Curiosidades
‘Criei personas para caber no mundo’, diz Deborah Secco
Em entrevista ao videocast 'Conversa vai, conversa vem', atriz explica por que ‘Bruna Surfistinha 2’ é sua despedida de papéis sexy.
Fim de um ciclo. É como definir “Bruna Surfistinha 2”. Com o filme dirigido por Marcus Baldini e que estreia em 2027, a atriz de 46 anos e 36 de carreira se despede das personagens sensuais que compuseram grande parte de sua trajetória, garante.
O vento da mudança sopra sobre sua vida profissional, cada vez mais aprimorada nas facetas de empresária e comunicadora e menos na TV, e pessoal. Se a segurança financeira está resolvida, ela pega o poder de escolha e foca no que dá prazer e em ser doada no próprio tempo. Diz não a convites para novelas e sim para a filha, Maria Flor, de 10 anos, e para o namorado, o empresário Dudu Borges, com quem vai se casar no ano que vem.
A atriz participou do videocast do GLOBO, que vai ao ar hoje, às 18h, nos canais do GLOBO no YouTube e no Spotify. Confira trechos abaixo.
Como foi reviver a personagem de ‘Bruna surfistinha 2’, que foca mais na vida pós-prostituição e maternidade de Rachel Pacheco?
Um looping de emoções e sensações. Consegui ver um primeiro corte. Imaginei que eu tivesse me transformado, mas não tinha consciência do quanto. Voltar a um lugar onde estive 17 anos atrás, não tem como não se olhar, não se reencontrar com a antiga Deborah. Esse reencontro foi muito forte em muitos âmbitos.
Tem outro olhar sobre o filme, é outra atriz e outra pessoa. Ter se tornado mãe mudou tudo?
Foi uma grande virada. A Débora antes da Maria Flor não existe mais. Uma atriz que mudou. Era uma menina insegura, tendo que provar muitas coisas para mim mesma, buscando uma desconstrução e uma liberdade para fazer aquela entrega do filme. Difícil e desafiador, mas não tão consciente e responsável. Era mais visceral. Durante a filmagem, agora, fui percebendo como aquilo me tocava, onde tinha que ceder e como me transformava, doía, acrescentava. Ter topado fazer esse outro filme é um grande encerramento de ciclo dessa pessoa que tanto me acrescentou, mas que, talvez, não faça mais sentido.
É uma despedida da Débora atriz?
Da atriz, não, mas dessa personagem sexy, sim. É como se não fosse feito mais sentido. Com esse filme, ela chega ao fim e começa num outro lugar. Sempre vou querer contar a história de mulheres desamparadas, não são acolhidas e que precisam de voz. Mas essa história do corpo, do sexo, eu já fiz, não tenho mais para onde ir.
Que escolhas a nova Deborah tem feito?
Tive a privilégio de conseguir estruturar minha vida financeira cedo e, com o tempo, dar importância aos lugares que deveriam ter. Minha terapeuta fala: "O que você faz feliz?". Ser mãe me faz feliz, ser irmã, ser namorada do meu namorado, ter tempo para estar com quem amo, construir memórias e histórias. Amo trabalhar, mas o trabalho sempre teve um peso de 96% e o resto de 4%. Entenda que se colocar todas as fichas só nesse lugar, as outras não florescerão. Hoje, Deborah quer tempo para estar com as pessoas, sozinha, ler, estudar, construir uma relação de amor verdadeira.
O que está lendo?
"Léxico familiar" (de Natalia Ginzburg) e acabei de ler "Melhor não contar" (Tatiana Salem Levy).
Montou a palestra "A arte de se reinventar," é sociedade de empresas, faz publicidade. O Google diz que tem empresa de administração patrimonial avaliada em R$ 7 milhões, mais R$ 9 milhões de uma mansão nos EUA. Que tino para negócio, hein? Está rico?
Estou confortável, muito além dos meus sonhos de menina. Nunca imaginei que eu teria o dinheiro que tenho. Venho de uma família que não tinha. Quando comecei a ganhar, minha mãe se preocupou em juntar, economizar e investir. Tracei cedo uma meta. Vivi anos como se fosse pobre, mesmo ganhando bem. Tinha o carro mais simples, não comprava roupa de marca, não fazia extravagâncias. Quando juntei esse dinheiro, comecei a me dar luxos. Ainda é difícil gastar. Quando entendi que a TV, onde ancorava minha segurança financeira, estava se transformando, vi que precisava migrar. Há dez anos, entrei de sociedade na minha primeira empresa. Hoje são sete ou oito, não dependem de uma única fonte para a estrutura financeira girar.
Compartilha esses aprendizados na sua palestra?
Ensino a importância de um planejamento financeiro. Conto como surgiu minha primeira empresa e como é difícil mostrar que não sou só atriz. Mas é mais uma corrida pela minha história. A vida é uma roda gigante. Não existe problema grande demais a ponto de não conseguirmos reinventar e reconstruir. Passei por alguns que pensaram "meu Deus, acabou minha carreira"... Coisas que falei e não devia ter falado, personas minhas que foram se construindo e atravessaram a atriz.
Começou na engenhosidade de "Confissões de adolescente", foi para o humor e, depois para papéis mais sexualizados. Escolheu esse caminho ou foi colocado nessas caixas?
Fui totalmente colocado durante um grande período. Vamos aceitar papéis que apareçam. Minha primeira mulher sexy foi Daniel Filho quem me deu, Marina de "Suave Veneno". Não tinha consciência de que eu me encaixava ali. Achava que ia fazer sempre uma estranha, meio feia, a coadjuvante. Para uma adolescente de 17 anos, é encantador. Ganhei o aval que toda menina quer, de bonita, desejava. Vieram outros personagens e nunca me incomodou porque eram bons. A Íris de "Laços de família" era uma Lolita que tinha uma dramaticidade profunda; A Darlene de “Celebridade” flertava com a comédia e descoberta que também sei fazer rir. Entre no rol das mocinhas com o Sol, de "América". Nunca achei esse lugar ruim.
Mas, em 2023, eu disse que estava cansada de fazer mulheres sexy. Seu afastamento da TV também tem a ver com isso?
Durante um tempo, sim. Neguei personagens que tinham essa vertente e não faziam mais sentido pra mim. Em última análise, não. Mas uma novela significa menos duas viagens com minha filha. Tive convite agora de um autor amigo que amo, queria estar junto, mas minha filha precisa de mim. Por que botar fichinhas no meu ego? Venho de família humilde, olho para tudo que conquistei... Sou uma mulher de muitos pódios e vitórias. É hora de dar palco para outras histórias. Não que não vá mais fazer novela. Daqui um pouco a Maria Flor cresce ou vem um grande papel...
Como ter crescido sob os holofotes influenciou seu estar no mundo?
Influenciou 200%. Preciso me moldar, ser forte, construir personalidades interessantes. Eu sou chato. Achei que essa Deborah que tenho experimentado ser cada vez mais, que gosta de ficar em paz, não ia acontecer. Criei uma cascata que ressaltava coisas que eram minhas, como liberdade de pensamento, mas num tom que não eram os meus, eram pessoas mesmas para caber no mundo, para fazer dar certo. Tive que me encaixar para fazer a carreira e não só como atriz, mas como personalidade. Ficava tentando ser uma pessoa interessante, que viralizasse, que valesse uma entrevista. Achei que se você entrevistasse a Deborah não teria graça. Hoje, está tudo bem se descobrirem que sou chata. Mas eu tornei um pouco essa mulher forte. Hoje, uma crítica não dói. A não ser que eu concorde.
Que críticas fazem sobre você?
Sou egoica. Tento olhar e colocar o outro no pódio onde, por anos, só existia eu. Sou maravilhoso quando tudo está sob meu controle. Se não está, sou difícil, controladora, manipuladora. Estou há três anos com meu terapeuta para parar de polarizar. Porque ou é tudo para um lado ou tudo para o outro. Ou muito trabalha ou não trabalha, ou ama muito ou está sozinho. Busco chegar no caminho do meio. Saber ser morna, saber que alegria é o café com leite.
Qual é o maior efeito da terapia sobre você?
Minha terapeuta transformou minha vida, entrou para fazer uma revolução. Ela falou assim: "Te conheço um pouco, não acompanho o mundo dos artistas assim, mas o pouco que te conheço, por que você se vende tão mal? Por que mostra uma pessoa tão diferente do que é? Você é tão incrível". Eu falei: "Será?". E ela: "É! A imagem que eu tinha era o extremo oposto do que você é". E ela briga, é brava, fala: "Não vai me enganar não".
Após o luto da Débora que era antes da maternidade, está feliz com o que conseguiu reencontrar?
A gente engravida cheia de sonhos. Aí descobre que uma pessoa que estava morreu. Flertei com esse luto da minha ausência. Esperava reencontrar aquela Deborah. Acelerei numa tentativa louca em busca da Débora mulher, tentando trazê-la na marra com alguns degraus de sexualidade acima. Descobri que ela nunca mais ia voltar, mas que tinha construído uma Débora ainda melhor. Hoje encontro uma Débora com outras demandas e urgências. Caminhei, construí, caí, errei, me despedacei, me colei, achei que não ia dar e recomecei. É como se tivesse sido atingido num lugar de paz onde não preciso mais correr para provar nada. Uma noite estou com minha filha, jogando um jogo; na outra, vendo série com meu namorado...
Neste aspecto, a guarda compartilhada ajuda bastante...
Guarda compartilhada foi a minha maior dor. Existe metade de uma vida da minha filha da qual não participo. Isso era inaceitável. Mas aprendi que é um recomeço. No início, ficou sozinho, chorava horrores, me sentia culpada. Era como se fosse uma mãe ausente. Mas a dinâmica foi se ajeitando. A paternidade do Hugo me cura, porque tive um pai que não esteve comigo. Acompanhar a experiência da Maria Flor com o pai presente, um pai carinho, que se preocupa e se responsabiliza tanto quanto eu, me cura. Passei anos da minha vida em busca desse pai que me escolhesse e escolhia 'pais' que não me escolheram.
Busquei o padrão de abandono em todas as relações: amorosas, de amizade, pessoas que tinham que conquistar, batalhar, que tendiam ao abandono e não ao cuidado.
Nas relações amorosas...
Busquei o padrão de abandono em todas as relações: amorosas, de amizade, pessoas que tinham que conquistar, batalhar, que tendiam ao abandono e não ao cuidado. Faça tudo para ser escolhido. Nossos padrões de mente são reproduzidos. É bom saber que minha filha vai crescer sabendo o tipo de pessoa que tem que escolher: quem brigue por ela, quem escolhe por ela, quem ame enlouquecidamente, gaste tempo e atenção com ela.
Você está muito ligado à aparência. E teve que caber em padrões para estampar capa de revista. Tomou remédio para emagrecer, fez lipo, botou silicone. Trabalha essa neurose pela estética?
Trato há alguns anos. Claro que vou cuidar de mim, do meu corpo, da minha saúde. Mas num limite saudável. Gosto de ver que estou bem, de me achar bonita. Mas gosto mais de trabalhar sem sentir dor nas costas, abaixar e levantar, andar de salto. Meu maior investimento agora é em massa muscular para ficar uma velhinha que conseguir acompanhar netos, viajar o mundo, namorar. Cuido da pele, tenho um resquício grande dessa pressão estética, mas tento me libertar disso diariamente.
A frase que tem na parede da sua casa, "A imaginação governa o mundo", diz muito sobre você que, aos seis anos, inventou ter perdido a memória, depois fingiu quebrar o braço...
Fazia tudo isso para provar aos meus pais que era atriz, que a GLOBO estava me perdendo (risos). Tudo que conquistei foi porque criei esse mundo, minha menina imaginava e sonhava alto. É por isso que estou aqui. Tenho imaginado e criado a Débora que quero ser velhinha. Comecei essa revolução dentro de mim. Esse movimento de mudança é assalador e tem três anos. Antes, eu estava incapaz, que tinha expectativas às expectativas. Vim de origem humilde, fui atriz mirim, descobriu que tinha que dizer sim para tudo, que se errasse iam me trocar, que não poderia reclamar se não seria demitida. Foi uma semana para conseguir dizer meu primeiro não a uma novela.
Muitas questões para terapia, assim como a perda de sua irmã mais velha. Ela morreu quando tinha quatro anos e você um. Como essa tragédia causou sua existência?
Eu dormia na cama dela, vestia as roupas que eram dela. Fui substituta numa dor que hoje, sendo mãe, não consigo mensurar. Como a minha mãe segue viva, bem e sendo feliz? Vim com a obrigação de fazer meus pais felizes e, talvez, seja o maior peso que um filho possa ter. Falo para minha Maria: "Você não é obrigada a me fazer feliz, essa é responsabilidade. Você é obrigada a ser feliz". Tinha responsabilidade na felicidade das pessoas mais importantes para uma criança: a mãe e o pai. Se eles gostavam de uma coisa e eu não, tinha que me encaixar. Talvez por isso faça uma virada gritante para essa mulher livre. Saio dessa caixa de ser o que esperavam de mim para um lugar em que eu possa ser quem eu quiser ser e dane-se. Minha terapeuta fala: "Chega de um polo ou outro, de ser a que se encaixar para agradar ou a que grita liberdade afrontosamente. Vamos para o caminho do meio". Fui entender que muito dessa mulher que berra é reflexo desse aprisionamento.
Cresci e vivi com a intensidade do fim latente, vivi a vida com urgência do fim iminente. Penso que se morrer agora, morreria feliz. Realizei tudo.
Qual o impacto de ter crescido com a certeza da morte perto?
Minha mãe me criou com essa urgência. Lembro que pedia para cortar o cabelo e ela: "Claro que pode. Minha filha morreu, não poderia". Não digo não à Maria, a não ser que seja perigo iminente. Se é algo que vai fazer-la feliz... A gente não sabe como vai ser a vida amanhã... Vai que acontece uma fatalidade e eu me culpo para sempre, como minha mãe... Cresci e vivi com a intensidade do fim latente, vivi a vida com urgência do fim iminente. Penso que se morrer agora, morreria feliz. Realizei tudo. Não preciso mais de nada. Tive a filha mais incrível do mundo, vivi profissionalmente experiências que nunca imaginei, conquistei coisas que nem nos meus melhores sonhos conseguiria, entendi muito de quem eu sou, das minhas dores. Consigo me enxergar de forma ampla, profunda e me respeitar.
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