Curiosidades
Último livreiro de Bangu resiste ao digital e segue formando gerações de leitores: 'Estou remando contra a maré'
No bairro desde 2011, a A&S Livraria de Adilo do Carmo virou ponto de encontro entre alunos, professores e amantes da leitura
Na Rua Professor Clemente Ferreira, uma das mais movimentadas do centro de Bangu, na Zona Oeste do Rio, um pequeno mostruário de livros e revistas antigos funciona como “vitrine” a céu aberto para transeuntes distraídos. Não fosse pelos cartazes pendurados, seria impossível saber que, nos fundos de uma casa amarela, resiste a última livraria de rua do bairro de Castor de Andrade e Zé Keti.
Drible na proibição:
'Female rage':
Ali, espremido entre um estúdio de tatuagem e uma escola de idiomas, o casal de livreiros Adilo do Carmo, de 71 anos, e Silvia Regia dos Santos, de 66, mantém, desde 2015, a A&S Livraria. Seu Adilo, como é conhecido, trabalha com livros há quase seis décadas. Entre feiras de rua e lojas físicas, o mineiro de Juiz de Fora ajudou a formar gerações de estudantes, professores e simples leitores da região.
— Apesar de ser um comércio, acho que temos uma função social — diz Adilo, radicado desde os 3 anos de idade no Rio e, desde os 8, em Bangu. — Tive entre meus clientes um professor de escola que vinha aqui comprar livros para os alunos que não tinham condições. Um dos alunos dele virou professor e hoje é ele quem compra livros para seus próprios alunos.
Somente de títulos didáticos, Adilo calcula ter dez mil livros no estoque da sua casa em Rio da Prata, um sub-bairro de Bangu. O catálogo da A&S, porém, agrada a todos os gostos: romance, poesia, ficção, não-ficção, revistas, quadrinhos, entre tantos outros gêneros. No pátio da loja, alguns títulos aparecem empilhados dentro de carrinhos de supermercado. Tranquilo e aconchegante, o espaço recebe volta e meia a visita de saguis. Um homem-palito de metal, pintado de amarelo, dá boas-vindas aos clientes.
Antes de abrir sua loja, Adilo passou décadas ganhando a vida em feiras livres. Ele iniciou na profissão de livreiro aos 14 anos, mas a paixão pelos livros vinha de longe. Aos 4, quando sua mãe trabalhava na casa de uma família tijucana, aprendeu a ler com as filhas da patroa, que eram professoras.
— Sempre que sobrava um livro ou uma revista em quadrinho lá na casa dos patrões, minha mãe trazia para mim — diz Adilo. — Desde aqueles livrinhos de historinha do macaco e da onça, do coelhinho e não sei o quê. A gente começa com uma coisa e depois vai pegando, vai aumentando o nível de conhecimento. Eu não melhorei muito, continuo lendo macaco e a onça mesmo (risos). Tem livro que às vezes é bom a gente ler até para indicar para alguém. Eu gosto de fazer isso.
Nos anos 1990, quando a internet chegava a poucos lares de sua vizinhança em Rio da Prata, ele criou em sua casa uma espécie de “locadora” de material de pesquisa para trabalhos escolares. O aluguel de um livro saía a R$ 2, mas era mais do que um simples negócio.
Tempos da enciclopédia
Adilo catalogava em caixas reportagens, mapas, artigos científicos e outras descobertas que considerava úteis para a vida escolar. Quando aparecia um aluno pedindo ajuda, ele já tinha o arquivo na cabeça.
— A minha biblioteca, dito pelos alunos que iam lá, era melhor do que a regional — lembra ele. — O aluno chegava meio cru para fazer pesquisa e a gente tinha que ajudar. Por exemplo, chegava lá um camarada: “Estou fazendo um trabalho sobre um Gandhi.” Eu falava: “Calma, cara. Não é isso. Gandhi é uma pessoa, vou te explicar.” Aí fui lá, peguei uma enciclopédia: “Ó, leva aí e copia.” Era assim que a coisa funcionava.
A difusão da internet na década seguinte tornou o experimento ultrapassado e, hoje, o espaço é um mero depósito. A livraria, que concorre com uma unidade da Rede Leitura no Bangu Shopping, a três minutos dali, também tem sofrido os impactos das mudanças tecnológicas. O avanço do comércio on-line e uma recente alta do aluguel do imóvel há dois anos quase fizeram a A&S fechar as portas.
Nesse mesmo período, a livraria conheceu um fenômeno comum no comércio “raiz” da cidade: viralizou. Em um primeiro momento, Seu Adilo estranhou quando uma jovem apareceu na loja “fotografando (sic) desde lá da frente”. Pouco tempo depois, ele e a esposa foram surpreendidos por uma enxurrada de novos clientes. Como o “ápice” do movimento havia sido durante a última Bienal do Livro do Rio, o casal imaginou que o público estava apenas aproveitando a época de pico do evento. Mas não. Era o efeito Instagram.
Publicado na rede social, o vídeo da jovem ganhou repercussão na internet, e a loja de Seu Adilo, com seu estilo autêntico, ganhou uma breve fama entre os mais jovens. Incentivado pela filha, o livreiro cogitou aproveitar o momento de sucesso e expandir seu negócio para a venda on-line. A criação de um sebo virtual, porém, envolvia barreiras demais para um “analfabeto digital”, como ele próprio se define.
— Eu não tenho paciência com computador e a minha esposa também — diz. — Você vai ter que fotografar livro por livro, depois registrar livro por livro. Até precisa de um estagiário. Ficaria um negócio complicado.
Olho no olho
O sebo continua pouco ativo no ambiente digital. Seu perfil no Instagram conta, até o fechamento desta edição, com apenas seis publicações e menos de 50 seguidores. Nada disso impede que o espaço físico reúna uma comunidade fiel de leitores, que ali se encontram para comprar livros e trocar ideias.
Morador de Realengo, o historiador Raphael Castelo Branco entrou pela primeira vez na A&S em 2011. Então estudante do primeiro ano do ensino médio, procurava o clássico “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano, indicado por seu professor de História. Encontrou um exemplar com a marcação D, de R$ 10.
— Foi aí que comecei a minha biblioteca, que vem quase toda do Seu Adilo — diz o hoje doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). — É um lugar muito importante para mim, onde fiz muitos amigos e conheci muita coisa. O acervo é maravilhoso e barato.
Em 2020, Raphael perdeu 3.483 livros de sua própria biblioteca em uma enchente. Não teve dúvidas: recorreu ao Seu Adilo para reconstruir seu acervo.
— O curioso é que, pouco antes da enchente, Seu Adilo comprou toda a biblioteca do meu vizinho e acabou, sem saber, salvando todos os livros dele — recorda Raphael.
Para Adilo, o valor do negócio permanece na base do olho no olho:
— Eu gosto de trabalhar assim, em contato com as pessoas. Estou remando contra a maré, e gosto disso.
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