Curiosidades

Silvia Buarque, que fará o mesmo papel da mãe, Marieta Severo, no teatro, reflete sobre comparações: 'Nunca serei a atriz que ela é'

Em entrevista ao videocast 'Conversa vai, conversa vem', ela também analisa seus 40 anos de carreira: 'Minha autoestima como atriz nunca foi muito alta. Está aumentando, mas a duras penas...'

Agência O Globo - 04/08/2026
Silvia Buarque, que fará o mesmo papel da mãe, Marieta Severo, no teatro, reflete sobre comparações: 'Nunca serei a atriz que ela é'
Silvia Buarque

Silvia Buarque faz o mesmo papel que foi de sua mãe, Marieta Severo, no teatro, 20 anos depois. Em entrevista ao videocast do GLOBO, no ar no YouTube e no Spotify, a atriz de 57 anos refletiu sobre comparações entre as duas, que escolheram a mesma profissão. Leia um trecho:

Vem aí uma peça em que faz o mesmo personagem que, há 20 anos, foi de sua mãe, Marieta Severo...

É uma peça chamada 'Homens gordos de saia' . Felipe Hirsch montou com a minha mãe e Marco Nanini esse espetáculo que tinha dois textos do autor Nick Silver e se chamava 'Os solitários' . A história começa com uma mãe e um filho numa ilha deserta onde caiu um avião. É totalmente absurdo, louco, e tem antropofagia. Apresenta diálogos ácidos, a pior mãe do mundo, e sugere um incesto não efetivado, mas que cria um clima...

No início de carreira, chegou a se incomodar com comparações entre sua mãe e você, que dividem a mesma profissão. Já comentei que ela não te influenciou em nada. A frase reflete alguém com um DNA forte, que precisa ter identidade própria. Aos 57 anos, ser filha de Chico e da Marieta é menos pesada? É só a maturidade que traz a paz de ser quem se é com segurança, incorporando e acomodando esse legado?

Sim. Leva um tempo. Porque tem um tamanho. É uma questão de análise, maturidade e autoestima... Não vou ser a atriz que ela é. Minha mãe vai de A a Z; eu não. Ela é extremamente popular e faz as coisas interessantes que você deseja. Assim como acredito que eu também faço. Não sou popular. Abri mão da TV de certa forma. A TV também não deu mais bola a partir do momento em que abandonei. Fiz novelas de sucesso aos 18, 19 e 20 anos. Veja e gosto de ter feito. Minha autoestima como atriz nunca foi muito alta. Está aumentando, mas duras penas...

Como disse, começou na TV super cedo, aos 17 anos, e só fez novelas dos 18 aos 23: 'Dona Beja' , 'Corpo Santo' , 'Bebê a bordo' , 'Perigosas Peruas' ... Depois, enveredou para o teatro com encenadores como Moacyr, Góes, Gabriel Villela e Bia Lessa. O palco continua confortável o que a TV e as telas não oferecem?

Sentia que tinha que me preparar, estudar... Agora, estou apaixonado por cinema, 'treinando' o teatro com o audiovisual (risos). Mas o teatro é uma paixão no sentido bom e ruim que toda paixão traz: te enlouquece. O período de ensaio é insuportável e, ao mesmo tempo, é uma tesão. As descobertas. O que se vive numa sala de ensaio não se compara a outro lugar. É paixão, é febre, é tanta coisa que me dá até preguiça de começar uma peça nova (risos). Sei que vou entrar e ser arrebatado; será um pequeno inferno, e só vou querer saber disso.

Construiu um caminho alternativo, longe do mainstream, e me revelou da última vez que sentiu falta do salário da TV e da visibilidade. Sente que falta convite?

Cada vez me convidam menos. Recusei dois bons trabalhos porque estava no teatro. Quando falei que senti falta da visibilidade e do salário da TV, recebi apoio, pois isso mostra a vida de uma atriz mais alternativa, que não faz a comédia do momento para lotar um teatro de 2000 lugares... Às vezes, são bons, mas outras vezes, são coisas que não valem à pena... Não tenho contrato com a televisão, nem faço publicidade decorrente de novela.

Muita gente acha que uma atriz de sucesso é apenas quem faz novela das nove.

Fora isso, é chato. Ganho e guardo do meu trabalho, tenho casa própria, plano de saúde, e minha filha estuda em escola particular. Tenho um padrão de vida de classe média alta fornecida pelos meus pais. Uma situação financeira que permite viver bem, sem depender do salário da televisão. Porém, se não são 20 ou 30 atores que não fazem TV nem comerciais e conseguem sobreviver bem, isso é apenas 1% ou, no máximo, 3% da classe teatral. A maioria tem pensão, renda, herança, marido rico ou plano B, como dar aulas. Tenho um grande amigo, um ótimo ator, que faz Uber. Hoje, cada vez mais pessoas comentam: 'Não se vive de teatro'.

O que sente ao analisar o que se traçou em sua trajetória de 40 anos de carreira?

Muita coisa! Olho e sinto orgulho das minhas escolhas, das peças e dos filmes que fiz. As novelas também. Por outro lado, saber que não é considerado um nome forte o suficiente para conseguir um patrocínio em uma peça que protagoniza é frustrante. Acredito que estou empatado entre o sucesso pessoal e o reconhecimento. Modéstia à parte, acho que consegui conquistar um certo prestígio a duras penas. É um lugar em que você diz: 'Caramba!'. Mas, na hora em que a chamam, existe bastante essa ideia de que 'tem que ter um nome'. Nesse sentido, eu não sou um nome. Acredito que tenho uma trajetória de uma atriz brasileira especial, bacana. Não a julgo incrível, mas gosto e cuido dela.