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No franchising, 2026 testa estratégia, não otimismo

Por Paulo Mauro, precursor do Franchising no Brasil e CEO da Global Franchising, e Artur Larangeira, COO da Global Franchising* 19/02/2026
No franchising, 2026 testa estratégia, não otimismo
No franchising, 2026 testa estratégia, não otimismo

franchising brasileiro entra em 2026 sob um teste decisivo de maturidade e estratégia. Depois de um ciclo recente marcado por escândalos de governança, crescimentos excessivamente acelerados e modelos pouco sustentáveis, o setor passa a operar sob um critério mais rigoroso de sobrevivência. Não será um ciclo de expansão fácil, mas um momento em que eficiência, agilidade e leitura estratégica separarão operadores profissionais de aventureiros. Em um ambiente eleitoral, historicamente volátil, a franquia deixa de ser apenas uma alternativa ao desemprego e se consolida como destino de capital de médio e longo prazo, especialmente diante da expectativa de queda gradual da renda fixa, que hoje ainda segura parte relevante dos investidores.

Segundo a Associação Brasileira de Franchising, o setor cresceu 10,8% em faturamento em 2025, passando de R$ 264,874 bilhões em 2024 para R$ 293,535 bilhões. Ao mesmo tempo, de acordo com o Banco Central, a taxa Selic deve iniciar um ciclo de acomodação nos próximos anos, reduzindo a atratividade da renda fixa e empurrando investidores para ativos produtivos. Nesse contexto, franquias bem estruturadas oferecem retornos superiores quando combinam marca forte, operação eficiente e gestão profissional. O erro, porém, está em acreditar que as regras de 2020 ainda valem. O investidor que ignora tecnologia, capilaridade e custo operacional entra em 2026 com um modelo mental defasado.

A principal ruptura estrutural está na incorporação definitiva da tecnologia e da inteligência artificial ao DNA do negócio. Não se trata mais de sistemas de apoio, mas de franquias que operam com previsão de demanda, gestão de estoque em tempo real, automação de marketing e personalização da experiência do cliente. Segundo estudo da McKinsey sobre produtividade e IA, empresas que utilizam inteligência artificial em processos centrais registram ganhos de eficiência superiores a 20%. No franchising, isso se traduz em margens mais previsíveis e maior controle do risco. Redes que não internalizam essa lógica tornam-se rapidamente menos competitivas, mesmo com marcas conhecidas.

Outro vetor decisivo é a interiorização. O avanço do trabalho híbrido e do home office redistribuiu renda e consumo. Dados do IBGE mostram crescimento acelerado de cidades médias em regiões fora dos grandes centros, com aumento da renda per capita e da demanda por serviços estruturados. O interior deixou de ser plano B e passou a ser prioridade estratégica. Franquias que entendem esse novo mapa, com custos operacionais menores e mercados menos saturados, ganham vantagem relevante. Para o investidor, a equação é simples: operar perto de casa, com qualidade de vida e um modelo testado, tornou-se mais racional do que disputar aluguel e mão de obra nas capitais.

Há ainda uma transformação silenciosa no desenho operacional das franquias. A complexidade trabalhista e o custo de gestão de pessoas impulsionam modelos cada vez mais autônomos. Micro markets, lavanderias self service, academias 24 horas e operações com forte automação ganham espaço. Segundo dados do Sebrae, negócios com menor dependência de mão de obra apresentam maior taxa de sobrevivência nos primeiros cinco anos. A promessa não é ausência de trabalho, e sim redução de risco. O franqueado de 2026 busca previsibilidade operacional e menos exposição a passivos trabalhistas, enquanto o franqueador centraliza processos e escala eficiência.

O setor de saúde, bem-estar e serviços para o público sênior completa esse cenário. O Brasil envelhece rapidamente. De acordo com o IBGE, a população acima de 60 anos deve representar quase 30% do total até 2050. Esse público concentra renda, consome com recorrência e valoriza resultados concretos. Franquias de cuidados domiciliares, longevidade, prevenção e fitness especializado tendem a crescer acima da média.

Ainda assim, o otimismo exige cautela. O ambiente eleitoral traz incertezas fiscais e inflacionárias, e a história recente mostra que promessas fáceis costumam esconder estruturas frágeis. Em 2026, o franchising segue como um dos caminhos mais sólidos do empreendedorismo brasileiro, desde que a decisão seja guiada por dados, diligência profissional e visão estratégica. O lucro não virá da sorte, e sim da capacidade de ler o tempo certo e escolher com frieza onde investir.

*Paulo C. Mauro é um dos precursores do franchising no Brasil. Sua empresa, a Global Franchise, possui escritórios em São Paulo e nos Estados Unidos, e atualmente conta com associados em mais de 60 países, por meio de grandes grupos mundiais de consultores. É autor de quatro livros sobre franchising, sendo o mais recente "O Franchising do Futuro / O Futuro do Franchising", publicado em português, inglês, francês e espanhol.

*Artur Larangeiras é diretor comercial da Global Franchise e atua há mais de 15 anos no mercado de franchising, contribuindo diretamente para a expansão e consolidação de marcas em diferentes segmentos.