Finanças
Maioria dos países da América Latina e Caribe mantém endividamento superior ao nível pré-pandemia
Levantamento do GLOBO com dados do FMI mostra que 16 dos 21 países da região ainda têm dívida acima do período anterior à Covid; Brasil aparece entre os casos mais delicados
A maior parte dos países da América Latina e do Caribe segue enfrentando desafios para reverter o aumento expressivo da dívida pública registrado durante a pandemia. Segundo levantamento do GLOBO, com dados do FMI, dos 21 países membros do Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF), 16 ainda apresentam relação dívida bruta/PIB superior à do período pré-Covid. Apenas quatro países mantêm endividamento inferior a 50% do PIB.
Impactos fiscais e cenário econômico
De acordo com Marco Oviedo, estrategista da XP, a expansão fiscal provocada pela pandemia resultou não apenas em mais dívida, mas também em inflação e elevação dos juros:
— Não é apenas o nível, mas também o custo do serviço da dívida, considerando o aumento das taxas globais de juros e a maior incerteza sobre sua trajetória.
Brasil entre os casos mais preocupantes
O Brasil se destaca negativamente, com endividamento próximo de 90% do PIB na metodologia do FMI, podendo chegar a 98% até o fim da década.
— A nossa situação fiscal é realmente ruim, uma das piores da América Latina. A Argentina tem um nível de dívida parecido, mas apresenta avanços em ajuste fiscal e redução do endividamento. Colômbia e Uruguai registram resultados primários negativos, mas com níveis de dívida bem menores — afirma Andrea Damico, da consultoria Buysidebrazil.
Oviedo ressalta que, apesar dos recentes indicadores positivos sob o governo de Javier Milei, a Argentina enfrenta desafios estruturais e exigirá “trabalho árduo”, com disciplina e consistência. Ele destaca dúvidas sobre a permanência do ajuste fiscal, considerando o histórico do país e a falta de regras fiscais robustas.
Além disso, os argentinos têm acesso restrito aos mercados de capitais e a composição da dívida é considerada desfavorável, com parte significativa em moeda estrangeira, indexada à inflação ou ao câmbio, e concentrada no setor público, segundo Oviedo.
— Isso gera riscos como vulnerabilidade cambial, efeito bola de neve inflacionária e fragilidade do balanço do setor público. Uma dívida de 80% do PIB pode ser mais ou menos arriscada conforme sua composição e regime de financiamento — explica o estrategista, frisando que o risco fiscal argentino não está apenas no nível da dívida, mas na qualidade institucional, estrutura dos passivos e capacidade de refinanciamento.
Outros países em destaque
Na avaliação de Oviedo, a Colômbia também merece atenção. A adoção de uma política fiscal expansionista agravou o déficit do país, exigindo mudanças políticas e credibilidade na implementação de ajustes.
Para ele, o Chile enfrenta situação semelhante, mas há expectativa de que o novo governo reforce o compromisso com a disciplina fiscal, buscando controlar o déficit e manter a dívida sustentável.
— O Chile já conta com um arcabouço institucional fiscal robusto, que funciona como âncora para qualquer governo, reforçando a previsão de estabilidade fiscal no médio prazo. Contudo, há desafios políticos a serem superados — destaca Oviedo.
No México, o Itaú Unibanco avalia que o nível da dívida pública é desconfortável, mas a situação fiscal ainda não preocupa, pois ajustes vêm sendo feitos, principalmente via arrecadação. No Peru, o banco projeta consolidação gradual das contas públicas, favorecida pelos preços dos metais.
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