Finanças

Motoristas de aplicativo estão mais vulneráveis ao endividamento, aponta TST

Pesquisa indica que custos mensais da atividade podem superar R$ 5 mil

Agência O Globo - 23/06/2026
Motoristas de aplicativo estão mais vulneráveis ao endividamento, aponta TST
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Do nada, um problema no motor e um vazamento de óleo. De repente, uma dívida de R$ 2.500 na oficina. Na última semana, a motorista de aplicativo brasiliense Bárbara Sousa, de 28 anos, viveu uma situação que define como parte da “rotina” e da “vivência” da profissão: quando os gastos ficam maiores que os rendimentos.

“Viraram parcelas no cartão de crédito”, lamenta.

Ela afirma que consegue fazer R$ 300, mas a conta não fecha quando o carro — ou o próprio profissional — precisa parar por algum motivo.

“É preciso trabalhar muito, umas 10 a 12 horas, para conseguir uma renda para sobreviver e pagar as dívidas”, relata.

A experiência de Bárbara integra pesquisa divulgada nesta terça-feira (23) pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) . O levantamento alerta que os motoristas de aplicativos estão mais expostos ao endividamento em razão da instabilidade e da imprevisibilidade da atividade, além da oferta de empréstimos diretamente pelas plataformas de transporte. As informações são da Agência Brasil.

afins de exploração

Segundo a pesquisa, esses empréstimos podem ser descontados diretamente dos valores recebidos pelas corridas, em percentuais que chegam a 30%. Na avaliação dos pesquisadores, o modelo reproduz práticas antigas de exploração, agora em ambiente digital.

No Brasil, de acordo com o TST, mais de 1,7 milhão de pessoas trabalham por meio de plataformas digitais e aplicativos de serviços. As empresas de transporte individual de passageiros negam a existência de vínculo empregatício e transferem aos trabalhadores os custos e riscos da atividade.

As plataformas também descontam, em média, de 20% a 30% dos ganhos dos trabalhadores pela intermediação com os clientes, embora esse cálculo não seja detalhado de forma transparente.

Custos

Os custos mensais da atividade podem superar R$ 5 mil, conforme estudo produzido pelo Centro de Pesquisas Judiciárias, Estatística e Ciência de Dados do TST. Os cálculos analisam o perfil de um motorista que trabalha 22 dias por mês, durante oito horas diárias, a uma velocidade média efetiva de 25 milhas por hora (km/h) em contexto urbano.

De acordo com a análise, as despesas dos motoristas que utilizam carro próprio chegam a R$ 5.566 por mês. Para aqueles que trabalham com veículos especializados, o custo mensal estimado é de R$ 5.706.

Falsa.

As despesas incluem combustível, manutenção e depreciação do veículo, seguros, tributos, pacotes de internet móvel, multas e alimentação. A jornada média semanal dos profissionais que atuam por plataformas chega a 44,8 horas.

O TST informou que o presidente do órgão, ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, avaliou que a ideia de “liberdade empreendedora” funciona como disfarce para a violação da dignidade do trabalhador.

“O trabalho em plataformas digitais é marcado pela profunda precarização, cumprimento de jornadas extenuantes, baixas remunerações e alto controle por algoritmos”, afirmou.

Conto do vigário

Em entrevista à Agência Brasil, em novembro do ano passado, o cientista político Leonardo Sakamoto afirmou que os motoristas apaixonados pelo aplicativo caíram no “conto do vigário” daquele que seria desenvolvido.

Para o pesquisador, o principal problema enfrentado pelos trabalhadores é que as plataformas ficam com boa parte dos recursos e pagam menos do que os motoristas e entregadores reivindicam.

Esse sufoco se traduz em casos como o de Bárbara Sousa, que trabalha com aplicativo há quatro anos.

"É tudo do nosso bolso. Não tem como não se dividir. Eu não me imagino fazendo isso daqui a cinco anos", afirma.