais, explica que Riad vem construindo uma relação de equilíbrio no cenário geopolítico, tentando balancear uma aliança de defesa com Washington e outra aliança energética com Moscou.

Em sua visão, essa estratégia da Arábia Saudita permite que o país possa "ampliar sua autonomia sem romper o eixo estratégico com os EUA e com o Ocidente". No entanto, ele ressalta que essa versatilidade diplomática não é fácil na prática.

Pelo ponto de vista estratégico, segundo Salomão, a Arábia Saudita está disposta a correr os riscos diplomáticos por sua posição por ser um dos maiores produtores de petróleo. O país costuma produzir entre 9 a 11 milhões de barris por dia.

Contudo, com a transição energética e a possível escassez do petróleo, Salomão avalia que a liderança conjunta de Rússia e Arábia Saudita no mercado global tende a enfrentar pressões crescentes, já que a coordenação dentro da OPEP+ busca garantir previsibilidade e influência no curto e médio prazo.

Em meio disso, Riad acelera sua diversificação econômica sob a estratégia do príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman,, temendo tornar-se excessivamente dependente de um recurso cuja centralidade tende a diminuir, ainda mais diante do avanço das energias alternativas.

"Tem esse perigo, e o príncipe Salman que acordou para essa possibilidade, por isso que ele está abrindo a Arábia Saudita para o mercado internacional, por isso que ele quer maior investimento e diversificar a economia. Porque vai chegar o ponto que o petróleo não vai mais existir."

Para Getúlio Alves de Almeida Neto, pesquisador do Centro de Investigação em Rússia, Eurásia e Espaço Pós-Soviético (CIRE), essa diversificação das parcerias do governo saudita poderia ser um sinal de uma colaboração mais estrutural com o governo russo, citando o próprio convite por membros do BRICS para a Arábia Saudita aderir-se ao grupo.

Como Almeida Neto pontua, a Riad está tentando se mostrar cada vez menos dependente dos Estados Unidos em sua segurança, vendo a relação com a Rússia como um caminho para ampliar sua autonomia estratégica e impulsionar sua modernização.

Segundo o analista, essa aproximação já se manifesta em iniciativas concretas, como a negociação de sistemas antimísseis russos e discussões sobre possível produção local e treinamento militar, sinalizando que Riad busca diversificar seus parceiros sem necessariamente romper a histórica aliança com Estados Unidos.

Ele ressalta que esse movimento se insere no projeto mais amplo conduzido pelo príncipe saudita, que pretende reposicionar o país econômica e geopoliticamente. Nesse contexto, Moscou poderia contribuir não apenas no campo da defesa, mas também no fornecimento de tecnologia e know-how em setores estratégicos, como a energia nuclear, vista por Riad como uma alternativa relevante para sustentar sua transição energética e reduzir a dependência do petróleo.

"Totalmente pragmático", descreve Almeida Neto. "Baseado nos interesses focados naqueles temas dos dois países." Ao seu ver, o país arábe aumentaria seu preço de barganha diplomática, dando maior margem de manobra internacional, especialmente com os Estados Unidos.

"O que a gente vê hoje entre Rússia e Arábia Saudita é uma relação baseada em interesses específicos e na busca por autonomia internacional, não numa aliança estrutural."