Finanças
Síndrome do impostor faz profissionais atribuírem sucesso à sorte; entenda
Dificuldade em reconhecer conquistas pode afetar autoestima, inovação e desenvolvimento profissional
Depois de anos de estudo, dedicação e trabalho, imagine ouvir que você só chegou a determinado lugar por sorte. Para muitas pessoas, essa voz não vem de fora, mas de si mesmas. Esse padrão foi observado pelas psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes, que desenvolveram, em 1978, o conceito de “síndrome do impostor”. Segundo Beatriz Oliveira, psicóloga e mestre em Psicologia Institucional, os participantes da pesquisa tinham trajetórias de sucesso, mas conviviam com a sensação de não merecer o lugar que ocupavam.
A dificuldade de reconhecer o próprio mérito ainda faz parte da realidade de muitos profissionais. Um levantamento da consultoria de gestão KPMG aponta que 75% das mulheres em ambientes corporativos sofrem com a chamada “síndrome do impostor”. Quando a modéstia passa a funcionar como ferramenta de autossabotagem, é preciso acender o sinal de alerta.
— Eu prefiro entender essa síndrome como um fenômeno, porque ela é muito mais resultado das dinâmicas sociais — explica a psicóloga Beatriz.
Esse é o caso de Sofia Stefanon, de 27 anos. Empresária, ela reconheceu a questão, passou a trabalhar o tema em si mesma e aprende diariamente a lidar com seus gatilhos. Hoje, consegue compreender que nem todas as pessoas teriam conquistado o que ela conquistou. Anos atrás, porém, o cenário era bem diferente.
Sofia conta que sempre teve dificuldade para reconhecer suas conquistas e costumava dizer que elas não eram “nada demais”. Para ela, a humildade acabou sendo confundida com a anulação de si mesma e das próprias vitórias.
— Acho que uma parte disso vem de não querer ser arrogante em momento nenhum, de não querer parecer prepotente. Só que, muitas vezes, isso se desenvolve a um ponto em que você também não consegue se valorizar — reflete.
A neurocientista Gaya Machado afirma que a “síndrome do impostor” vem sendo documentada há quase cinco décadas, atravessando profissões e diferentes contextos. Para ela, não se trata de uma exceção, mas de um fenômeno em larga escala, que exige uma resposta cultural, e não apenas terapêutica. Segundo Gaya, esse comportamento apresenta alguns sinais, entre eles:
Excesso de trabalho e preparação desproporcional para a tarefa;
Dificuldade em internalizar elogios e resultados, atribuindo o sucesso à equipe, à sorte ou ao momento;
Relutância em assumir novos desafios, aceitar promoções ou candidatar-se a oportunidades para as quais a pessoa está claramente qualificada.
A neurocientista ressalta que é fundamental que gestores não rotulem dúvidas e hesitações naturais como “síndrome do impostor”. Ela explica que as consequências do fenômeno costumam aparecer no médio prazo.
No curto prazo, a ansiedade pode levar à superpreparação e a resultados elevados. Por isso, muitas pessoas com essas características apresentam alto desempenho. O custo, porém, surge depois. Embora sejam objetivamente bem-sucedidos, muitos profissionais se percebem como fraudes, o que reduz a autenticidade e a tolerância aos erros.
As consequências também podem afetar a saúde mental, aumentando o risco de burnout e depressão, além de provocar estagnação na carreira por medo ou recusa de aproveitar oportunidades.
Exercício mental: olhar externo
Em busca de uma forma mais saudável de enxergar suas conquistas, Sofia passou a fazer um exercício diante dos elogios que recebia: imaginar como avaliaria aquelas realizações se fossem de outra pessoa.
— Se outra pessoa tivesse conquistado o que eu conquistei, alcançado o que eu alcancei ou feito o que eu fiz, eu acharia isso incrível? E a resposta quase sempre era “sim”. Eu admiraria essa pessoa. Reconheceria o mérito dela. Valorizaria o esforço. Então, por que eu não fazia a mesma coisa comigo?
Hoje, sempre que percebe sinais de autossabotagem, Sofia recorre ao mesmo exercício para ganhar perspectiva. A prática a ajudou a reconhecer o próprio valor e a aceitar suas conquistas com mais naturalidade.
Sem comparações irreais
Sofia também percebeu que a sensação constante de não estar fazendo o suficiente alimentava sua “síndrome do impostor”. Com o tempo, entendeu que se comparar a pessoas em momentos completamente diferentes da vida era injusto consigo mesma.
— Não faz sentido comparar uma empresa de três anos com uma empresa de 20 anos. Não faz sentido comparar alguém que está começando uma jornada com alguém que já percorreu décadas de caminho — afirma.
A partir dessa reflexão, ela passou a buscar referências mais próximas de sua realidade e trajetória: pessoas em estágios semelhantes, com quem pode trocar experiências e ganhar perspectiva. Sobre esse ponto, a psicóloga Beatriz observa que o acesso facilitado às redes sociais pode ser inspirador, mas exige cautela, como destacou Sofia:
— É importante se perguntar: você está se comparando com essa pessoa, mas será que ela veio do mesmo lugar que você? Será que teve as mesmas oportunidades? Questione.
Para a psicóloga, é essencial que as pessoas tenham contato com indivíduos que compartilhem realidades parecidas, justamente porque isso ajuda a combater comparações injustas.
Novas perspectivas
Sofia afirma que hoje tem coragem para agir e fazer coisas que antes pareciam impossíveis. Um dos maiores exemplos é o empreendedorismo. Anos atrás, ela não imaginaria que seria capaz de empreender. Atualmente, possui dois negócios e também atua como influenciadora digital. Para ela, a mudança só foi possível quando passou a acreditar na própria capacidade.
— Tenho coragem de ocupar espaços, sentar em mesas, me expor e me desafiar de formas que antes pareciam impossíveis para mim — conclui.
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