Curiosidades
No Oscar com ‘O agente secreto’, Gabriel Leone diz: ‘Sem dúvida, foi um dos melhores roteiros que eu já li’
Ator, que está em cartaz em São Paulo com ‘Hamlet, sonhos que virão’, montagem da imortal peça de William Shakespeare, lançou na semana passada seu disco de estreia como cantor, ‘Minhas lágrimas’
Em cartaz em São Paulo desde o último dia 19 com , montagem da peça imortal de William Shakespeare, no canteiro de obras do , o ator carioca brinca que, meio a contragosto, dará uma pausa nesta semana na temporada da peça (que vai até 19 de abril) a fim de estar em Los Angeles, domingo, para a apresentação do Oscar.
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'Para dar muita sorte para o cinema brasileiro':
O filme do qual participou, “”, de , concorreu aos prêmios de melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator — para — e melhor elenco. Gabriel conta que Kleber chegou a ele depois de ver sua atuação em “Ferrari”, no papel de um piloto espanhol que aparece em cena falando em inglês. No “Agente”, Gabriel vive Bobbi, um dos assassinos no encalço do protagonista Armando/Marcelo (Moura).
— (Depois de ver “Ferrari”), Kleber disse: “Pô, esse cara tem a presença que eu quero que a Bobbi tenha.” O personagem tem uma presença grande de tela, tem momentos muito importantes ao longo do filme, mas poucas falas, ele é muito silencioso. Kleber queria que eu preenchesse a tela dessa maneira — diz o ator.
Logo após a primeira conversa, Gabriel leu o roteiro de “O agente secreto” e ficou arrebatado:
— Sem dúvida, foi um dos melhores roteiros que eu já li na vida. E acho um grande roteiro que virou um grande filme, um filme que funciona tanto na medida do entretenimento quanto do cinema, e que ainda funciona em todas as camadas políticas, com todas as críticas sociais também.
com o cinema nacional
Gabriel se diz orgulhoso de ver, logo em seguida a “” (de Walter Salles), mais um filme brasileiro, falado em português (e com forte conteúdo político) no Oscar:
— Não que eu ache que o cinema nacional ou que a arte nacional precise de alguma aprovação gringa, mas fato é que esse movimento está acontecendo e isso está se refletindo no nosso público. O “Ainda estou aqui” fez mais de 6 milhões de espectadores, “O agente secreto” mais de 2 milhões e outros filmes, como “O Auto da Compacedida 2” e “Homem com H” são filmes que estão trazendo o espectador brasileiro de volta para o cinema.
Uma alegria extra para Gabriel Leone em “O agente secreto” foi de Wagner Moura, que lhe deu uma cópia da tradução de “Hamlet”, feita a seis mãos por ele, Aderbal Freire-Filho e Barbara Harington. A montagem foi estrelada pelo ator baiano e dirigida por Aderbal em 2008:
— A gente leu e falou: definitivamente é essa tradução que a gente vai usar, porque é a que mais se aproxima do público sem perder a poesia, sem perder a complexidade do texto. E o Wagner sempre dizia: "Hamlet foi uma experiência transformadora na vida. Faça, não deixe fazer!"
Tijucano que estudou no Colégio Marista São José, praticou polo aquático no Tijuca Tênis Clube e montou no bairro como suas bandas de rock, Gabriel Leone virou um cidadão do mundo a partir das participações em “Ferrari”, na série “Senna” (no papel do lendário campeão brasileiro de Fórmula 1 Ayrton Senna) e em “O agente secreto”.
Este ano, ele volta às telas internacionais com a segunda temporada da série “Citadel”, ao lado de Stanley Tucci e Leslie Manville. A vida, ele admite, foi a milhão quando decidiu estrelar a montagem de “Hamlet”, com Rafael Gomes, que havia dirigido no cinema no longa-metragem “Meu álbum de amores”.
— A gente conversou sobre teatro e eu falei: “Pô, cara, eu sonho em fazer um Hamlet!” E ele falou: “Eu também e eu quero fazer, e num cinema abandonado de São Paulo.” E aí oito anos depois, coincidentemente (aconteceu) — revela ele, que no fim do ano passado tornou-se pai de um filho com a atriz Carla Salle, com quem é casado. — Toda vez que eu faço uma peça, parece que fiz 20 peças ao mesmo tempo. O que é maravilhoso. Primeiro, por voltar a fazer teatro oito anos depois da última vez. E Hamlet é Hamlet, né? A gente brinca que ele é o Everest para todo ator. É um texto que possibilita infinitas escolhas e caminhos.
Outra novidade do ator foi o lançamento, no último dia 6, de “Minhas lágrimas” (Som Livre), seu álbum de estreia como cantor. Composto por 10 canções do repertório lado B de autores consagrados da MPB, o disco é resultado, em boa medida, das visitas de Gabriel à Galeria Nova Barão, no Centro de São Paulo, onde estão algumas das principais lojas de vinil (novos e usados, alguns desses bem raros) da cidade.
— Tem músicas que estão no disco que eu conheci entrando em uma loja de vinil. Eu entreva, ouviva e falava: “Cara, que música linda, que música é essa?” E aí ficou com ela guardadinha no bolso — revela o ator/cantor de 32 anos. — Sempre quis fazer alguma coisa com música. Comecei a tocar e a fazer teatro na mesma época. Cantei com (na série documental “Milton e o Clube da Esquina”), cantei com Boca Livre (na gravação da música “Benefício”), cantei com um monte de gente. Eu descobri que um dia ia parar para compor, e até já compus algumas coisas. Mas nada que eu olhe e fale “quero tornar isso um projeto meu”.
Ao longo dos anos em cena, Gabriel Leone foi organizando uma playlist bem particular.
— Eu pensei assim: “Ah, se algum dia eu fizer um show, se algum dia acontecer alguma coisa, esse seria um repertório que eu gostaria de cantar.” Eram músicas de grandes compositores de MPB, músicas que, em sua maioria, não eram as mais conhecidas deles, mas que talvez por isso me tocassem. Foi quase como se eu tivesse descoberto elas, pérolas esquecidas que emocionavam muito — conta. — Eram músicas que conheciam entre si a nível de densidade, de letra e de dramaticidade. Não que eu não goste de música alegre, pra cima, mas as letras profundas, que têm imagens e poéticas, sempre acabam me interessando mais.
No ano passado, ele resolveu partir para a ação, junto com o amigo Marcus Preto, produtor de discos recentes de grandes artistas da MPB como (1945-2022) e (1941-2022). Dono de uma coleção de mais de 10 mil LPs só de MPB, ele conheceu Gabriel durante o trabalho na trilha de “Meu álbum de amores”. Logo, os dois estavam juntos em caçadas de discos raros na Nova Barão e noitadas de audição de LPs regadas a vinho.
— As músicas de “Minhas lágrimas” passam muito por essa relação nossa, essa troca musical. Tanto que, quando mostrei a minha curaria (da playlist de 40 músicas, enxugou para 10 possíveis de entrar no disco), ele sugeriu que eu só trocasse uma música: a “Capoeira do Arnaldo”, por outra do Paulo Vanzolini, “Cara limpa”, que se encaixava melhor no todo, e que, por acaso, acabou sendo a que abre o disco, com aquele arranjo meio (Rogério) Duprat, meio tropicalista, quase desconstruindo o samba que tem na música — conta o ator.
Está no disco, além disso, o “Choro das águas”, de Ivan Lins e Vitor Martins — que remete a “Aos nossos filhos”, de Ivan e Vitor, que Gabriel emplacou como sugestão (e como cantor) na série de TV de 2017 “Os dias eram assim” (“e ali, eu compus uma música para o meu personagem, que entrou na trilha também”, conta). Está lá também “Nós dois”, canção de Celso Adolfo, gravada em um LP raro do cantor Tadeu Franco, produzido por Milton Nascimento. E “As portas do meu sorriso”, de Paulinho Tapajós e Fagner, que o ator finalmente descobriu no disco que tocava em uma loja na Galeria Nova Barão.
Fã de Guilherme Arantes
Outra pérola escondida de “Minhas lágrimas” é “Antes da chuva chegar”, música de “Guilherme Arantes” (1976), primeiro LP do .
— Sou louco por essa por esse disco, acho que é uma das grandes estreias da música brasileira. E a faixa que mais me tocou do disco era o “Antes da chuva”, justamente por ser uma música curta, mas uma densidade tanto na harmonia quanto na letra, com aquelas imagens — diz Gabriel, que traz a predominância de composições dos anos 1970 e 80 com a faixa-título, que vem de “Cê”, disco de 2006. forma que ele interpreta aquilo tudo, sempre mexeu muito comigo.
Para o ator, esse título não se refere apenas às lágrimas tristes, mas ao transbordamento. Lágrimas de prazer, de alegria, de orgulho, de emoção, de felicidade, de gargalhar... o negócio é botar para fora os sentimentos, sejam eles quais primeiro.
— Nunca fui de chorar fácil, até em cena. Mas de uns anos para cá, a torneirinha ficou mais aberta — admitida. — É a maturidade de mim permitir, talvez, transbordar mais. Ou a própria decisão de finalmente fazer o projeto, gravar o disco. De outra forma, talvez eu fique me guardando, segurando com alguma justificativa de que “ah, não, que eu quero compor, que um dia eu vou um dia eu vou fazer...”. E aí uma hora alguma coisa te dá uma virada, te dá um estalo, te dá uma coragem de fazer, de botar para fora.
Paulinho da Costa:
A sonoridade geral de “Minhas lágrimas”, bem rock e densa, ficou a cargo de Tó Brandileone, produtor musical do álbum ao lado de Marcus Preto. A orientação na hora de gravar os vocais foi a de: esquece o cantor que um dia você foi.
— O canto que eu estudei foi um canto mais de musical, então é aquela voz um pouco mais empostada, com vibrato, sustentação. E eu estava gravando músicas de MPB, mesmo que num rearranjo de rock, com letras de MPB, nas quais o texto é muito importante. Então, o centro iria ser justamente o ator, interpretando as canções e dando vida às imagens — explica. — A música virou ferramenta de trabalho, mas nunca tive a pretensão de me lançar como cantor. Eu não estou trocando de profissão nem nada, apenas realizando um projeto pessoal. Não sei se eu vou gravar outro disco, mas lógico que eu vou fazer shows para lançar este.
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