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Contaminação: o que fiscais encontraram na fábrica da Ypê?

Máquinas e tubulações da empresa em Amparo (SP) tinham acúmulo de poeira. Vigilância sanitária investiga possibilidade de contaminação de água por esgoto

Agência O Globo - 08/05/2026
Contaminação: o que fiscais encontraram na fábrica da Ypê?
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Uma inspeção técnica levou ao fechamento de uma linha de produção da fábrica da Ypê, em Amparo (SP). Pela segunda vez, foi identificada a presença de microrganismos em itens de limpeza produzidos no local. Isso fez com que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinasse o recolhimento de uma série de 22 produtos da marca. Segundo fiscais envolvidos na apuração, foram encontrados problemas de higiene na fábrica, e uma das suspeitas investigadas é a de contaminação da água usada na produção por esgoto.

Segundo o diretor do Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS), Manoel Lara, a decisão de interromper a produção foi motivada por uma incapacidade da companhia de resolver de maneira consistente o problema, constatada inicialmente em novembro do ano passado.

Naquela ocasião, foi detectada a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em amostras de produtos feitos no ano passado. Esse patógeno não é altamente contagioso, mas oferece risco porque costuma infectar pessoas com baixa imunidade. É um organismo relativamente comum em casos de hospitalização, afetando principalmente a circulação, e particularmente em pacientes com fibrose cística.

— Na inspeção foram detectadas falhas nas boas práticas de processamento de produtos. Tinha tantas falhas documentais quanto falhas relacionadas à questão de higiene e limpeza das áreas de produção — disse Lara. — De alguma forma, essas falhas poderiam estar ligadas a essa contaminação por Pseudomonas.

Investigação

Ainda não há certeza sobre como uma bactéria contaminou nossos produtos. Segundo o CVS, está sendo investigada também a possibilidade de um rompimento em estrutura para escoamento de esgoto contaminado ou reservatório de água usado em produtos. O ambiente de produção, de todo modo, não era adequado, afirma Lara.

— Tinha acúmulo de sujidades no ambiente, no piso, em cima de tubulações e máquinas, com poeira, o que demonstrava uma falha na questão de limpeza — disse.

O CVS afirma que entre a intervenção feita na empresa em novembro e a análise feita agora em abril, alguns lotes foram aparentemente limpos, tendo passado por testes sanitários. O encontro do micro-organismo nos produtos feitos mais recentemente, porém, reacendeu a preocupação.

Por isso a Agência Nacional de Vigilância (Anvisa), que também participou da fiscalização, determinou desta vez não apenas a retenção dos produtos, mas também o fechamento das instalações nesse setor da fábrica.

Linha de produção

A linha de produção interrompida é grande e tem capacidade para fabricar, anualmente, 23 mil toneladas de detergente e 33 mil toneladas de lava-roupa. A Anvisa não especificou a quantidade de produto que deverá ser recolhida no mercado, mas sabe-se que são unidades envasadas num período de seis meses, de abril a setembro de 2025.

Outros lotes do produto feitos depois disso ficaram retidos na fábrica para análises, após a intervenção da Anvisa em novembro. A Ypê possui mais linhas de produção na fábrica de Amparo e em fábricas em outros lugares do Brasil, que não foram autuadas no caso. O auto de infração de hoje foi lavrado pela prefeitura de Amparo, que tem essa responsabilidade na cooperativa com estado e União.

— Agora a empresa tem dez dias para impetrar um recurso, se quiser. Se o recurso não apresentar argumentos suficientes para negar a violação das boas práticas de produção identificadas pela Anvisa, é possível que se determine uma multa — disse o secretário de comunicação de Amparo, Luiz Crescenzo.

O CVS disponibiliza que ainda há espaço para reverter a decisão, caso a empresa cumpra os requisitos.

— Nesse prazo recursal eles deveriam que fazer uma investigação das possíveis causas para saber se o problema é na qualidade da água, no processo de higienização ou algo como a manipulação pelos funcionários. Depois, você precisa apresentar um plano de ação que avalie tudo, incluindo tratamento de água, legislação, boas práticas, treinamento de pessoal. E por fim, preciso apontar as possíveis soluções — afirma Lara. — Embora a empresa não resolva esses problemas, ela não poderá produzir esse tipo de produto nessa linha de produção.

Outro lado

Em comunicado à imprensa, a empresa afirma ter confiança de que conseguirá revereter a suspensão de produção em Amparo.

“A Ypê esclarece que possui fundamentação científica robusta, baseada em testes e laudos técnicos independentes, atestando que os seus produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentradas, lava-roupas líquidas, e desinfetante são seguros e não representam qualquer risco ao consumidor”, diz o comunicado.

"A empresa mantém diálogo contínuo e colaborativo com a Anvisa e, com a apresentação de informações e evidências técnicas adicionais, confia plenamente na revisão da decisão no menor prazo possível."