Finanças

Acordo para o fim da guerra no Oriente Médio leva governo Lula a prever alívio na inflação e nos juros

Avaliação da equipe econômica é que, se negociação for bem sucedida, poderia conter alta de expectativas de inflação

Agência O Globo - 16/06/2026
Acordo para o fim da guerra no Oriente Médio leva governo Lula a prever alívio na inflação e nos juros
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Reprodução / Instagram

A equipe econômica do governo de Luiz Inácio Lula da Silva vê com otimismo o acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã para encerrar o conflito no Oriente Médio. Caso realmente vá adiante, a trégua tende a normalizar os preços do petróleo, embora um retorno aos níveis anteriores à guerra, iniciada no final de fevereiro, seja improvável no curto prazo.

Nesta segunda-feira, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que já assinou o acordo preliminar com o Irã e que o Estreito de Ormuz, por onde passava um quinto do fornecimento mundial de petróleo antes da guerra, deve ser reaberto até sexta. O memorando prevê um cessar-fogo em todas as frentes do conflito por 60 dias, período no qual os dois países continuariam a discutir questões mais difíceis, como o futuro do programa nuclear iraniano.

Como resultado do avanço das negociações, a cotação do barril de petróleo despencou no primeiro pregão após o anúncio do entendimento preliminar, voltando aos patamares de março. O barril de petróleo tipo Brent para agosto, referência global para o mercado, caiu quase 5% nesta segunda, para US$ 83,17. Nos momentos mais tensos da guerra, a cotação superou US$ 110, mas antes do conflito figurava mais próximo dos US$ 70.

Embora seja difícil um retorno para os níveis anteriores ao ataque de EUA e Israel ao Irã, em 28 de fevereiro - até porque há dúvidas sobre a duração da paz -, um interlocutor da área econômica do governo Lula acredita que o barril pode cair abaixo de US$ 80 se realmente o acordo se concretizar.

Isso pode gerar repercussões positivas para o cenário de inflação e juros no Brasil. Na avaliação do Ministério da Fazenda, o salto nas projeções inflacionárias estão vinculadas ao impacto da guerra no mercado de petróleo.

Antes do conflito, a expectativa no Boletim Focus para o IPCA - índice oficial da inflação - estava abaixo de 4% tanto para 2026 quanto para 2027. Agora, está em 5,30% para este ano e 4,10% para o ano que vem. A projeção do governo também subiu, embora ainda se situe no limite de tolerância da meta (4,50%).

Como consequência, o Banco Central colocou um pé no freio no processo de redução dos juros. No mercado, antes da guerra, o cenário era de queda da Selic de 15% para 12%, mas a pesquisa Focus realizada na semana passada e divulgada nesta segunda prevê uma queda bem menor, para 13,75%.

Nesta semana, o BC deve promover o terceiro corte de 0,25 ponto percentual, reduzindo a taxa de 14,50% para 14,25%, mas uma ala relevante de economistas vinha apontando que essa queda poderia ser a última do ciclo.

Outro integrante da equipe econômica avalia que o acordo pode conter o aumento das expectativas de inflação. Além do impacto dos preços do petróleo, havia um temor de que a alta de fertilizantes poderia prejudicar a próxima safra brasileira, que começa no segundo semestre, com efeito também nos preços de comida no país.

Uma descompressão nos preços do petróleo pode também diminuir a demanda por novas medidas para reduzir os preços dos combustíveis nas bombas. O governo já lançou um pacote bem extenso, com subvenção do diesel, gasolina e gás de cozinha, com custo bilionário para os cofres públicos, que, por sua vez, tende a ser compensado pelos ganhos de arrecadação com royalties do petróleo e outras rubricas diretamente vinculadas à alta da commodity.

Se o cessar-fogo for adiante, pode reduzir ainda a necessidade de aprovação do projeto que autoriza o uso de receitas extraordinárias vinculadas à alta do petróleo para bancar o pacote de medidas para mitigar o efeito da guerra sobre a população brasileira. No entanto, com tantas reviravoltas nas negociações entre EUA e Irã desde fevereiro, há cautela sobre o sucesso do novo acordo.