Esportes
Xadrez entra no radar do alto rendimento por trabalhar decisão, planejamento e flexibilidade
Estudos mostram relação entre funções executivas e desempenho esportivo.
No esporte de alto rendimento, uma decisão errada pode custar uma partida, uma prova ou um campeonato. Um passe feito antes do fechamento da defesa, a mudança de estratégia durante uma disputa ou a leitura de um adversário exigem processamento rápido de informações, atenção e capacidade de adaptação. É nesse conjunto de habilidades que o xadrez aparece como uma possível ferramenta complementar de treinamento cognitivo.
Levantamento divulgado pela Federação Internacional de Xadrez (FIDE) estimou em cerca de 600 milhões o número de pessoas que praticam a modalidade no mundo. No cérebro humano, são aproximadamente 86 bilhões de neurônios conectados por trilhões de sinapses — algumas estimativas científicas chegam a cerca de 100 trilhões de conexões. Durante uma partida, não existe um número cientificamente estabelecido de “sinapses produzidas” pelo xadrez, mas atividades que envolvem memória, planejamento, atenção e tomada de decisão mobilizam essas redes neurais de forma simultânea.
Voltando ao esporte, o jogo não substitui preparação física, técnica, tática ou psicológica, mas exige constantemente planejamento, memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva.
Para a psicóloga Bianca Domingues, que atua com avaliação neuropsicológica e psicoterapia pela abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental, a lógica de uma partida reproduz uma situação recorrente no esporte: planejar uma ação e precisar modificá-la diante da resposta do adversário.
“Quando a gente joga, sabe que precisa flexibilizar estratégias. Você está querendo fazer uma jogada e a pessoa adversária faz outra. Então precisa aprender a mudar essa estratégia. Quanto mais você treina isso no xadrez, mais trabalha a flexibilidade para mudar, alternar tarefas e rever planos também no dia a dia”, afirma em entrevista na Clinica Ser Medicina Integrativa, de São Caetano do Sul (SP).
Essa capacidade de adaptação aparece especialmente em esportes abertos, nos quais o ambiente muda continuamente. Futebol, basquete, handebol, tênis e modalidades de combate exigem que atletas interpretem movimentos dos adversários e reajam em períodos muito curtos.
Uma revisão publicada em 2025 analisou 15 estudos científicos sobre funções executivas e inteligência de jogo no futebol de elite. Os pesquisadores encontraram relação entre memória de trabalho, flexibilidade cognitiva, controle inibitório e a capacidade de interpretar situações complexas, antecipar ações e tomar decisões sob pressão.
Outro trabalho comparou 328 participantes, incluindo 204 jogadores de futebol de elite de equipes brasileiras e suecas. Os atletas apresentaram resultados superiores em planejamento, memória e funções executivas, com destaque para flexibilidade cognitiva.
Os estudos, entretanto, não permitem concluir que praticar xadrez transforme automaticamente alguém em atleta melhor. A transferência de habilidades cognitivas gerais para situações específicas do esporte depende do tipo de treinamento e da modalidade.
O próprio xadrez é hoje um esporte internacional de alto rendimento, com ranking global, preparação física e psicológica, equipes de apoio e temporadas que envolvem torneios em diferentes continentes.
Na lista oficial da Federação Internacional de Xadrez, a FIDE, de outubro de 2026, Magnus Carlsen permanece na liderança mundial do xadrez clássico, com 2.823 pontos de rating. O norueguês segue à frente do norte-americano Hikaru Nakamura, segundo colocado com 2.792, e de Fabiano Caruana, terceiro com 2.784.
Pensar antes
Outro ponto destacado por Bianca Domingues é o controle inibitório, função executiva relacionada à capacidade de conter respostas automáticas ou impulsivas.
No xadrez, mover rapidamente uma peça sem avaliar as consequências pode comprometer a posição. Em uma modalidade coletiva, comportamento semelhante ocorre quando um atleta toma uma decisão antes de interpretar adequadamente o cenário.
“Você não pode simplesmente sair jogando. Precisa pensar no que vai fazer e tentar prever como o adversário pode responder. Isso trabalha o controle inibitório, porque você aprende a não fazer as coisas sem pensar. Quanto mais isso é treinado, mais o cérebro trabalha essas funções no dia a dia”, explica.
Um estudo com 128 jovens jogadores de futebol encontrou relação entre funções executivas e capacidade de tomar decisões específicas dentro da modalidade. A memória de trabalho apresentou a associação mais forte, enquanto atletas mais velhos tiveram resultados superiores em inibição e flexibilidade cognitiva.
Outro estudo com 92 jogadores de elite das categorias de base avaliou inibição e flexibilidade cognitiva em situações que simulavam o estresse psicofisiológico de uma partida.
“Tomada de decisão, velocidade para entender uma jogada, planejamento e controle estão dentro das funções executivas. Para atletas de modalidades que exigem estratégia, trabalhar atividades cognitivas pode ser um bom aliado”, afirma.
“O nosso cérebro é plástico. Quanto mais você treina determinada função, mais ele aprende a trabalhar aquilo. O xadrez mantém a cabeça ativa e pode ser uma atividade importante dentro desse contexto de saúde mental e bem-estar”, diz.
No esporte profissional, equipes utilizam psicólogos, analistas de desempenho e profissionais de ciência do esporte para trabalhar concentração, tomada de decisão, controle emocional e resposta à pressão.
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