Curiosidades

De 'Guerreiras do K-pop' a turnê da Xuxa, entenda como atrações infantojuvenis viraram febre entre os adultos

Público 'kidult' busca nostalgia e escapismo em conteúdos originalmente criados para os mais novos: ‘Esses produtos dialogam com ansiedades contemporâneas’, diz pesquisador

Agência O Globo - 05/08/2026
De 'Guerreiras do K-pop' a turnê da Xuxa, entenda como atrações infantojuvenis viraram febre entre os adultos
Guerreiras do K-Pop - Foto: Reprodução YouTube

Conhecido nas redes por vídeos em que reage a clipes de artistas como Luísa Sonza, Madonna, Katy Perry e Pabllo Vittar, o cantor e compositor Vinicius Archanjo estranhou ao receber recentemente tantos pedidos de seguidores para gravar um post sobre “Guerreiras do K-pop”. A animação musical voltada para o público infantojuvenil foi inicialmente exibida nos cinemas, passou a cumprir sua trajetória de sucesso no streaming e agora vem ganhando mais fãs... adultos.

Crise da masculinidade?

Detetives de sofá:

À primeira vista, a história sobre cantoras de pop coreano que se transformam em caçadoras de demônio parecia reunir todos os clichês do gênero: vilões caricatos, heroínas fantásticas, paleta de cores vibrante e figurinos reluzentes.

Aquilo parecia distante demais do seu universo, mas Archanjo resolveu dar o play. Em poucos minutos de longa, já tinha entendido por que tantos adultos andam obcecados por guerreiras que usam microfones como espadas mágicas e conjuram feitiços no meio de suas coreografias.

— É um trabalho para o público infantil, mas produzido com um cuidado artístico extremo em cada detalhe, do roteiro às técnicas de animação — diz o youtuber, de 31 anos. — Então, é uma dupla camada. Tem a magia visual das cores, mas também as lições profundas, a criatividade da premissa e a complexidade do roteiro.

Com um bilhão de visualizações no ecossistema digital (quase 700 milhões somente na Netflix), “Guerreiras do K-pop” é mais um exemplo de produto cultural atravessando o nicho para o qual foi concebido. O seu sucesso entre millennials (nascidos entre 1981 e 1996) vem rendendo diversas paródias engraçadas nas redes e foi tema de esquete no humorístico americano Saturday Night Live, em que um personagem interpretado pelo cantor Bad Bunny choca uma mesa de amigos ao incluir a animação entre seus últimos filmes vistos. “Você foi assistir com seus filhos?”, pergunta uma das amigas. “Eu não tenho filhos”, responde ele, para espanto dos presentes.

Este apetite de adultos por produtos, hobbies e estéticas infantojuvenis já havia chamado a atenção da indústria de brinquedos, que batizou o fenômeno de kidults, fusão dos termos em inglês kid (criança) e adult (adulto). De acordo com dados da revista Times, os adultos são hoje responsáveis por um quarto dos brinquedos vendidos no mundo.

Que show da é esse?

Na indústria do entretenimento, por sua vez, os mais velhos se tornaram peças-chave no sucesso de produções que parecem talhadas para a infância e adolescência. Longas como “Um filme Minecraft”, que bateu recordes de bilheteira em 2025, já não cativam o público adulto apesar da sua inocência, mas por causa dela. A estética colorida de jogos eletrônicos como “Animal Crossing” ou a fofura da nova onda de livros de colorir também viraram atributos que atravessam gerações.

Outro caso digno de nota é a repercussão da turnê “O último voo da nave”, megaprodução em que Xuxa Meneghel revisita o universo de seus programas Xou da Xuxa (1986-1992) e Planeta Xuxa (1997-2002). O espetáculo, que reuniu 50 mil pessoas em sua estreia no Nubank Parque, em São Paulo, no final do mês passado, foi concebido na medida para quarentões e cinquentões nostálgicos que cresceram venerando a Rainha dos Baixinhos.

Não se trata, portanto, de um espetáculo para crianças, mas criado a partir de músicas, visuais e figurinos que fizeram parte da infância dos brasileiros entre os anos 1980 e os 2000. Só a nostalgia, contudo, não explica o atual sucesso da turnê. A prova é que o formato também tem atraído zennials e millennials jovens demais para terem vivido o auge da apresentadora.

— Parece que nessa época a magia era diferente — diz Rafael Souza, de 30 anos, que ainda não era nascido quando o último episódio do Xou da Xuxa foi ao ar, em 1992. — Fica aquele sentimento de “poxa, queria muito ter vivido isso”.

Presente na estreia paulista, Rafael planeja comparecer a três dos próximos cinco shows já anunciados para a turnê:

— Quando a nave sobrevoou nossa cabeça, olhei para as pessoas à minha volta e estava todo mundo chorando. Muita gente emocionada de verdade.

'Quentinho no coração'

Docente da pós-graduação em Comunicação na UFF e pesquisadora do Núcleo AnimaMídia (especializado em desenhos animados), Ariane Holzbach explica que conteúdos infantis sempre mantiveram laços com o adulto, desde a época em que contos de fadas eram a fonte primária de ensinamentos morais.

Foi a partir dos anos 2010, contudo, que o fascínio adulto por obras explicitamente infantis deixou de ser um nicho tímido e invadiu o mainstream. Exemplo emblemático desse período, o fandom masculino “Military bronies” reunia fuzileiros e oficiais do exército americano fissurados nos personagens da franquia “My Little Pony” (“Meu Querido Pônei”). Conhecida por seus pôneis coloridos com crinas longas, a franquia foi criada originalmente para meninas.

— Da memória afetiva à comercialização da nostalgia, podemos apontar várias razões para a expansão desse interesse por conteúdos infantis — diz Ariane. — Em todo caso, está claro que esses produtos dialogam com ansiedades contemporâneas. Os adultos estão querendo escapar da noção de incompletude do mundo atual, em que nunca se consegue saber tudo que é para saber.

Nas estratégias comerciais das editoras, os kidults viraram um alvo consolidado. Editora do selo infantojuvenil HarperKids, da HarperCollins, que reúne obras ilustradas de “Minecraft” e “Guerreiras do K-pop”, Lara Berruezo conta que vê cada vez menos fronteiras entre público adulto e infantojuvenil.

— Em uma reunião com a equipe da marca de brinquedos “Sylvanian Families”, nosso marketing perguntou qual era o público-alvo para alinharmos livros baseados no produto. Eles responderam sem hesitar: “O adulto.” E usaram abertamente o termo kidult — revela a editora. — As empresas continuam produzindo para a infância, mas sabendo que a obra será consumida por todas as idades.

Os mais velhos também são seduzidos pelo aspecto cozy (acolhedor) das franquias infantojuvenis, concebidas para oferecer uma sensação de aconchego e escapismo. No universo de “Sylvanian Families”, por exemplo, as famílias de pequenos animais vivem em uma comunidade pautada pelo respeito, pela cooperação e pela amizade.

— São histórias que dão um quentinho do coração — explica Berruezo. — Elas trazem essa sensação de cheirinho de recreio ou de férias da infância, algo muito valioso para um adulto exausto.

Cores da vida adulta

A evolução dos livros de colorir sintetiza a forma como o mercado se tornou mais fluido em relação ao seu público. Em 2013, títulos como “Jardim secreto” traziam desenhos hiperdetalhados, voltados prioritariamente aos adultos. Agora, a nova onda do filão tem como maior referência as ilustrações acessíveis da marca Bobbie Goods, com traços simples o suficiente para serem coloridos por uma criança do jardim de infância. Ainda assim, os livros caíram no gosto dos adultos, que acompanham (e postam) no TikTok e no Instagram tutoriais dedicados a técnicas de sombreamento e acabamentos especiais.

O movimento inverso também acontece: produtos simples da infância ganham sofisticação para reconquistar a maturidade. É o caso dos adesivos, que hoje inspiram publicações com cenários em perspectiva e efeito tridimensional. Seus adeptos dedicam horas a montar ambientes em miniatura, colando móveis, plantas e objetos em maquetes ilustradas. Diante desse cenário, não seria surpresa se os saudosos papéis de carta, que derreteram corações juvenis nas décadas de 1980 e 1990, ganhassem em breve uma nova encarnação.

— Acredito que os livros de atividades de forma geral, como os de colorir e os de adesivos, estão encantando igualmente adultos, jovens e crianças por oferecerem um descanso das telas e uma possibilidade de exercitar a concentração fazendo algo lúdico, trazendo de volta oportunidades de diversão no mundo real — diz a editora Virginie Leite, da Sextante, que publica títulos de colorir da marca Bobbie Goods, como “Cores e desenhos para aquecer o coração” e “Com amor, Bobbie Goods” (este último com cartões postais e também adesivos).