Finanças

Governo Lula vai negociar tarifaço apenas após eleições nos EUA

Decisão americana pode ocorrer a partir desta quarta-feira

Agência O Globo - 15/07/2026
Governo Lula vai negociar tarifaço apenas após eleições nos EUA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: © Sputnik / Guilherme Correia

Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que, caso os Estados Unidos implementem uma tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, a negociação poderá ocorrer apenas após as eleições. Este cenário é criado por auxiliares de Lula, que compartilham a possibilidade de um cenário favorável à vitória de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em outubro.

O governo observa que, após o anúncio das avaliações, os EUA podem “reacomodar” o sentido de urgência em relação à implementação da tarifa, priorizando o resultado eleitoral. Uma decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre o tema pode ser anunciada a partir desta quarta-feira.

Embora o Palácio do Planalto não possa antecipar a ocorrência da administração Trump, auxiliares de Lula estão trabalhando com um cenário em que os EUA podem optar por esperar o resultado das eleições de outubro, considerando que Lula e Flávio Bolsonaro apresentam demandas de negociação alternativas.

Na perspectiva do governo Lula, os EUA acreditam que, como Flávio, Trump teria maior facilidade em obter suas exigências, ao contrário da gestão petista. Em caso de vitória, Lula representaria a continuidade das relações comerciais atuais, evitando concessões de uma tarifa em troca de benefícios e mantendo o discurso em favor do multilateralismo e das normas da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Por exemplo, a gestão Lula não pretende abrir mão de concessões relacionadas ao Pix , que é apontada pela investigação do USTR como um mecanismo que confere vantagens competitivas em relação a empresas estrangeiras de cartões de crédito, e tampouco elimina a imposto de importação do etanol americano, que poderia impactar fortemente o mercado interno.

A partir da decisão americana de quarta-feira, o Palácio do Planalto calibrará uma resposta e iniciará a discussão sobre a ocorrência brasileira. Há expectativas de que, juntamente com o tarifaço, os EUA também divulguem o processo de implementação da medida. A possibilidade de reciprocidade nas avaliações será discutida apenas após a lista de produtos afetados que estarão disponíveis.

Auxiliares de Lula enfatizam a importância de aguardar a decisão dos EUA e analisar item por item que será impactado pela tarifa, para, assim, medir e planejar a ocorrência do governo brasileiro.

Flávio pediu adiamento e deu munição a Lula

Em um documento enviado ao USTR, Flávio Bolsonaro afirmou que a sobretaxa sobre produtos brasileiros seria para Lula "exatamente a vitória política que ele vem buscando" e sugeriu que a negociação deveria ocorrer após as eleições, uma vez que o "cenário político definirá as soluções de qualquer solução negociada dentro de aproximadamente noventa dias".

"Como uma questão de momento, e não realizada de quem se beneficiará: o Brasil serão eleições gerais em outubro de 2026, e o cenário político determinará a previsão de qualquer solução negociada dentro de aproximadamente noventa dias. Adotar uma medida irreversível agora — no momento de maior impacto de mobilização política — representa um mau uso do timing para qualquer instrumento de pressão, independentemente de qual partido isso seja favorecido. Preservar as opções disponíveis é a escolha estratégica superior", afirmou Flávio ao USTR.

O pedido de adiamento, em vez de cancelamento, foi utilizado por Lula para criticar o senador.

A proposta de tarifaço foi sugerida pelo USTR, órgão responsável pela política comercial dos EUA, que classifica diversas práticas e políticas brasileiras como "irracionais" ou que restringem o comércio norte-americano. A investigação foi iniciada em julho de 2025 a pedido do presidente Donald Trump, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, já utilizada em disputas comerciais com a China.

Entre os principais pontos criticados pelos americanos está o sistema de pagamentos instantâneos, o Pix . O relatório aponta que o Banco Central do Brasil atua tanto como regulador quanto operador do sistema, criando vantagens competitivas sobre empresas privadas estrangeiras que oferecem serviços de pagamento digital.

Os EUA também questionam decisões judiciais brasileiras envolvendo plataformas digitais. O documento menciona que autoridades judiciais emitiram ordens sigilosas para remoção de conteúdos políticos e suspensão de perfis em redes sociais, afetando inclusive residentes nos Estados Unidos.