Finanças
Entenda as operações do Digimais apontadas como suspeitas pela PF
Banco afirma ter compromisso com transparência, conformidade regulatória e colaboração com as autoridades competentes
Alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) na terça-feira, o banco digital Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, é investigado por suspeita de fraude ao sistema financeiro nacional por meio de uma série de operações. Segundo a investigação, a instituição teria fraudado balanços e supervalorizado ativos para maquiar seu patrimônio e induzir investidores ao erro.
De acordo com a PF, o Digimais teria adotado métodos semelhantes aos atribuídos ao Banco Master, de Daniel Vorcaro, com atuação agressiva na oferta de investimentos com rentabilidade acima da média e garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Em nota, o Digimais afirmou que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar com a Justiça. “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes”, declarou o banco.
Crédito consignado e financiamento de veículos
O Digimais surgiu a partir da compra do Banco Renner, fundado em 1981 pela família de mesmo sobrenome. Edir Macedo adquiriu participação minoritária de 40% na instituição em 2009. Em 2020, o empresário assumiu o controle integral do banco, que passou a se chamar Digimais.
A instituição passou a atuar de forma agressiva no financiamento de veículos seminovos e no crédito consignado. Após um período inicial de crescimento acelerado, o Digimais começou a registrar prejuízos expressivos e alta inadimplência no pagamento de investidores.
Segundo as investigações, a carteira de veículos, registrada em R$ 3,5 bilhões, teria sido um dos ativos superavaliados usados para maquiar o balanço do banco.
Em meio aos resultados negativos, a instituição concentrou esforços na oferta de crédito consignado, modalidade em que as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento.
CDB e uso do FGC
Segundo a PF, foi entre 2023 e 2024 que o Digimais passou a adotar práticas similares às atribuídas ao Banco Master, com a oferta de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas acima de 110% do CDI, superiores às praticadas pelo mercado.
Assim como no caso da instituição de Daniel Vorcaro, a oferta de investimentos com remuneração acima da média teria sido sustentada pela garantia de proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Em janeiro de 2025, o ex-sócio do Master, Maurício Quadrado, anunciou a compra do Digimais. A operação, no entanto, não avançou, após ser barrada pelo Banco Central (BC).
Superavaliação de ativos
A Polícia Federal aponta ainda que, diante de prejuízos sucessivos, o Digimais passou a supervalorizar ativos para “maquiar” o balanço da instituição e tentar driblar auditorias e a fiscalização das autoridades. Segundo a investigação, o banco teria trocado sucessivamente auditorias independentes para evitar ressalvas em documentos públicos.
O relatório policial afirma que títulos antigos e sem valor da mineradora Vale foram avaliados em R$ 650 milhões. Também cita um terreno em Pernambuco registrado por R$ 150 milhões, embora seu valor real fosse inferior a R$ 10 milhões, além de uma carteira de imóveis.
Em outro caso, dois ativos que somavam R$ 71 milhões teriam sido reavaliados, em seguida, para R$ 174,5 milhões, inflando artificialmente o valor dos bens.
Teia de fundos
O banco teria utilizado uma sucessão de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), como o Fundo Hermon, para mascarar a aquisição de direitos creditórios por valores muito superiores aos custos originais.
Segundo a PF, em dezembro de 2025, o banco inflou em quase dez vezes o valor das cotas de fundos em seu balanço, contabilizando por R$ 741,348 milhões ativos que valeriam R$ 71 milhões.
Os R$ 670 milhões apontados como supervalorizados foram bloqueados na Operação Miragem. A investigação indica que o banco teria usado uma estrutura de fundos para melhorar artificialmente seus resultados contábeis.
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