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Zelensky sabe desde o início que não vai ter paz se não ceder territórios, afirma analista

Sputinik Brasil 24/01/2026
Zelensky sabe desde o início que não vai ter paz se não ceder territórios, afirma analista
Foto: © AP Photo / Markus Schreiber

À Sputnik Brasil, analista diz que não há compromisso verdadeiro da Ucrânia, sob liderança de Zelensky, com as negociações de paz, e o regime de Kiev apenas segue o que é "muito bem pago" pela Europa para fazer: prolongar o conflito.

A reunião trilateral entre delegações dos EUA, Rússia e Ucrânia para discutir uma resolução do conflito ucraniano em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos (EAU) encerrou sem avanços nas negociações. Agora, a expectativa é um novo ciclo de reuniões previsto para próxima semana.

A reunião se concentrou nas questões territoriais e de segurança, as mais nevrálgicas para alcançar um acordo de paz. Para o analista internacional Ricardo Cabral, editor do canal Geopolítica e História Militar e coautor do livro "Guerra na Ucrânia: análises e perspectivas", as concessões territoriais seguem no centro do impasse diplomático. À Sputnik Brasil, ele afirma que há poucas chances de resolução se Vladimir Zelensky não for removido da liderança ucraniana.

"Zelensky sabe disso desde o início, que sem a concessão de Donbass ele não vai ter paz. É o jogo que ele faz. Ele recebe muito recurso dos europeus para manter os russos na guerra. Então, do ponto de vista diplomático, sem concessão com relação à questão territorial, que aparentemente é o que mais trava um acordo negociado, a tendência é você ter reuniões para combinar uma próxima reunião", afirma o analista.

Cabral avalia que uma estratégia dos EUA para alcançar um acordo pode ser articular a transição de governo na Ucrânia e lembra que a gestão do presidente norte-americano, Donald Trump, já fez pressão por eleições no país, algo que o regime de Kiev se recusa a fazer.

"Hoje, os ucranianos pediram pelo menos US$ 1 bilhão [cerca de R$ 5,2 bilhões] para fazer uma eleição. Ou seja, eles só pedem dinheiro, só querem dinheiro para fazer qualquer coisa", afirma.

Ele acrescenta que a corrupção na Ucrânia, que se aproxima cada vez mais de Zelensky, é outro problema, e que o chefe de gabinete de Zelensky, Kirill Budanov (incluído na lista de personalidades terroristas e extremistas na Rússia), pode receber o apoio de Washington como novo líder ucraniano no intuito de alcançar uma resolução rápida, como deseja Trump.

"Pelo menos, até o momento, ele [Budanov] não aparece em nenhum desses escândalos de corrupção. Pode ser que os americanos, a fim de facilitar o caminho para um acordo de paz, promovam uma mudança uma renúncia do Zelensky, uma eleição indireta em que o Budanov assuma."

Outro entrave apontado pelo especialista são os aliados europeus de Kiev. Cabral explica que a Europa aposta em uma exaustão russa no conflito que leve Moscou, em algum momento, a negociar em termos mais favoráveis à Ucrânia. No entanto, ele aponta que essa é uma hipótese distante e que não há cenário de vitória para Kiev.

"A Ucrânia vai perder de tudo quanto é jeito, mas, ao que parece, a exaustão dos europeus chegará primeiro do que uma possível exaustão russa", afirma.

O analista aponta que as negociações poderiam avançar muito mais, caso houvesse vontade verdadeira dos ucranianos de negociação, mas nota que, neste momento, "os ucranianos não têm vontade própria, fazem aquilo para o qual estão sendo muito bem pagos pela União Europeia".

"Enquanto os europeus não forem excluídos da forma de influência direta que exercem sobre a Ucrânia, eu acho improvável que os ucranianos cedam, pelo menos essa administração ceda, para chegar a um verdadeiro acordo de paz diplomático que atenda às demandas de segurança russa e ucranianas e que leve ao desenvolvimento da região como era antes."

O analista conclui que, enquanto os europeus continuarem influenciando a Ucrânia e Zelensky continuar se negando a aceitar ceder territórios, as partes vão continuar a se reunir por semanas, sem uma resolução.

"É muito provável que, enquanto não resolver essa questão do território, o resultado da reunião será marcar outra reunião, ou seja, mais do mesmo até os ucranianos cederem os territórios, ou pela força ou pela negociação diplomática."