Finanças

São João impulsiona pequenos negócios e faz arraiás faturarem alto no Rio

Festividades de junho e julho movimentaram R$ 7,4 bilhões no país e aquecem gastronomia, eventos e comércio

Agência O Globo - 21/06/2026
São João impulsiona pequenos negócios e faz arraiás faturarem alto no Rio
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

As festas juninas estão entre as principais forças sazonais da economia brasileira. Segundo o Ministério do Turismo, em 2025, os eventos de São João movimentaram cerca de R$ 7,4 bilhões no país — atrás apenas do Natal e do Carnaval. A manifestação cultural, no entanto, liderou a geração de empregos diretos e indiretos em áreas como turismo, alimentação e montagem de estruturas.

Tradicionais no Nordeste, as festividades também ganharam força no Rio de Janeiro e se consolidaram como uma oportunidade de faturamento para pequenos negócios. Veja a agenda ao fim da reportagem.

— Quando me casei, meu marido tinha um quiosque na Praia da Barra da Tijuca. Sou baiana e comecei a fazer comida nordestina lá. Mas o verão acabou, e a gente tinha que procurar sustento fora da orla. Um certo dia, há mais de 30 anos, chegou um convite para fazer uma festa junina no bairro, com carne de sol e aipim, e eu aceitei. Tudo o que tinha preparado para vender em um fim de semana, nós vendemos no sábado. Foi uma maravilha — conta Maria José de Souza, a Tia Mara, de 58 anos.

Durante anos, as finanças da família se equilibraram assim: verão na praia e inverno nos arraiás. Há cerca de duas décadas, porém, essa divisão deixou de existir. O quiosque foi vendido, e a comida nordestina se tornou o principal negócio, por meio das Coisas do Nordeste, que registra faturamento maior nos meses de junho e julho.

— A empresa tem oito funcionários fixos atualmente, mas, na época dos arraiás, movimenta cerca de 60 pessoas de sexta-feira a domingo. Minhas irmãs vêm de Salvador para me ajudar e ganhar dinheiro. No ano passado, eu fiz 16 eventos em apenas três dias — lembra Tia Mara.

As receitas da empreendedora estão em eventos fechados de condomínios e empresas, em agendas de shopping centers, como o Arraiá do Shopping Boulevard, e em festas de rua, a exemplo do circuito Juninas do Rio.

O projeto itinerante é comandado pelo produtor Arísio Nogueira dos Santos, CEO da empresa Carioca Circuito. Ele começou a organizar arraiás em bairros cariocas em 2017, quando realizou três festas. Para 2026, já estão previstas dez edições, que deverão representar até 80% do faturamento anual do negócio.

Apesar de as atenções dos cariocas terem sido divididas neste ano com a Copa do Mundo, o que tem freado parte do consumo típico, Arísio acredita na retomada do público nas Juninas do Rio quando o apito final sobe no futebol. Muitas empresas, segundo ele, deveriam se beneficiar da demanda reprimida.

— Cada evento tem cerca de 35 a 40 expositores de gastronomia, além de negócios de artesanato, decoração, bebidas e brincadeiras — afirma.

Ainda há tempo, portanto, para aproveitar a sazonalidade, seja ocupando novos pontos de venda, criando produtos e kits juninos ou lançando promoções relacionadas ao tema, orienta Raquel Abrantes, gerente de Mercado do Sebrae Rio.

— Até pessoas que não empreendem ao longo do ano podem fazer renda extra nessa época com um bom bolo de aipim ou um cural diferenciado. Mesmo que comece agora, o importante é anotar num bloco o que foi vendido e o que é possível melhorar, para no ano que vem se programar com mais antecedência — diz um especialista.

'É um extra bom'

Leia o depoimento de Vânia Oliveira, dona das Delícias da Vânia, de 53 anos:

Eu trabalhei em cozinhas a vida toda e, atualmente, empreendo assim. Levo estação para fazer tapioca, pastel e crepe nas festas e, às quintas-feiras, estou no samba da Fundição Progresso. Nessa época de meio de ano, o negócio melhorou bastante, e eu incrementei o cardápio com milho e baião de dois, por exemplo. As pessoas vão aos arraiás já determinado a comer. É diferente de um dia de show comum. Se, em um dia normal na Fundição Progresso, eu vendo R$ 1 mil, no arraiá chega a R$ 5 mil. Além disso, se eu faço quatro eventos fixos em outros meses, em junho, julho e agosto chego a dez por mês. É um extra bom e importante para pagar as contas apertadas.

'Poderia sustentar o ano'

Leia o depoimento de Franciane Vieira, dona da Ação & Diversão, de 46 anos:

Minha empresa monta espaços kids e oferece animação para eventos abertos e fechados durante o ano inteiro, desde 2012. A festa junina agrega valor a esse negócio. Os brasileiros gostam muito da época, e a demanda é grande. Quase todos os produtores fazem eventos todas as semanas, além das empresas também chamamem. Para atendê-los, já visitei a contratação de 80 funcionários nesse período. O faturamento é fora de concorrência. Consigo, em dois meses, o que poderia me sustentar o ano todo. Eu levo brincadeiras típicas, touros mecânicos e brinquedos infláveis ​​para o circuito Juninas do Rio, por exemplo, e já vendi 1.500 tíquetes para brincadeiras por dia.

'É o menu mais marcante'

Leia o depoimento de Flávia Olmo, dona da Que Doce!, de 35 anos:

A gente trabalha sazonalidade na doceria. No verão, tem doces mais refrescantes. Nada de inverno, fondue. Mas o mais marcante é o menu junino. São oito produtos, como quindim, canjica de leite e bolo de milho. Essas comidas parecem que abraçam a gente e caem muito bem nesse clima. Tem gente que vem à casa somente por causa delas, porque não tem disposição ou possibilidade de ir a uma festa. E há clientes que vêm todos os dias, mas, nesta época, encontram novidades no cardápio. Então é positivo para todos. Além disso, por ser uma região turística, os gringos veem doces completamente diferentes dos que conhecem. E fazem muito sucesso.

'Vende mais do que Natal'

Vendemos roupas desde 1998, e a fabricação própria começou em 2005. Há três anos, eu quis fazer modelos juninos para meus filhos que fossem além da blusa xadrez. Vesti minha família com a mesma estampa, e isso gerou muita repercussão no evento. Todo mundo pedia para tirar fotos. Então, vi que esse era um caminho para a marca. Iniciamos uma coleção especial de roupas juninas e vendemos somente ela em junho e julho. Era só camisa e saia, mas atualmente também temos calça e vestido. São 18 estampas. Esse período potencializa muito o negócio. Vendemos 50% mais do que em outros meses do ano. Mais do que no Natal.

Casas de show colocam arraiás na agenda

A trilha sonora é um dos componentes mais importantes de um arraiá. Por isso, quem oferece shows o ano inteiro também quer aproveitar a temporada. Casas como a Fundição Progresso e o Circo Voador, na Lapa, convidam grandes nomes da música brasileira para comandar seus eventos e se dedicam a oferecer uma experiência completa ao público.

— A Fundição Progresso vira uma cidade pequena. É uma festa de quermesse, com mais de 20 barracas de comida. Essas barracas, às vezes, têm cinco pessoas trabalhando. E ainda alugamos touro mecânico, fazemos decoração. Então são muitos negócios favorecidos a cada edição — conta o diretor da casa, Uirá Fortuna.

No Circo Voador, as bandeirinhas no alto também não faltam, assim como a quadrilha. As delícias servidas são de produção própria. E a caixa, ao fim da noite, confirma como os arraiás são diferentes de tudo o que uma casa costuma realizar no restante do ano.

— Talvez seja nossa única festa do ano em que a receita com comida seja realmente relevante. O show, a quadrilha, o friozinho: tudo isso dá fome — disponível a produtora Gaby Morenah.

Próximos eventos no Rio

27 e 28 de junho: Juninas do Rio na Quinta da Boa Vista. Entrada franca.

4 de julho: Arraiá do Circo Voador com Geraldo Azevedo. Ingressos a partir de R$ 90.

17 de julho: Arraiá da Fundição Progresso com Mariana Aydar e Forroçacana. Ingressos a partir de R$ 60.