Curiosidades
Isay Weinfeld: 'Emoção e graça são importantes para todos'
Um dos mais importantes arquitetos brasileiros em atividade, paulistano de 74 anos ganha mostra com 180 itens no Instituto Tomie Ohtake
Dos cerca de 180 itens da exposição que celebram meio século de trabalho de um dos mais importantes arquitetos brasileiros em atividade, a representação plástica dos acepipes favoritos do paulistano de 74 anos não é a mais impressionante. Mas a peça que reúne torresmo e trufa branca sintetizada com exatidão “Isay Weinfeld: etcétera”, onde o luxo e o popular caminham propositadamente juntos e misturados. A mostra estará aberta ao público de hoje até 17 de maio no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.
'Matéria e luz':
Sem MAR:
Com curadoria de Agnaldo Farias, “Etcétera” sublinha, sem didatismo, por que Weinfeld se destaca por seu traço elegante, sofisticado e sóbrio, sua reverência à luz, e uma independência gritante de estilo. Esta última, um espelho, diz o arquiteto em entrevista ao GLOBO, da multiplicidade de São Paulo onde vive, cenário principal para suas criações. As maquetes permitem espiar detalhes, entre outros, do Hotel Fasano, da escada espiral em pau-ferro da Casa Cubo, que parece levitar nos Jardins, e da Minha Casa, Minha Vida do Minhocão, em ângulos nada óbvios.
Primeiro brasileiro a aprovar um projeto de peso em Manhattan em sete décadas, o Jardim Building, no High Line, finalizado em 2019, Weinfeld direciona seu desejo para o futuro na habitação popular:
— Todos merecem um bom projeto de arquitetura, não só uma elite. Quem não tem grandes possibilidades financeiras não é, e nem pode ser tratado, como ignorante. Integridade, emoção e graça são importantes para todos. Quero fazer mais para a maioria.
“Etcétera” também oferece a possibilidade de se (re)descobrir o mobiliário, os filmes, a joalheria, as peças plásticas e de moda, os textos, e até detalhes da intimidade criativa de Weinfeld, do primeiro desenho (uma casa, claro) ao set list surrupiado do show do Radiohead em Miami.
Além das obras principais e surpresas, quem está exposto na mostra é você, sua intimidade, não?
Totalmente. E como sou muito reservado, foi um ato de coragem. Eu não sinto nada. Tudo o que estou exposto, minha vida. Revisitá-la me trouxe sentimentos misturados. Tenho pavor da morte, mas ainda tenho muito a fazer. Sou agitado e curioso. Veja a curiosidade como o grande privilégio da vida. Enquanto tiver forças, seguirei fazendo coisas.
Foi você quem batizou o show de 'Etcétera'?
Sim. Muita gente conhece o arquiteto, nem todo o que fez no audiovisual, como joias, o mobiliário, a escrita. Tudo é uma coisa só. Digo aos estudantes: abram a cabeça, o mundo é mais vasto do que a arquitetura. O que criei foi se afunilando para ela, mas é apenas uma parte do que me fez ser quem sou. O humor, a ironia, parte da minha essência, aparece, naturalmente, em outros meios de expressão (na mostra se destaca o carro com bagageiro adaptado para um sequestro, em comentário sobre a violência urbana).
Esta entrevista então não deveria apresentá-lo apenas como 'o arquiteto'...
Já me cansei dessa trincheira. E meu psicanalista foi definitivo: você é arquiteto, sim! Não sou pretensioso. Se sair “artista plástico” no GLOBO, ficarei constrangido. “Cineasta”, não é bem isso. Só não me encaixo no que me reduz. Inclusive em escolas e estilos de arquitetura. Não sou seguidor da Lina (Bo Bardi, 1914-1992), do Oscar Niemeyer (1907-2012), do Paulo Mendes (da Rocha, 1928-2021). Os admiradores profundamente, mas meu caminho trilhei só, com minha equipe, com quem sigo me divertindo. Busquei meu jeito de fazer arquitetura brasileira e tenho orgulho disso, para o bem e para o mal. Porque aí inventaram que sou o “arquiteto do luxo”...
Uma imprecisão?
Uma bobagem enorme. Quem faz casas de luxo para a elite também pode e deve fazer projetos de habitação social. A linha entre elas é tênue.
'Etcétera' também sugere continuidade. O que você gostaria de criar no futuro?
Endo abusado. Tenho paixão por Marina Abramovic e penso em fazer, pela primeira vez, uma performance. Também planejo uma mostra de joias. Coleção cacarecos, vejo coisas pelas ruas de São Paulo que me inspiram e levo para casa. É difícil entrar no meu apartamento, na Vila Madalena, de tanta porcaria que fui catando e evoluindo. Talvez a única coisa que de fato saiba fazer é pegar dois ou três elementos, uni-los de certa maneira, e dar-lhes significado, com tipo tocando alguém. É o que sei fazer. Seguirei fazendo.
E na arquitetura?
Gostaria de priorizar a habitação social. Fazendo outro Minha Casa, Minha Vida Estou, no Rio. Quando entrei no de São Paulo me emocionei. Sempre fui de extremos, daí a trufa branca e o torresmo. Fiz o projeto do Minhocão ao mesmo tempo em que traçou o Jardim Building, em Nova York, ao lado de prédios de alguns dos mais famosos arquitetos do planeta. Nele, a cobertura foi alugada pelo Bad Bunny. Fico lisonjeado, claro, mas a coincidência temporal entre os dois projetos me reafirmou que alto luxo e habitação popular não são excludentes. Desejo fazer mais para a maioria e enfatizar como a arquitetura é importante no debate social. Poderia ajudar muito mais. Olha “o arquiteto” aí baixando (risos).
Qual a importância de São Paulo em seu trabalho?
É fundamental. Sou muito paulistano. Adoro e odeio acidade ao mesmo tempo. Goste-se ou não, ela é fascinante. Vibrante culturalmente, com mistura única de gente. E a feiura de São Paulo também me encanta. Ela é feia mesmo, coitada. Mas a bagunça, a falta de personalidade, se tornou, com o tempo, sua própria personalidade. A cidade me fez entender algo precioso, o desespero. Não sofra com o que pode ser derrubado pela lógica da metrópole. Só estou incomodado com algo que me aconteceu no Rio.
O que houve?
A descaracterização do meu projeto para a loja das Havaianas (carro-chefe, inaugurada em 2019 em Ipanema). Ela foi pensada toda preta por fora e um belo dia apareceu pintada de branco, sem sequer me comunicarem. A loja é deles, claro, mas não custava me ligar: “Isay, faz sentido?” Eu me sinto desrespeitado. Algo central na minha prática é ouvir o outro, o cliente, minha equipe, quem vai passar pela rua. (Procurada, a assessoria da Havaianas não respondeu ao pedido de comentário do GLOBO até o fechamento da edição).
Mais lidas
-
1A CONTA NÃO FECHA
Pastor em Delmiro, salário em Maceió: folha aponta jornada de 40 horas a 290 km de distância na prefeitura de JHC/Cunha
-
2RODOVIAS
Obras da ponte entre Penedo (AL) e Neópolis (SE) avançam e ultrapassam 60% de execução
-
3SEGURANÇA PÚBLICA
Homem apontado como integrante de 'Equipe Caos' do CV no Morro do Fubá morre em confronto com PMs
-
4POLÍTICA
Memes não se tornam votos: Menina da Bota, Caneta Azul e Inês Brasil têm pouco mais de 20 mil e não se elegem
-
5
Vereadora eleita no Maranhão faz sexo dentro do Cartório