Finanças
Anfavea teme volta de cotas para eletrificados importados e cobra cronograma do governo
Isenção do imposto terminou em janeiro, e tarifa de 35% sobre veículos híbridos e elétricos importados passa a valer em julho
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), entidade que representa as montadoras instaladas no país, cobrou que o governo federal mantenha o cronograma acordado com o setor e não libere novas cotas para a importação de veículos eletrificados.
A entidade teme que, na reunião da Câmara de Comércio Exterior (Camex), órgão interministerial responsável por formular e coordenar políticas de comércio exterior, marcada para esta terça-feira, voltem a ser estabelecidas cotas para a importação de carros híbridos e elétricos.
Anfavea
— Nenhuma empresa tem pedido benefícios adicionais para fazer investimentos, sejam cotas ou alíquotas, além daqueles benefícios que o governo estabeleceu em cronograma — afirmou Igor Calvet, presidente da Anfavea. Ele lembrou que os investimentos anunciados pelas montadoras no Brasil somam cerca de R$ 140 bilhões até 2030.
Novidade chinesa
A chinesa BYD é a única montadora que tem defendido a renovação das cotas e o adiamento da cobrança integral do imposto de importação de 35% sobre veículos eletrificados, prevista para julho. Nos últimos meses, representantes da empresa se reuniram com integrantes do governo federal.
Em maio, executivos da BYD, entre eles o presidente da BYD Brasil, Tyler Li, participaram de encontro com o vice-presidente Geraldo Alckmin. Também esteve presente o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues. A montadora inaugurou no ano passado sua primeira unidade no Brasil, em Camaçari (BA). Outro encontro entre a empresa e o governo ocorreu em junho, na sede do BNDES, em São Paulo.
A BYD iniciou a produção de veículos no país utilizando o sistema SKD (Semi Knocked Down, ou kit semiprontos) e deve evoluir para o modelo CKD (Completely Knocked Down, totalmente desmontado), à medida que a fábrica nacionaliza seus processos. O ciclo de isenções tarifárias e cotas para importação de veículos e kits desmontados terminou em 31 de janeiro, conforme cronograma definido pelo governo federal.
Na sexta-feira passada, houve uma reunião extraordinária do Comitê de Alterações Tarifárias (CAT), órgão federal responsável por analisar e debater pedidos de empresas relacionados ao comércio exterior, como mudanças nas alíquotas do imposto de importação. A pauta do encontro não foi divulgada, mas, segundo comentários no mercado, um dos temas discutidos teria sido a política de cotas e a alíquota aplicada aos veículos eletrificados.
O que chama a atenção da Anfavea é que a entidade, até agora, não foi procurada para dialogar sobre o assunto.
— A priori, não temos conhecimento de um pleito formal para a volta das cotas. Mas aconteceu uma reunião do CAT e amanhã haverá a reunião da Camex. Sempre mantivemos canal aberto de comunicação, mas, desta vez, não houve diálogo — disse Calvet.
O presidente da Anfavea afirmou não ver problema em governos criarem pacotes de incentivo para atrair investimentos, desde que os cronogramas estabelecidos sejam cumpridos, de forma a garantir equidade com a indústria nacional.
— Esse cronograma era o máximo aceitável. Se houver mudanças, seria o rompimento de um pacto — declarou.
Na semana passada, a Anfavea enviou carta à Presidência da República e a diversos ministérios cobrando a manutenção do cronograma de recomposição tarifária para carros elétricos e o encerramento das cotas de importação com alíquota zero. Segundo Calvet, em conversa com jornalistas nesta segunda-feira, o governo ainda não se manifestou.
No documento, a entidade apresentou números sobre os impactos que a retomada dos benefícios poderia causar à indústria automobilística nacional. Para a Anfavea, a medida iria na contramão da Nova Indústria Brasil (NIB), política federal lançada em janeiro de 2024 para modernizar e fortalecer o setor industrial, com foco em inovação, sustentabilidade e redução da dependência tecnológica externa.
Estudo da Anfavea aponta que a eventual massificação da fabricação de veículos com uso de kits importados poderia representar perda potencial de R$ 96,8 bilhões em vendas para o setor de autopeças, redução de R$ 24,3 bilhões na arrecadação do governo federal e eliminação de cerca de 68 mil empregos diretos e 191 mil postos em toda a cadeia produtiva.
A entidade também chama atenção para o elevado estoque de veículos eletrificados importados no país. Segundo a Anfavea, são cerca de 150 mil unidades, um crescimento de 200% nos últimos meses, o que, na avaliação da associação, distorce o mercado.
A posição da BYD em defesa da volta das cotas não é acompanhada por outras montadoras, especialmente as chinesas que iniciaram produção no Brasil no ano passado.
Para o especialista em mercado automotivo e sócio da consultoria K.Lume, Milad Kalume, uma mudança no cronograma prejudicaria a indústria nacional.
— É preciso ter um limite, senão daqui a 20 anos as empresas ainda estarão pedindo prorrogação para subsídios de SKD/CKD. Não ocorreu nada no mercado que justifique qualquer alteração no cronograma, e os chineses são craques em planejamento de longo prazo. A produção e o desenvolvimento da cadeia de fornecedores devem ocorrer aqui, e não lá fora — afirmou Kalume.
Procurada, a BYD informou que ainda não tem posicionamento sobre a questão.
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