Finanças
Contaminação: o que fiscais encontraram na fábrica da Ypê?
Máquinas e tubulações da empresa em Amparo (SP) tinham acúmulo de poeira. Vigilância sanitária investiga possibilidade de contaminação de água por esgoto
Uma inspeção técnica levou ao fechamento de uma linha de produção da fábrica da Ypê, em Amparo (SP). Pela segunda vez, foi identificada a presença de microrganismos em itens de limpeza produzidos no local. Isso fez com que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinasse o recolhimento de uma série de 22 produtos da marca. Segundo fiscais envolvidos na apuração, foram encontrados problemas de higiene na fábrica, e uma das suspeitas investigadas é a de contaminação da água usada na produção por esgoto.
Segundo o diretor do Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS), Manoel Lara, a decisão de interromper a produção foi motivada por uma incapacidade da companhia de resolver de maneira consistente o problema, constatada inicialmente em novembro do ano passado.
Naquela ocasião, foi detectada a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em amostras de produtos feitos no ano passado. Esse patógeno não é altamente contagioso, mas oferece risco porque costuma infectar pessoas com baixa imunidade. É um organismo relativamente comum em casos de hospitalização, afetando principalmente a circulação, e particularmente em pacientes com fibrose cística.
— Na inspeção foram detectadas falhas nas boas práticas de processamento de produtos. Tinha tantas falhas documentais quanto falhas relacionadas à questão de higiene e limpeza das áreas de produção — disse Lara. — De alguma forma, essas falhas poderiam estar ligadas a essa contaminação por Pseudomonas.
Investigação
Ainda não há certeza sobre como uma bactéria contaminou nossos produtos. Segundo o CVS, está sendo investigada também a possibilidade de um rompimento em estrutura para escoamento de esgoto contaminado ou reservatório de água usado em produtos. O ambiente de produção, de todo modo, não era adequado, afirma Lara.
— Tinha acúmulo de sujidades no ambiente, no piso, em cima de tubulações e máquinas, com poeira, o que demonstrava uma falha na questão de limpeza — disse.
O CVS afirma que entre a intervenção feita na empresa em novembro e a análise feita agora em abril, alguns lotes foram aparentemente limpos, tendo passado por testes sanitários. O encontro do micro-organismo nos produtos feitos mais recentemente, porém, reacendeu a preocupação.
Por isso a Agência Nacional de Vigilância (Anvisa), que também participou da fiscalização, determinou desta vez não apenas a retenção dos produtos, mas também o fechamento das instalações nesse setor da fábrica.
Linha de produção
A linha de produção interrompida é grande e tem capacidade para fabricar, anualmente, 23 mil toneladas de detergente e 33 mil toneladas de lava-roupa. A Anvisa não especificou a quantidade de produto que deverá ser recolhida no mercado, mas sabe-se que são unidades envasadas num período de seis meses, de abril a setembro de 2025.
Outros lotes do produto feitos depois disso ficaram retidos na fábrica para análises, após a intervenção da Anvisa em novembro. A Ypê possui mais linhas de produção na fábrica de Amparo e em fábricas em outros lugares do Brasil, que não foram autuadas no caso. O auto de infração de hoje foi lavrado pela prefeitura de Amparo, que tem essa responsabilidade na cooperativa com estado e União.
— Agora a empresa tem dez dias para impetrar um recurso, se quiser. Se o recurso não apresentar argumentos suficientes para negar a violação das boas práticas de produção identificadas pela Anvisa, é possível que se determine uma multa — disse o secretário de comunicação de Amparo, Luiz Crescenzo.
O CVS disponibiliza que ainda há espaço para reverter a decisão, caso a empresa cumpra os requisitos.
— Nesse prazo recursal eles deveriam que fazer uma investigação das possíveis causas para saber se o problema é na qualidade da água, no processo de higienização ou algo como a manipulação pelos funcionários. Depois, você precisa apresentar um plano de ação que avalie tudo, incluindo tratamento de água, legislação, boas práticas, treinamento de pessoal. E por fim, preciso apontar as possíveis soluções — afirma Lara. — Embora a empresa não resolva esses problemas, ela não poderá produzir esse tipo de produto nessa linha de produção.
Outro lado
Em comunicado à imprensa, a empresa afirma ter confiança de que conseguirá revereter a suspensão de produção em Amparo.
“A Ypê esclarece que possui fundamentação científica robusta, baseada em testes e laudos técnicos independentes, atestando que os seus produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentradas, lava-roupas líquidas, e desinfetante são seguros e não representam qualquer risco ao consumidor”, diz o comunicado.
"A empresa mantém diálogo contínuo e colaborativo com a Anvisa e, com a apresentação de informações e evidências técnicas adicionais, confia plenamente na revisão da decisão no menor prazo possível."
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