Finanças

Ata do Copom deve esclarecer corte da Selic e ruídos no comunicado

Texto divulgado pelo Banco Central não trouxe sinalização clara sobre os próximos passos da política monetária

Agência O Globo - 23/06/2026
Ata do Copom deve esclarecer corte da Selic e ruídos no comunicado
Selic

O Banco Central (BC) divulga nesta terça-feira a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada na semana passada. O documento deve detalhar a decisão unânime de reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,50% para 14,25% ao ano, mas é aguardado especialmente pelo mercado para esclarecer dúvidas deixadas pelo comunicado divulgado após a reunião.

A tendência é que o BC aprofunde sua avaliação sobre o cenário econômico, mas mantenha a estratégia de não oferecer muitas pistas sobre os próximos passos na condução dos juros. A Selic é o principal instrumento usado pela autoridade monetária para controlar a inflação.

O mercado financeiro acompanha com atenção as explicações sobre a mudança na comunicação do comitê, que afirmou ter decidido “alongar o horizonte relevante” da política monetária para justificar o corte. A sinalização gerou ruídos e pressionou os juros futuros e o câmbio nos dias seguintes ao anúncio, com analistas apontando uma possível maior tolerância do BC a desvios da inflação em relação à meta de 3%.

No comunicado divulgado após a reunião da última quarta-feira, o Copom destacou que o cenário doméstico apresentou indicadores de atividade econômica mais fortes no primeiro trimestre do ano, além de aceleração em medidas de inflação subjacente. No ambiente externo, a autoridade monetária citou a persistência de incertezas provocadas pelos conflitos no Oriente Médio e a postura conservadora do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos.

A ata desta terça-feira também deve indicar se o ciclo de cortes terá continuidade ou se os próximos passos permanecerão em aberto, condicionados à evolução dos dados econômicos e à ancoragem das expectativas de inflação, que voltaram a subir nas últimas semanas.

‘BC precisa dar explicação clara’, diz Meirelles

Para o ex-presidente do BC Henrique Meirelles, as atenções estarão voltadas para a ata do Copom.

— Na ata, o BC precisa dar explicação clara da estratégia dele aos atores econômicos. Há um risco sobre a credibilidade do BC. Ele precisa explicar algo que seja muito convincente, do porquê ele acha que, deixando a inflação acima da meta, ela vai cair lá na frente.

Segundo Meirelles, há “um preço” para esse tipo de condução da política monetária: a possibilidade de retorno de juros mais altos para levar a inflação novamente à meta.

Política monetária perde força

Ex-diretor de Política Monetária do BC, Luís Eduardo Assis avalia que o cenário reflete um certo esgotamento da política monetária diante da forte injeção fiscal em ano eleitoral e do receio de nova alta da inflação.

— Chegamos a um ponto que mostra um certo esgotamento da governança que criamos. Há uma série de medidas fiscais, parafiscais e creditícias que estão estimulando a economia, ao contrário do que a política monetária quer — afirma Assis, ao chamar atenção para a forte pressão dos juros altos sobre o ambiente de negócios no país.

O adiamento do leilão do Tesouro, avalia Sergio Goldenstein, fundador da Eytse Estratégia e ex-chefe do Departamento de Mercado Aberto do BC, decorre da leitura de “disfuncionalidade” das taxas.

— Fica o recado de que o Tesouro não sancionará esses patamares de juros — avalia.

Goldenstein lembra que a última interrupção de leilão ocorreu em março, no início da guerra no Irã, quando grandes fundos tiveram de revisar abruptamente suas expectativas para a flexibilização das taxas no Brasil. Na ocasião, o Tesouro chegou a recomprar um volume recorde de R$ 49 bilhões em títulos para conter a disparada das taxas. O economista prevê novas intervenções do Tesouro, com leilões de recompra, para reduzir a volatilidade.