Finanças

Dívida pública sobe a 82,9% do PIB em agosto e alcança maior patamar desde março de 2021

Aumento na gestão Lula é de 11,2 pontos percentuais; recorde é de outubro de 2020, durante mandato de Bolsonaro, em meio à pandemia de Covid-19

Agência O Globo - 30/09/2026
Dívida pública sobe a 82,9% do PIB em agosto e alcança maior patamar desde março de 2021
Dívida pública sobe a 82,9% do PIB em agosto e alcança maior patamar desde março de 2021 - Foto: Reprodução / Agência Brasil

A dívida bruta do governo geral registrou a oitava alta consecutiva em agosto, com uma elevação de 82,6% para 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), ou R$ 12,6 trilhões, segundo dados do Banco Central divulgados nesta quarta-feira. Este é o maior patamar em termos de percentuais do PIB desde março de 2021 (85,1%), durante a pandemia de Covid-19.

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Apostas:

O endividamento do país ocorre por conta do déficit público e do pagamento de juros para cobrir este rombo. O cálculo da dívida bruta leva em conta o governo federal, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e os governos estaduais e municipais. Este é um dos principais indicadores econômicos observados pelos investidores na avaliação da saúde das contas.

No governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a dívida bruta já apresenta alta de 11,2 pontos percentuais. O recorde da série histórica, no entanto, ocorreu em outubro de 2020 (87,7%), no governo de Jair Bolsonaro, em meio às medidas emergenciais adotadas para mitigar os impactos da pandemia.

No mês passado, o setor público consolidado registrou déficit primário (quando se desconta o pagamento dos juros da dívida) de R$ 10,012 bilhões. O resultado é mais favorável do que o rombo registrado em agosto de 2025, de R$ 17,255 bilhões.

Os dados do setor público consolidado levam em conta os resultados fiscais de União, estados, municípios e empresas estatais (exceto setor financeiro e Petrobras).

Entenda:

O déficit ocorre quando as despesas do governo superam suas receitas provenientes de tributos e impostos. O mesmo se aplica às empresas estatais, com suas receitas de serviços e produtos.

O resultado refletiu o déficit de R$ 14,687 bilhões do governo federal, um superávit de R$ 2,688 bilhões dos estados e municípios, e um resultado positivo de R$ 1,987 bilhões das estatais.

Em relação ao resultado nominal, que considera o pagamento de juros da dívida, o déficit em agosto foi de R$ 115,946 bilhões, pior do que o saldo negativo do mesmo mês do ano passado, de R$ 91,516 bilhões.

Em 12 meses até agosto, o déficit do setor público consolidado é de R$ 82,077 bilhões (0,62% do PIB), 0,05 ponto percentual abaixo do resultado em 12 meses até julho. Ao se considerar o critério nominal, há um déficit acumulado em doze meses de R$ 1,264 trilhão (9,48% do PIB), com um aumento de 0,13 ponto percentual do PIB em relação ao mês anterior.

O que dizem os especialistas:

Tiago Sbardelotto, economista da XP, destacou em nota que o governo central apresentou um déficit em agosto levemente menor que o registrado há um ano, refletindo ganhos com receitas relacionadas a petróleo e uma pequena redução no ritmo de crescimento das despesas, especialmente nas despesas discricionárias, que tiveram uma execução mais fraca neste mês – tendência que deve se repetir.

Segundo ele, os governos regionais, por sua vez, mostraram resultado positivo após três meses de déficits consecutivos, o que pode ser explicado pelas maiores transferências aos estados e municípios, especialmente de royalties de petróleo, e uma possível desaceleração das despesas com a entrada em vigor de restrições eleitorais mais rigorosas. Já o resultado das estatais é sazonal e não indica melhora consistente, embora a tendência no ano se mostre mais favorável, afirmou.

"A persistência de déficits primários aliada a uma elevada taxa de juros implícita, cujo nível se mantém próximo ao verificado em 2016, deve manter a dívida pública em alta. Uma mudança dessa trajetória requereria uma melhora estrutural na política fiscal que permita gerar superávits primários significativos", ponderou o especialista.

Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para a América Latina do Goldman Sachs, ressaltou que a falta de controle de gastos comprometeu severamente a credibilidade das metas fiscais e contribuiu para uma economia superaquecida e excessivamente endividada.

"Esperamos que a dinâmica da dívida bruta permaneça em trajetória de alta nos próximos anos. Colocar a dinâmica da dívida em uma trajetória de queda estrutural e sustentada, assim como constituir colchões fiscais, continua sendo um dos desafios macroeconômicos fundamentais. Isso exigiria superávits fiscais primários estruturais superiores a 2% do PIB, o que ajudaria a reduzir a taxa de juros real neutra. Em nossa avaliação, tal cenário é altamente improvável no curto prazo", concluiu.