Economia
[Especialista] Indústria brasileira cresce em números, mas perde fôlego no caixa
O início de 2026 escancarou um paradoxo incômodo para a indústria brasileira. Enquanto o Purchasing Managers’ Index (PMI) recuou para 47,0 pontos em janeiro - abaixo dos 47,6 de dezembro de 2025 e em território claro de retração -, muitas empresas começaram o ano celebrando balanços positivos e resultados financeiros robustos. O contraste entre a atividade enfraquecida no chão de fábrica e os números apresentados nos demonstrativos reacendeu um alerta antigo: o avanço de lucros que existem no papel, mas não se traduzem em geração de caixa, o chamado “lucro fake”.
Para Roberto Aguiari, diretor da Borgatti Consulting, consultoria com mais de 30 anos de atuação em gestão de operações industriais, essa distorção tem origem em uma lógica produtiva ainda presente em muitas fábricas. “Existe a crença de que produzir mais sempre reduz custo, porque o custo unitário cai nos relatórios. O problema é que o que não é vendido vira estoque, imobiliza capital, gera despesas e não coloca dinheiro no caixa. O resultado parece positivo na contabilidade, mas a empresa perde fôlego financeiro”, afirma o executivo, especialista em planejamento de vendas e operações, contabilidade enxuta e gestão de estoques.
O cenário econômico torna esse tipo de erro ainda mais arriscado em 2026. A indústria deve crescer cerca de 1,3% neste ano, abaixo da projeção de 2% para o PIB brasileiro, segundo estimativas da Confederação Nacional da Indústria com base em dados do IBGE. Juros elevados, consumo ainda moderado e maior dificuldade para converter produção em vendas pressionam o setor. Nesse contexto, manter volumes elevados sem demanda suficiente amplia estoques, compromete o capital de giro e distorce decisões estratégicas de preço, portfólio e investimento.
No dia a dia financeiro, o problema aparece quando o caixa não acompanha o lucro divulgado. Segundo Aguiari, esse descompasso costuma ser ignorado até se tornar crítico. “O demonstrativo mostra lucro, mas o dinheiro não aparece. A empresa produz, estoca, paga para armazenar, corre risco de obsolescência e depois precisa sacrificar margem para vender. A contabilidade segue positiva, enquanto o caixa encolhe mês após mês”, diz.
Segundo Roberto, alinhar a produção ao ritmo real de vendas e acompanhar indicadores como giro de estoques, margens efetivas e geração de caixa é decisivo para evitar que os resultados registrados no curto prazo se revelem insustentáveis nos ciclos seguintes. “Sem essa disciplina, o lucro segue existindo apenas no papel, enquanto o caixa continua pressionado", conclui.
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