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América Latina sob pressão: como Washington reativa sua lógica de controle regional

18/02/2026
América Latina sob pressão: como Washington reativa sua lógica de controle regional
Foto: © AP Photo / Fernando Llano

A intensificação da postura externa dos Estados Unidos recolocou a América Latina nos holofotes. Entre operações navais no Caribe, pressões diplomáticas e discursos que associam narcotráfico à segurança nacional norte-americana, Washington voltou a tratar o hemisfério como espaço prioritário de influência.

Embora a retórica expansionista tenha repercussões globais — do Ártico ao Oriente Médio — é na América Latina que seus efeitos se tornam mais visíveis e imediatos. Isso por conta da região concentrar recursos estratégicos, ocupar posição-chave na disputa dos Estados Unidos com a China e permanecer marcada por fragilidades institucionais que ampliam sua vulnerabilidade externa.

Mais do que movimentos militares pontuais, o que se delineia é uma estratégia estruturada que combina produção de medo e pressão econômica como instrumentos de influência. A retórica da insegurança converteu-se em mecanismo de barganha política, enquanto temas como narcotráfico, migração e segurança energética passaram a funcionar como eixos legitimadores de uma projeção de poder que impacta diretamente o arranjo regional. É essa leitura que apresenta ao podcast Mundioka o professor de história da América da Universidade Federal Fluminense (UFF), Roberto Moll Neto.

"A discussão de Donald Trump e a narrativa dele não falam em democracia. Muito pelo contrário: ele invade a Venezuela e, na declaração seguinte que dá, deixa claro que invadiu a Venezuela em função do petróleo e da segurança dos EUA. Não tem nada a ver com levar a democracia para a América Latina."

Além disso, Moll avalia que que a chegada de Trump à Casa Branca "imediatamente" representou uma ameaça à soberania da América Latina. "Uma das primeiras medidas [do presidente] é a Operação Lança Austral, que é, de fato, uma operação militar do Comando Sul no Atlântico e no Pacífico Oriental, ou seja, no entorno da América Latina, sob a justificativa de que a América Latina é uma ameaça para os Estados Unidos, principalmente porque nesta narrativa de Donald Trump é da América Latina que saem as drogas que estão contaminando os Estados Unidos", acrescentou.

Segundo o professor, o discurso da guerra às drogas cumpre função política interna nos Estados Unidos. A crise de dependência química, especialmente de drogas sintéticas, afeta amplamente setores da classe trabalhadora norte-americana, em um contexto de estagnação econômica e frustração social.

"O que o Trump faz, quando ele fala que o problema está na América Latina e que as drogas vêm de lá, é deslocar o conflito distributivo nos Estados Unidos, ou seja, os problemas econômicos entre pobres e ricos, desigualdade social, etc".

Questionado se haveria interesse da Casa Branca na desintegração latino-americana, Moll é direto: "Os Estados Unidos não querem uma América Latina articulada, organizada, uma América Latina que se fortalece conjuntamente com projetos como o Mercosul".

O professor ressalta ainda que essa lógica não se limita a Trump. Segundo ele, a resistência a uma América Latina mais articulada é compartilhada por setores econômicos dos Estados Unidos representados tanto por políticos republicanos quanto democratas.

Minerais críticos e disputa geopolítica

Para o especialista, a a dimensão econômica é central para entender a postura da Casa Branca. "A América Latina é extremamente rica em minerais críticos, as terras raras, e por exemplo, petróleo, e os EUA, sobretudo neste governo, tem um projeto de se tornar mais independente em minerais críticos e terras raras, sobretudo em relação à China."

Mas o interesse não se limita aos recursos naturais: Moll destaca também o peso econômico do mercado regional. "Além disso, a América Latina tem um mercado consumidor enorme, relações comerciais que estavam se voltando para o mercado chinês e que agora os Estados Unidos tentam controlar novamente."

Bases militares e vizinhos instáveis: quais são os riscos para o Brasil?

Já o professor e coordenador do curso de Relações Internacionais da Uninter, Guilherme Frizzera, a instabilidade política e econômica nos países vizinhos causada pelos Estados Unidos pode gerar impactos diretos sobre a segurança brasileira, especialmente nas regiões da Amazônia. "Se nós tivéssemos um conflito, uma guerra aberta entre Estados Unidos e a Venezuela, não restaria ao Brasil outro caminho se não reforçar a sua presença militar na região amazônica", afirma.

O segundo cenário, considerado mais plausível pelo professor, envolve a ampliação da presença norte-americana por meio de bases militares ou cooperação coercitiva com governos da região.

"Um outro cenário que esse sim, no meu julgamento, ele é mais plausível e cada vez mais frequente quando a gente vai vendo ciclos eleitorais da América do Sul, é uma presença dos Estados Unidos através de instalação de bases militares na nossa região ou de cooperação do uso de forças coercitivas", detalha.

Frizzera cita o plebiscito no Equador, no qual a população rejeitou a instalação de uma base norte-americana. Caso o resultado tivesse sido diferente, a região teria uma potência estrangeira atuando diretamente em seu entorno estratégico. "Então, nós temos esse cenário que interfere mais no nosso cotidiano, mais do que um possível conflito que ainda não aconteceu", finaliza.


Por Sputinik Brasil