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China não adotou receita para sucesso vendida ao Brasil e se deu muito bem, diz Elias Jabbour

Sputinik Brasil 16/02/2026
China não adotou receita para sucesso vendida ao Brasil e se deu muito bem, diz Elias Jabbour
Foto: © AP Photo / Vincent Thian

Pesquisador detalha as teses de seu novo livro sobre como o modelo de planejamento e inovação na China transformou o país na segunda maior economia do mundo, compara caminhos do país com o Brasil e discute os desafios da reindustrialização brasileira em meio à transição para a multipolaridade.

O mais recente livro do geógrafo e pesquisador Elias Jabbour, ex-consultor da presidência do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o "banco do BRICS", em Xangai e atual presidente do Instituto Pereira Passos (IPP), do Rio de Janeiro, intitulado "Socialismo no Poder: Governança, Classes, Ciência e Projetamento na China", está previsto para março de 2026.

A obra que foi escrita em coautoria com o filósofo australiano Roland Boer propõe uma análise aprofundada do modelo de desenvolvimento chinês, responsável por uma das taxas de crescimento mais estáveis da história moderna. Jabbour e Boer discutem como a China, de um dos países mais pobres do mundo se transformou na segunda maior economia global, construindo uma base industrial e científica de referência internacional.

O livro aborda temas centrais como governança, classes sociais, ciência e planejamento estratégico, oferecendo ao leitor uma perspectiva detalhada sobre o que significa o socialismo no poder na China contemporânea.

Ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Elias Jabbour destaca quais são os principais elementos do modelo chinês que permitiram esse crescimento em diversas áreas, como a governança e o planejamento dialogam com questões sociais do país e de que forma o socialismo na China se equilibra com a inovação científica e industrial.

Nova teoria do socialismo

Jabbour começa dizendo que a China contemporânea representa um fenômeno que escapa às categorias tradicionais das ciências sociais. Segundo ele, as teorias ocidentais são incapazes de explicar o nível de desenvolvimento alcançado pelos chineses, que seguiram um modelo socialista em meio a um capitalismo dominante pelo mundo.

O pesquisador sustenta que a experiência exige uma atualização conceitual profunda para entender o caso, já que a China combinou elementos de planejamento estatal, mercado e inovação tecnológica de forma inédita, criando um arranjo institucional próprio. "A mobilidade urbana dentro da China é hoje muito maior do que 20 anos atrás [...] A China tirou do campo e colocou na cidade, nos últimos dez anos, cerca de 200 milhões de pessoas".

"É um Brasil. Sem criar uma única favela e colocar 200 milhões de pessoas na cidade, e isso significa ter casa, emprego, saneamento básico para 200 milhões de pessoas."

O autor também destaca que seu novo livro busca avançar nesse debate ao incorporar categorias filosóficas e políticas capazes de dar conta da governança chinesa. Para ele, socialismo não é uma abstração idealizada, mas uma forma histórica vinculada ao exercício do poder político e à construção de um projeto nacional.

'Máquina de previsão' chinesa

Sobre o nível de planejamento da China, Jabbour atribui a relação entre a coordenação estatal e o uso intensivo da tecnologia, citando o uso de soluções de Big Data, inteligência artificial, 5G e computação avançada. Segundo ele, isso dá uma capacidade ao país de se organizar de maneira mais eficiente do que nos últimos 20 anos.

Sobretudo, ele resume esse processo dizendo que o país criou uma “máquina de previsão”: um aparato técnico e humano capaz de antecipar gargalos econômicos e agir antes que se convertam em crises estruturais. Jabbour afirma que essa combinação entre o planejamento e a tecnologia permitiria à China operar em uma escala que desafia a compreensão convencional.

"Em 2035, eles vão alcançar o grau de desenvolvimento de uma nação como a Bélgica, por exemplo. De um Estado de bem-estar social com características chinesas completas."

O especialista destaca também o sistema ferroviário chinês, que, desde 2009, viu a construção de 45 mil km de trilhos. De quatro cidades com metrô, o país passou para 45 cidades atendidas, com trens chegando a 120 km/h.

O que o Brasil pode aprender

Ao comparar Brasil e China, Jabbour atribui o descolamento entre os dois países às escolhas econômicas feitas a partir dos anos 1990. Os dois países estavam mais ou menos no mesmo patamar da economia na década de 1980.

Ele argumenta que o Brasil seguiu à risca os preceitos do Consenso de Washington – diminuição do papel do Estado, privatização de ativos estratégicos, maior abertura comercial – enquanto a China adotou caminho oposto, preservando forte papel do Estado.

"O que eu posso dizer é o seguinte: a China não adotou a receita para o sucesso que foi vendida para o Brasil e eles se deram muito bem", resume o pesquisador.

O principal entrave brasileiro, em sua avaliação, é político. "O nosso desafio é de formar uma outra maioria política que tenha clareza de que o Brasil precisa se recolocar no mundo". Sem essa base política consolidada, não haveria condições de sustentar um projeto nacional de longo prazo.

Para ele, o eixo estratégico dessa reconstrução deve ser a indústria. "A luta pela reindustrialização é uma luta para recolocar o Brasil no mundo", diz. A reindustrialização seria condição para mobilidade social, fortalecimento da soberania e enfrentamento das desigualdades estruturais.

Jabbour também critica acordos de livre comércio, especificamente, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Em sua visão, esses acordos aprofundam a condição periférica do país. Ele defende uma relação estratégica com a China, voltada à reconstrução de cadeias produtivas, e não à mera exportação de commodities. Sem planejamento e sofisticação estratégica, o Brasil permaneceria vulnerável.

Apesar de ver o socialismo tendo uma forma histórica superior à capitalista, Jabbour não acredita ser possível que o Brasil tenha as condições subjetivas para a implementação de um sistema socialista. Em sua visão, o país não tem um projeto nacional de desenvolvimento, algo que deveria ser tratado com consciência pela ala da esquerda.

"Eu acho muito estranho: uma esquerda que se diz esquerda, mas ela não é nacionalista, por exemplo. Uma esquerda que se diz esquerda, mas ela não é desenvolvimentista. Então, se não é nacionalista, não é desenvolvimentista, é uma coisa errada. Porque ser de esquerda na periferia do capitalismo é defender antes de mais nada a soberania do país."

Multipolaridade e fim da hegemonia dos EUA

Ao analisar o cenário internacional, Elias Jabbour rejeita a leitura de que o mundo já esteja consolidado como multipolar. Para ele, a realidade atual é de transição instável. "O que existe hoje não é um mundo multipolar [...] o que existe é caos hoje no mundo", afirma. Segundo o professor, há uma tendência à multipolaridade, mas ela ainda está em formação, em meio a disputas abertas entre grandes potências.

Jabbour associa esse momento ao declínio relativo dos Estados Unidos, mas alerta que esse processo não ocorre de forma pacífica. Ele sustenta que a perda de hegemonia tende a ser acompanhada por intensificação da violência e do conflito. "A tendência é sim o mundo multipolar […] mas acompanhado de uma violência absurda", diz, ao caracterizar o comportamento histórico das potências em retração. Para ele, o imperialismo tem como traço estrutural a resposta agressiva diante da perda de espaço.

Como exemplo dessa dinâmica, ele menciona o conflito na Ucrânia, que, em sua leitura, não foi apenas contra a Rússia, mas também uma forma de enfraquecer a Alemanha. Segundo Jabbour, trata-se de uma "proxy war contra a Alemanha", que teria contribuído para deslocar unidades produtivas alemãs para os Estados Unidos.

Ele também destaca a aprovação recente de mais de 600 bilhões de dólares para o orçamento militar americano, comparando o volume apenas ao período da Guerra da Coreia, como indício de uma estratégia de reindustrialização combinada com manutenção de poder militar global.

Apesar do cenário de instabilidade, Jabbour vê na China um polo estruturante da transição. Ele descreve o país como potência comercial — "é o país que faz mais comércio com o mundo" —, potência industrial — "35% da indústria do mundo está na China" — e potência financeira, ao afirmar que a China se tornou "o maior credor líquido do mundo", superando FMI e Banco Mundial.

Ainda assim, ele insiste que a nova ordem não está dada: o que há é uma tendência histórica à multipolaridade, construída lentamente, em meio a disputas, reindustrializações nacionais e rearranjos geopolíticos ainda inconclusos.

"A multipolaridade está vindo de forma lenta, gradual e insegura, mas está vindo."