Finanças

Previ reage a decisão do Conselho da Vale e prepara disputa em assembleia

Fundo de pensão pediu reunião de acionistas para destituir o presidente do colegiado; Conselho recomenda voto contra a proposta

Agência O Globo - 23/06/2026
Previ reage a decisão do Conselho da Vale e prepara disputa em assembleia
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A Previ, fundação de previdência dos funcionários do Banco do Brasil (BB), ficou “desconfortável” com a decisão do Conselho de Administração da Vale, que, em reunião na última sexta-feira, contrariou parte do pedido apresentado no dia 11 pela entidade, maior acionista individual da mineradora. Agora, o fundo de pensão pretende trabalhar pela aprovação de sua posição na Assembleia Geral Extraordinária (AGE) de acionistas, marcada para 22 de julho, afirmou ao GLOBO a diretora de Participações da Previ, Adriana Chagastelles.

Destituição

Em carta enviada à administração da mineradora, a Previ solicita a convocação da AGE para destituir Daniel Stieler, presidente do Conselho, também a condição de membro do colegiado. A entidade indicou José Mauricio Pereira Coelho — que presidiu a Previ de 2018 a 2021, entre os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, e já integrou o Conselho da Vale — para ocupar a vaga. O fundo também declarou apoio à candidatura do conselheiro Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, conhecido como Ollie, para a presidência do Conselho.

Ao analisar o pedido, o Conselho da Vale convocou uma assembleia extraordinária, mas recomendou aos acionistas que votassem contra as mudanças propostas pela Previ. O colegiado defendeu a permanência de Stieler no cargo. Caso a AGE aprove a destituição, o Conselho aceitou a indicação de Coelho para a vaga, mas também incluiu o nome de Ieda Gomes Yell como candidata. Para a presidência do colegiado, o apoio foi declarado ao atual vice-presidente, Marcelo Gasparino.

Com isso, a definição ficará a cargo dos acionistas na assembleia de 22 de julho. As decisões foram reveladas pelo jornal Valor e confirmadas ao GLOBO por fontes que pediram anonimamente. Uma delas prevê uma “disputa acirrada” na AGE.

"Lógico que a decisão do Conselho nos causou bastante desconforto. O fato de termos uma reunião cuja pauta tratou da destituição de um conselheiro, que é o presidente do Conselho, e essa reunião contou não só com a participação dele, mas com ele presidindo. Mas não estamos na linha de sair entrando com nenhum tipo de ação ou impugnação, porque achamos que isso não é o melhor interesse da companhia", disse Adriana.

Um eventual pedido de impugnação poderia se basear em possíveis conflitos de interesses, já que Stieler presidiu uma reunião do Conselho e votou sobre o pedido apresentado pela Previ.

Ao sinalizar que pretende aguardar a decisão dos acionistas, a Previ invejou, na segunda-feira, uma nova carta à Vale solicitando a disponibilização, o quanto antes, dos documentos preparatórios da AGE, como o manual de participação. A cobrança ocorreu principalmente porque o edital de convocação divulgado na sexta-feira não trazia os nomes indicados pela Previ.

A pressa se deve ao fato de uma mineradora ter muitos acionistas estrangeiros, que tradicionalmente levam mais tempo para deliberar sobre seus votos nas assembleias. A solicitação dos documentos de apoio reforça a opção do fundo por uma solução definida pelo voto.

A declaração de apoio a Ollie para a presidência do Conselho sugeriu que a Previ acredita contar com respaldo de acionistas estrangeiros no pedido de troca de Stieler. O executivo português, com formação na África do Sul, está na Vale desde 2021 e tem décadas de experiência no setor de mineração, incluindo passagem por empresas como a Anglo American.

O perfil é selecionado por grandes investidores internacionais com participação relevante na Vale, como as gestoras americanas BlackRock e Capital.

Por outro lado, assim como os demais membros do Conselho, o mandato de Stieler como conselheiro se encerra em abril de 2027. A proximidade do fim do mandato contribui para questionamentos sobre as razões do movimento da Previ.

Como a fundação de previdência é compartilhada entre o BB e os funcionários do banco estatal, a Previ costuma ser vista como uma via de influência dos interesses do governo federal nas companhias em que investe.

Segundo Adriana, a Previ continua enxergando o alinhamento entre grandes investidores independentes do exterior e seus horários para o Conselho. A executiva também refutou qualquer influência política e afirmou que os próprios nomes indicados seriam um sinal disso.

Ela negou ainda que o momento do pedido de destituição, a menos de um ano do fim do mandato, possa levantar suspeitas. De acordo com a diretora, a Previ já planejava a saída de Stieler desde a virada do ano.

“O que fizemos, na verdade, foi provocar, levar à assembleia, um movimento que entendemos ser importante dentro da pauta de governança corporativa que vimos traçando desde 2017, de independência e de aumento da autonomia da governança”, afirmou.

Adriana adiantou também que, após o pedido de destituição de Stieler, a Previ se comprometerá a não indicar novos candidatos à presidência do Conselho da Vale na composição de chapas para a eleição prevista na Assembleia Geral Ordinária (AGO) de abril de 2027, quando terminarem os mandatos de os membros do colegiado.

A intenção do fundo de pensão é que a composição da chapa seja indicada pelo próprio Conselho para a AGO do próximo ano seja orientada pelo nome que a Previ já apoia, neste momento, para a presidência do órgão.