Finanças

China compra mais petróleo brasileiro e quadruplica venda de carros elétricos

Transações com país asiático geraram um superávit de US$ 19,8 bilhões, quase metade do saldo positivo global do Brasil.

Agência O Globo - 15/07/2026
China compra mais petróleo brasileiro e quadruplica venda de carros elétricos
Foto: © Divulgação / BYD

As exportações do Brasil para a China no primeiro semestre deste ano alcançaram um recorde, com um expressivo aumento nas remessas de petróleo bruto e carne bovina, registrando crescimento de 22% em comparação com o mesmo período de 2025, totalizando US$ 58,3 bilhões . Já as importações subiram 8% , atingindo US$ 38,5 bilhões , impulsionadas por uma onda de veículos eletrificados.

As transações com o país asiático, principal parceiro comercial do Brasil, forneceram um superávit de US$ 19,8 bilhões , correspondendo a quase 47% do saldo positivo de todas as transações realizadas pelo Brasil globalmente de janeiro a junho.

Esse movimento reflete o rearranjo do comércio internacional em função do impacto do conflito no Oriente Médio sobre o fluxo de petróleo, além da crescente demanda por veículos eletrificados e semicondutores, conforme relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) .

O comércio com os Estados Unidos, segundo maior parceiro comercial do Brasil, totalizou US$ 36,4 bilhões nos primeiros seis meses deste ano.

Produtos

Na frente do avanço do comércio entre Brasil e China, os principais produtos são soja, minério de ferro e petróleo, que somam 76,5% das exportações brasileiras para o parceiro, ampliando as remessas da indústria extrativista. Com o mercado chinês impactado pelos bloqueios no Estreito de Ormuz, as exportações de petróleo do Brasil cresceram 62% em valor, em comparação com maio e junho de 2025, destacando um desempenho recorde, que combina uma expansão de 41% em volume com uma alta de 15,7% no preço da commodity. O país asiático adquire mais da metade ( 54% ) das exportações de petróleo brasileiras.

— O que chamou a atenção foi o petróleo. O Brasil se tornou um parceiro estratégico para a China. A parada no tráfego pelo Estreito de Ormuz tem consequências no comércio com a China, que depende de 50% de seu petróleo dessa região. Portanto, as exportações brasileiras aumentaram 62% nesse sentido — destaca o diretor de Conteúdo e Pesquisa do CEBC, Tulio Cariello : — A previsão para todo o ano é de registro em exportações. Em relação às mesmas, não podemos garantir, devido ao limite em carros elétricos.

Em março, abril e junho, as exportações de petróleo bruto do Brasil para a China atingiram os valores mais altos desde 1997, com um pico de US$ 3,35 bilhões em março, no mês seguinte ao início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã. No semestre, somaram US$ 15,1 bilhões , resultando em mais que o dobro das exportações totais do Brasil para a Argentina, que foram de US$ 7,3 bilhões .

Na esteira do aumento das exportações de petróleo, o Rio de Janeiro se torna o estado líder em vendas para a China, representando 23,3% do total das exportações brasileiras para o país asiático.

Embarque antecipado de carne

Cariello se mostra “cauteloso” ao avaliar se o tarifaço de Donald Trump influenciou a expansão do comércio bilateral entre Brasil e China.

— As pautas exportadoras do Brasil para os EUA e para a China são bastante diferentes. Não há um deslocamento natural de um mercado para o outro — pondera: — O envolvimento dos EUA no conflito em Ormuz impactou as exportações do Brasil para a China.

As exportações de carne bovina brasileira para a China dispararam 50% no primeiro semestre, totalizando US$ 4,8 bilhões . Somente em junho foram 158 mil toneladas e US$ 1,07 bilhão em vendas, o maior volume e faturamento de 2026. Esse movimento reflete a adoção de barreiras às exportações brasileiras, com uma cota de 1,1 milhão de toneladas prevista para este ano, com um imposto de 12% . A partir desse patamar, que já foi alcançado, será aplicada uma sobretaxa de 55% .

Como essa cobrança adicional retira competitividade da carne bovina brasileira no mercado chinês, o executivo acredita que pode haver uma retirada nas exportações neste segundo semestre, quando os refrigeradores brasileiros possivelmente terão que redirecionar seus produtos para outros países ou para o mercado interno.

Em paralelo, as remessas de carne de frango para a China voltaram a crescer. No ano passado, Pequim suspendeu essas importações do Brasil por seis meses, entre maio e novembro, após a detecção de um único caso de gripe aviária em uma granja no Rio Grande do Sul. Entre janeiro e junho, as vendas brasileiras de carne de frango para o mercado chinês somaram US$ 772 milhões , apresentando um aumento de 43% em relação ao primeiro semestre de 2025.

Importação de veículos elétricos quadruplica

No sentido inverso, os veículos eletrificados lideraram as orientações de forma acelerada, representando 15% do total das importações brasileiras do parceiro asiático de janeiro a junho, ou US$ 2,79 bilhões . As compras de carros híbridos plug-in dobraram, enquanto os elétricos quadruplicaram. Os veículos híbridos saltaram para o sexto lugar no ranking das importações feitas pelo Brasil da China, em comparação ao 25º lugar no mesmo período de 2025.

Ao todo, as importações de veículos eletrificados chineses representam 88% do total trazido ao Brasil do exterior. Os desembarques ocorrem principalmente pelo Espírito Santo.

O CEBC ressalta que esse avanço é resultado do esforço dos importadores brasileiros para antecipar embarques antes do aumento da tarifa sobre veículos eletrificados, que subiu de 25% para 35% a partir deste mês.

— É um volume sem comparação. E com o aumento do imposto de importação, os carros eletrificados apresentavam movimento semelhante ao da carne bovina, resultando na antecipação de compras por parte dos importadores — diz Cariello. — A tendência é de acomodação nos próximos meses, pois novas marcas chinesas estão chegando ao Brasil e já temos fábricas de BYD e GWM instaladas no país.

Os veículos eletrificados são seguidos pela importação de chips de memória. Neste caso, as famílias recuaram 2,6% em volume, mas o faturamento cresceu 218% , atingindo US$ 432 milhões , impactado pela demanda aquecida por semicondutores globalmente.