Curiosidades
O Centro do Rio tem uma história nacional, diz Lucas Padilha, secretário municipal de Cultura
Titular da pasta fala sobre o projeto da Biblioteca do Saberes, na Praça Onze, e a importância de 'instituições âncoras' na revitalização de áreas da cidade, além dos planos para a Semana de Arte do Rio, em setembro
Com projeto assinado pelo escritório MPG Arquitetura, a Biblioteca do Saberes é a estrela da próxima grande reforma urbanística da cidade, a Praça Onze Maravilha . Com 40 mil metros quadrados, o equipamento ocupará a área do Terreirão do Samba no projeto de revitalização do entorno do Sambódromo , com investimentos estimados em cerca de R$ 1,75 bilhão. Trata-se de um exemplo de “instituições âncora” para a revalorização de áreas do Rio, conforme destaque do secretário municipal de Cultura do Rio, Lucas Padilha. Em entrevista concedida em outra dessas instituições âncoras — o Museu de Arte do Rio (MAR), realizada em 2013 e um dos primeiros marcos do Porto Maravilha , na Praça Mauá — Padilha defende esse modelo como forma de renovar a importância da cidade na cultura brasileira: “Por trás dessas instituições âncoras, há a valorização de instituições locais, do desenvolvimento do território”.
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À frente da pasta desde o início do quarto mandato de Eduardo Paes (PSD) na Prefeitura do Rio, em janeiro de 2025 — atualmente sob o comando de Eduardo Cavaliere , após Paes assumir a candidatura ao governo do Estado —, Padilha desenvolve outro grande projeto: a Semana de Arte do Rio , em setembro, coincidindo com a 16ª edição da ArtRio : “Será uma plataforma para integrar artes visuais e mercado, teatro, cinema, dança, performance e gastronomia”.
A próxima grande intervenção urbana planejada para o Rio será na Praça Onze Maravilha . Assim como no Porto Maravilha , que criou o MAR e o Museu do Amanhã, o projeto está ancorado em um novo equipamento cultural: a Biblioteca do Saberes . Como a experiência anterior pode influenciar esta nova?
É inimaginável pensar hoje na cultura carioca sem levar em conta o Museu do Amanhã e o MAR. Mas essas duas instituições não representam todo o caldo cultural e a cena artística da Pequena África . Por trás dessas instituições financeiras, que são grandes investimentos e derivam de arranjos público-privados, há uma valorização de instituições locais, do desenvolvimento do território a partir da cultura existente na região. A Biblioteca do Saberes será um evento estético, ético e político, integrado ao Sambódromo , ao Arquivo Geral do Município , ao Arquivo Nacional , e ao acervo da Funarte e do Itamarati , todos no entorno do Campo de Santana . A valorização desse território, da Praça Onze ao Porto , traz uma redescoberta da História do Rio que foi apagada. E a memória é um serviço público que precisa ser oferecido pelos governos.
E como foi pensado a respeito do projeto?
O projeto de lei aprovado na Câmara Municipal (em maio) prevê que a Biblioteca do Saberes possa receber, além de recursos da Cultura , recursos de fundos de educação, uma vez que será importante para a rede pública. Também poderá contar com contrapartidas da construção civil na região e receber recursos de leis de incentivo estaduais, municipais e federais. Ela não será financiada por uma única fonte; Ao contrário, há uma combinação de recursos públicos e privados, e nasce com um pensamento de sustentabilidade financeira e operacional.
Recentemente, o Ministério Público Federal (MPF) cobrou mais debates públicos sobre o projeto urbanístico da Praça Onze Maravilha . Como foram recebidas as críticas sobre os riscos de remoções ou alterações de gabarito?
O planejamento está sendo feito para minimizar o impacto. Na área de intervenção do projeto, vivem cerca de mil famílias de aluguel, incluindo sublocadas, que têm uma perspectiva de habitação social. A lei aprovada na Câmara e sancionada pelo prefeito Eduardo Cavaliere estabelece que nenhuma remoção será realizada fora da AP1 ( Área de Planejamento 1 , que abrange a região central da cidade). As pessoas continuam residindo no Centro. Esse diálogo foi feito de forma direta e transparente. Recebemos moradores no Arquivo da Cidade e mostrei fotos, como a casa da Tia Ciata , ressaltando que a transformação urbana não será feita de maneira desconsiderada.
Em setembro, está programada uma nova edição da Semana de Arte do Rio , com uma programação ampliada, entre os dias 16 e 27, coincidindo com a ArtRio (de 16 a 20). Como será?
Podemos afirmar que 2025 foi o ano zero, um sonho (risos). E foi um sucesso. A Semana de Arte não é um projeto de um único ano, mas sim uma plataforma da cidade, para integrar artes visuais e mercado, teatro, cinema, dança, performance e gastronomia. Teremos 27 ateliês do Centro do Rio inaugurados em 18 e 19 de setembro para receber o público, além de visitação a prédios históricos, como o Palácio Capanema . Isso, junto com eventos e festivais (como Flup , Panorama , Projeto Aquarius , Festival Internacional de Circo , e Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul , entre outros), e exposições na Casa Brasil , Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), Paço Imperial e Museu de Arte Moderna (MAM), totalizará 200 pontos de programação. Estamos previstos para as edições de 2027 e 2028 e negociando parcerias.
O Centro do Rio abriga algumas das instituições mais visitadas do país, como o Museu do Amanhã e o CCBB , que competem pela atenção dos turistas, mesmo diante das belezas naturais. Como ampliar essa presença na região?
O Centro do Rio tem uma história nacional. Você pode encontrar prédios e equipamentos municipais, estaduais, federais e privados, muitos dados do período da capital. Contudo, as pessoas precisam se sentir convidadas a conhecê-lo. Alguém já te chamou para visitar o Palácio Capanema (um marco da arquitetura modernista)? Qual é a programação? Queremos convidar o Brasil para visitar o Centro do Rio e conhecer mais sobre a História do seu país. O Centro é dos cariocas, mas também é dos paulistas, goianos e manauaras. E, claro, queremos atrair também turistas estrangeiros.
Uma das questões que impactam a ocupação do Centro é a segurança, que estará em debate na eleição estadual.
Para a cidade do Rio, é necessário um pacto federativo, no qual o governo federal, estadual e o município assumem suas responsabilidades. Com a Civitas (Central de Inteligência, Vigilância e Tecnologia em Apoio à Segurança Pública) e a Força de Segurança, o município assumiu o seu papel na relação com os crimes patrimoniais, que são os principais responsáveis pela sensação de insegurança. Uma eleição é fundamental, pois ela demonstra que qualquer transformação real requer mais de quatro anos e a participação de mais de um governo. A democracia precisa aprender a oferecer soluções de médio e longo prazo.
O Rio também tem atraído turistas com a Cultura, a partir de grandes eventos, como o Todo Mundo no Rio . Como vê as críticas em relação aos megashows em Copacabana, feitos por produtores que reivindicam investimentos em outras regiões da cidade?
Grandes eventos fazem parte da Cultura, mas estamos falando de outro aspecto, que é a economia criativa. Inclusive, esses eventos são financiados de maneira diferente. Você não financia um acervo de um museu ou um acervo comunitário, porque o impacto será de um para sete na arrecadação do ISS (Imposto Sobre Serviços) e na atração de milhões de turistas, além de reportagens internacionais. O incentivo cultural a partir do ISS da prefeitura ultrapassa R$ 90 milhões anuais; ou seja, são orçamentos que não competem. Se a prefeitura investe R$ 10 milhões ou R$ 15 milhões em shows, surgem outros R$ 80 milhões em patrocínios privados. Sob o aspecto da economia criativa, o Todo Mundo no Rio é um produto maravilhoso. Contudo, sob o ângulo cultural e territorial, não é mais importante do que o que ocorre na Areninha de Anchieta . Aprecio artistas como Madonna , Lady Gaga e Shakira , mas eles não me interessam mais que o artista anônimo com um trabalho significativo em mediação cultural no seu bairro. As necessidades são diferentes, mas não são excludentes.
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