Finanças
G7 pressiona big techs a reforçar proteção de crianças no avanço da IA
Convidado para reunião do grupo, Lula critica uso da inteligência artificial em “práticas nefastas”, alerta para desigualdades e defende o Pix como infraestrutura pública digital
As potências do G7, grupo que reúne algumas das maiores economias do mundo, fizeram um apelo às gigantes de tecnologia para que desenvolvam ferramentas capazes de garantir a segurança de crianças na internet, em meio às crescentes preocupações com os impactos do avanço da inteligência artificial (IA).
“Apelamos aos provedores de serviços digitais para que desenvolvam e implementem tecnologias e sistemas que garantam experiências seguras, protegidas e adequadas à idade”, afirmaram os líderes dos países do G7 em declaração conjunta após reunião em Paris.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou da cúpula como convidado do presidente francês, Emmanuel Macron. A declaração também foi endossada por Brasil, Coreia do Sul, Egito, Índia e Quênia. O texto foi divulgado após um almoço a portas fechadas com executivos de empresas de IA da América do Norte, Europa, Índia e Japão, entre eles Sam Altman, da OpenAI, e Dario Amodei, da Anthropic.
Em seu discurso, Lula criticou o uso da IA em “práticas extremamente nefastas”, como armas autônomas, manipulação de imagens de crianças e mulheres e precarização do trabalho. O presidente brasileiro alertou para o risco de ampliação das desigualdades globais e defendeu o Pix como exemplo de infraestrutura digital pública.
Lula citou dados sobre a concentração do mercado global de serviços digitais e afirmou que boa parte dos países em desenvolvimento ainda participa da economia digital principalmente como fornecedora de dados, consumidora de tecnologia e exportadora de insumos estratégicos.
Ao tratar de soberania digital, o presidente defendeu que os dados produzidos por cidadãos e instituições gerem valor para as próprias sociedades. Segundo ele, a infraestrutura digital pública tornou-se um dos ativos mais estratégicos do século XXI.
Lula também defendeu a regulamentação das plataformas digitais e afirmou que as discussões sobre inteligência artificial devem ocorrer em fóruns multilaterais, sob coordenação da Organização das Nações Unidas (ONU).
Os países do G7 ainda divergem sobre tributação e regulamentação do setor digital, além de outros pontos de discordância que ficaram expostos na cúpula. A norte-americana Anthropic suspendeu o acesso de outros países à versão mais avançada de sua tecnologia por determinação do governo Donald Trump, que alegou risco à segurança nacional.
A medida dos Estados Unidos provocou reações entre aliados e impulsionou, dentro do G7, o debate sobre a criação de um programa de “parceiros confiáveis”. A proposta prevê um mecanismo que permita a países considerados seguros acessar ferramentas avançadas de IA, contornando, ao menos em parte, as restrições impostas por Washington.
“Os Estados Unidos e a União Europeia devem ser parceiros sólidos em matéria de IA”, declarou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao defender que cidadãos e empresas “possam utilizar com total segurança os melhores modelos” de inteligência artificial.
Anfitrião do encontro do G7, Macron reforçou a dimensão geopolítica do debate ao afirmar que “modelos de inteligência artificial de ponta não devem cair nas mãos de regimes autoritários” e que “as democracias devem cooperar nessa questão”.
Terras-raras
Em outra decisão, o G7 comprometeu-se a reduzir “significativamente” a dependência da China como fornecedora de minerais críticos. Os líderes reunidos em Paris concordaram que nenhum país isoladamente deverá responder por mais de 60% das compras externas de minerais críticos e terras-raras até 2030.
A participação de Sam Altman (OpenAI), Dario Amodei (Anthropic), Demis Hassabis (Google DeepMind) e Arthur Mensch (Mistral) em almoço da cúpula do G7 evidenciou o crescente poder político das maiores empresas de inteligência artificial do mundo.
Em suas declarações, Altman defendeu “um fórum internacional de discussão que estabeleça padrões globalmente aceitos para testes, forneça análises especializadas e imparciais de capacidades e riscos e sirva como espaço de cooperação entre as nações”, segundo comunicado da OpenAI.
Demis Hassabis, do Google DeepMind, teria defendido a criação de uma coalizão liderada pelos Estados Unidos para definir regras e padrões em torno da inteligência artificial, de acordo com fontes que participaram do almoço. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, concordou que os EUA poderiam liderar a iniciativa, afirmaram as fontes.
Em discurso ao grupo, Amodei afirmou que as áreas de cooperação internacional devem incluir o acesso estruturado a modelos de ponta e o comércio de chips e componentes críticos que exclua a China, segundo uma fonte. Ele também defendeu cooperação entre países para enfrentar riscos da IA em cibersegurança, bioterrorismo e áreas de inteligência.
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