Finanças

Lula anuncia fim da 'taxa das blusinhas'

Integrantes do Palácio do Planalto avaliam que tarifa afetou popularidade do presidente

Agência O Globo - 12/05/2026
Lula anuncia fim da 'taxa das blusinhas'
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Ricardo Stuckert / PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, nesta terça-feira (dia 12), o fim da chamada "taxa das blusinhas" — cobrança de 20% para produtos importados de até US$ 50. A cinco meses das eleições, a ala política do governo defendia a revogação total da tarifa, apontando nos bastidores como um foco de desgastes da atual gestão.

O termo "taxa das blusinhas" é utilizado para se referir ao programa Remessa Conforme, criado para viabilizar a cobrança do Imposto de Importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. Antes, na prática, a taxa estava zerada. Para compras acima de US$ 50, segue valendo o imposto de 60%.

A partir de quarta-feira, as compras até este valor não pagarão imposto, de acordo com o governo. Porém, ainda haverá a cobrança de ICMS. A mudança será viabilizada por uma medida provisória assinada pelo presidente Lula.

– O presidente está assinado a MP (medida provisória), que vai sair no Diário Oficial. Em paralelo, vai sair uma portaria do Ministério da Fazenda zerando a alíquota – disse o secretário executivo da pasta, Rogério Ceron.

De acordo com dados da Receita Federal, nos quatro primeiros meses de 2026, o governo arrecadou R$ 1,78 bilhão em imposto de importação com as encomendas. Foi uma alta de 25% na comparação com o mesmo período do ano passado.

O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, fez um discurso em caráter eleitoral e mostrou como a medida beneficia classes populares.

– O que importa é que são produtos de consumo popular. Os números mostram que a maior parte das compras é de pequeno valor. O que o senhor está fazendo é retirar impostos federais do consumo popular, do consumo das pessoas mais pobres. O senhor está melhorando o perfil da nossa tributação.

Ministra da Casa Civil

A ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, por sua vez, aproveitou o anúncio para fazer uma declaração a pedido da primeira-dama Janja da Silva. Ele reclamou da forma como a taxa é conhecida e disse que isso estigmatiza as mulheres.

– Muito se fala em taxa das blusinhas, que embute informações incorretas. A primeira é que parece só mulher que compra nesses sites. Não é verdade, tem muita criança, que pega pequenos selinhos, canetinhas, etc, mas também homem que compra um monte de gadgets, capa de celular, etc. Essa é uma questão que a Janja está pedindo para reforçar, que não é só roupa, tem um conjunto de outros bens que são comprados, todos de um valor muito pequeno – disse a ministra.

O anúncio também contou com a presença de Lula, Janja, do vice-presidente Geraldo Alckmin e dos ministros da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos; das Relações Institucionais, José Guimarães; da Indústria, Márcio Elias Rosa; da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira, do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA); e da deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR).

Debate político

O debate sobre o assunto voltou diante do anseio do Palácio do Planalto de ampliar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva frente à maior competitividade da candidatura de Flavio Bolsonaro (PL) nas pesquisas.

O cenário de zerar totalmente a taxa era defendido por uma ala do governo com assento no Palácio do Planalto que argumenta que a mudança precisa ter impacto efetivo nas compras de valores mais baixos e com isso impactar a população de renda mais baixa.

Nos levantamentos internos do Palácio do Planalto, a "taxa da blusinhas" é apontada como um dos principais pontos negativos do governo, junto com segurança pública e temas como combate à corrupção. Essas aferições têm motivado a ala política do governo a rever a medida.

A retomada do debate ocorre em um contexto de pressão sobre o custo de vida e de tentativa do Planalto de melhorar a percepção de renda da população. O debate ganha tração em um contexto no qual o governo também trabalha em medidas para reduzir o custo de crédito e o comprometimento de renda da população com dívidas.

Aprovação no Congresso Nacional

O principal receio para redução da "taxa das blusinhas" era a reação do varejo doméstico, que passou a defender a tributação como forma de equilibrar a concorrência com plataformas estrangeiras. Foi esse discurso que levou o Congresso Nacional a aprovar a cobrança com votos da direita à esquerda.

Há também preocupação com o sinal de política econômica, especialmente no campo fiscal, ainda que o impacto direto sobre a arrecadação seja bem limitado, dado que o tributo arrecada menos de R$ 2 bilhões.

Criada em 2024

A “taxa das blusinhas” foi criada em 2024. Naquele momento, havia reclamações do varejo nacional porque compras abaixo de US$ 50 vinham ao Brasil sem cobrança de imposto, disfarçadas de encomendas pessoais.

Por conta disso, foi criado o chamado "Remessa Conforme". Esse programa reduz de 60% para 20% o Imposto de Importação nas compras internacionais de até US$ 50, em sites cadastrados. Também é necessário pagar o ICMS, que é 17%.