Finanças
Otimismo localizado: por que o FMI melhorou a previsão de crescimento do Brasil e piorou a do mundo?
Economia do país deve crescer 2,4% este ano, segundo relatório que aponta impactos diferentes da guerra no Oriente Médio e a escalada do preço do petróleo entre as nações.
Na contramão da desaceleração da economia mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) elevou ontem a projeção de crescimento do Brasil para 2026, em um cenário no qual a guerra no Oriente Médio continua a pressionar a atividade global.
Como exportador de petróleo e outras commodities, o Brasil acaba sendo um dos poucos beneficiados pela alta dos preços da energia provocada pelo conflito, enquanto economias importadoras sofrem mais com inflação e perda de atividade.
No Panorama Econômico Mundial, divulgado ontem, o FMI elevou a previsão para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de1,9% para 2,4% este ano. Para 2027, a estimativa passou de 2% para 2,2%. Ao mesmo tempo, reduziu sua projeção para o crescimento da economia mundial em 2026 de 3,1% para 3%. Para o ano que vem, elevou a estimativa para 3,4%, contra 3,2% no relatório de abril.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) elevou sua previsão de crescimento da economia brasileira em 2026 para 2,4%, acima dos 1,9% previstos em abril. As estimativas estão no relatório Panorama Econômico das Perspectivas da Economia Mundial (World Economic Outlook), publicado nesta quarta-feira.
Embora o Fundo afirme que os riscos agora estão mais equilibrados do que em abril, as projeções foram calculadas antes de o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciar o fim do cessar-fogo. Os americanos atacaram o Irã novamente ontem à noite.
“Uma reescalada das tensões geopolíticas prejudicaria o crescimento e agravaria as pressões inflacionárias”, alertou o FMI.
Benefício a exportadores
O conflito, no entanto, tem efeitos diferentes sobre os países. Exportadores de energia fora da região da guerra, como o Brasil, tendem a ser beneficiados pela alta dos preços do petróleo, enquanto economias mais inseridas na cadeia global de tecnologia devem registrar crescimento mais forte graças ao avanço da inteligência artificial (IA) — que, segundo o Fundo, ajudou a amenizar o impacto do conflito.
Já países importadores de energia com menor participação nesse setor, como economias de baixa renda, devem sofrer uma desaceleração mais intensa.
No caso brasileiro, a melhora da projeção não advém apenas do cenário internacional. A revisão para cima reflete ainda o avanço da atividade acima do esperado no primeiro trimestre — quando o PIB cresceu 1,1% —, avalia André Valério, economista sênior do Inter.
Com isso, o carregamento estatístico (ou seja, o quanto o PIB cresceria no ano caso ficasse estagnado nos trimestres seguintes) saltou de 0,3% para cerca de 1,4%, ele explica. O economista ressalta que o ambiente geopolítico também beneficia as exportações brasileiras, especialmente de petróleo, o que impulsiona a economia:
— O Brasil tem se beneficiado desse poder geopolítico mais incerto nesse segundo governo Trump. Desde o ano passado a gente vê a balança comercial com desempenho melhor do que esperado. Este ano não está sendo diferente. Até a semana passada, estávamos com uma balança comercial já 40% maior do que a observada no ano passado.
Destaque para a indústria extrativa
Não por acaso, diz Valério, a produção industrial brasileira está sendo sustentada quase exclusivamente pela indústria extrativa. Enquanto setores sensíveis ao crédito, como bens de capital, estão no negativo, os bens intermediários, categoria que inclui o petróleo, seguem crescendo. Além disso, programas de crédito e aumento de gastos do governo deram tração à atividade.
Valério destaca que o Inter mantém uma projeção mais conservadora para o PIB deste ano, de 1,8%, por prever uma desaceleração no segundo semestre devido à reversão do impulso fiscal e aos juros ainda elevados.
Em nota, o Ministério da Fazenda destacou que o Brasil teve a segunda maior revisão positiva entre as economias do G20, atrás apenas da Coreia do Sul, que passou de 2,1% para 2,7%. A pasta ressaltou que as estimativas do FMI estão próximas daquelas elaboradas pela Secretaria de Política Econômica. “Se confirmadas as projeções, a média do crescimento do PIB, entre 2023 e 2026, será de 2,8%”, afirmou.
Inflação acelera
O Panorama Econômico Mundial também aponta que a inflação global deve acelerar de 4,1% em 2025 para 4,7% este ano, antes de recuar para 3,9% em 2027.
Para Valério, do Inter, a escalada das tensões no Oriente Médio tende a favorecer mais o crescimento brasileiro do que pressionar a inflação, já que o ganho com as exportações de petróleo supera, ao menos por enquanto, o impacto da alta dos combustíveis sobre os preços internos.
O FMI destacou ainda que os custos da energia estão 25% mais altos do que antes do início da guerra, em 28 de fevereiro, e devem permanecer assim até pelo menos o início de 2027 — pressupondo a reabertura do Estreito de Ormuz em meados deste mês, o que parece mais distante agora.
— Um novo conflito vai pegar a economia global em situação pior do que da primeira vez — disse à AFP a chefe da divisão de Estudos Econômicos Mundiais do Departamento de Pesquisa do FMI, Deniz Igan, antes da ação americana.
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