Finanças

Caso tarifaço seja confirmado pelos EUA, governo Lula avalia que taxação só será negociada após as eleições

Decisão americana pode ser tomada a partir desta quarta-feira

Agência O Globo - 15/07/2026
Caso tarifaço seja confirmado pelos EUA, governo Lula avalia que taxação só será negociada após as eleições
- Foto: Jose Fernando Ogura/AEN

Com a possibilidade de os Estados Unidos implementarem a tarifação de 25% sobre produtos brasileiros a partir desta quarta-feira (dia 15), membros do governo federal decidem que a medida só poderá ser negociada após as eleições. Esse cenário foi levantado por auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O governo avalia que, após o anúncio das avaliações, os EUA podem “reacomodar” o sentido de urgência sobre a implementação da tarifa, com foco no resultado eleitoral. Uma decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre o tema pode ser tomada a partir de hoje.

Embora o Palácio do Planalto pontue que não dá para antecipar a ocorrência do governo de Donald Trump, auxiliares de Lula trabalham com um panorama em que os EUA podem optar por esperar o escolhido nas urnas em outubro para ver em quais interrupções a negociação das novas taxas irão ocorrer, uma vez que Lula e Flávio Bolsonaro sejam diametralmente opostos na mesa de negociação.

Foco americano

Na visão do governo Lula, os EUA consideram que, com Flávio Bolsonaro, Trump teria mais facilidade para conseguir o que quer do Brasil, diferentemente da gestão petista. Em caso de vitória, Lula representaria a continuidade no modelo de relação comercial atual, evitando concessões aos EUA em troca de rompimento tarifário e manutenção do discurso geopolítico em favor do multilateralismo e das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O governo Lula, por exemplo, não abre mão de qualquer concessão quanto ao Pix , apontou pela investigação do USTR como instrumento que cria vantagens competitivas em relação a empresas privadas estrangeiras, como cartões de crédito, e nem de eliminar o imposto de importação do etanol americano — o que teria forte impacto no mercado interno.

A partir da decisão do governo americano de quarta-feira, o Palácio do Planalto vai calibrar uma resposta e passar a discutir a ocorrência. Há expectativa de que, juntamente com a tarifação, os EUA anunciem um processo de implementação da decisão. A possibilidade de reciprocidade nas avaliações será discutida apenas quando o governo tiver em mãos a lista de produtos que sofrerão as avaliações.

Auxiliares de Lula pontuaram que é fundamental aguardar a decisão dos EUA e ver item a item que sofrerá com a tarifa, para então medir e planejar a ocorrência do governo brasileiro.

Flávio pediu adiamento e deu munição a Lula

Em documento enviado ao USTR , Flávio Bolsonaro afirmou que a proposta sobretaxa sobre produtos brasileiros daria a Lula "exatamente a vitória política que ele vem buscando" e sugeriu que a negociação ocorreria após as eleições "uma vez que o cenário político que determinará as soluções de qualquer solução negociada será redefinido dentro de aproximadamente noventa dias".

"Separadamente, e como uma questão de momento, e não de quem se beneficia: o Brasil realizará eleições gerais em outubro de 2026, e o cenário político que determinará as soluções de qualquer solução negociada será redefinido dentro de aproximadamente noventa dias. Adotar uma medida irreversível agora — no momento de maior impacto de mobilização política — representa um mau uso do timing para qualquer instrumento de pressão, independentemente de qual partido isso favoreça. Preservar as opções disponíveis é a escolha estratégica superior", disse Flávio ao USTR .

O pedido de adiamento em vez de cancelamento foi usado por Lula para criticar o senador.

Entenda

A tarifa foi sugerida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), órgão responsável pela política comercial do país, e classifica uma série de atos, políticas e práticas brasileiras como "irracionais" ou capazes de restringir o comércio norte-americano. A investigação foi aberta em julho de 2025 pela determinação do presidente dos EUA, Donald Trump, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento já utilizado em disputas comerciais contra a China.

Entre os principais pontos apontados pelos americanos está o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, o Pix . Segundo o relatório, o Banco Central do Brasil atuaria simultaneamente como regulador e operador do sistema, criando vantagens competitivas em relação a empresas privadas estrangeiras que oferecem serviços de pagamento digital.

Os EUA também questionam decisões de tribunais brasileiros relacionadas a plataformas digitais. O documento afirma que as autoridades judiciais emitiram ordens sigilosas para remoção de conteúdos políticos e suspensão de perfis em redes sociais, inclusive de residentes nos Estados Unidos.