Curiosidades
De preso político a incentivador do carnaval de rua, Nelson Rodrigues Filho marcou a cena cultural do Rio
Produtor cultural foi um dos proprietários do Bar Barbas, que ampliou o conceito de restaurante para espaço cultural e inspirou bloco carnavalesco
Um pequeno jardim ornamenta a entrada do antigo prédio. Nas paredes, homenagens a Nelson Rodrigues — teatrólogo e escritor — dividem espaço com cartazes de teatro, shows, exposições, palestras, pôsteres de jornais e plantas, compondo um ambiente harmonioso. Na galeria junto à escada, fotos de barbudos ilustres como Dostoievski, Hemingway, Machado de Assis, Bernard Shaw, Zola, Tolstói, Anatole France, Leonardo da Vinci, Calvino, John Ruskin e Freud. Assim, o jornal O GLOBO descrevia, em 20 de julho de 1982, o Bar e Restaurante Barbas, localizado na rua Álvaro Ramos, nº 408, em Botafogo, Zona Sul do Rio. Um dos sócios era Nelson Rodrigues Filho, o Nelsinho, falecido na última quarta-feira aos 79 anos.
Do bar de Nelsinho nasceu, em 1985, o Bloco Barbas, um dos precursores do ressurgimento do carnaval de rua do Rio após o período da ditadura militar. O contexto histórico de exceção foi determinante na trajetória de Nelsinho — filho do dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues. Ele integrou o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e foi preso em 1972, permanecendo detido por sete anos e nove meses. Costumava afirmar que só não foi morto porque o pai mantinha boa relação com militares.
Formado em engenharia em 1968, Nelsinho aprofundou-se na obra do pai — que o visitava regularmente na prisão — durante o período em que esteve privado de liberdade. Após ser libertado, passou a cuidar das adaptações das peças do pai, a pedido do próprio Nelson Rodrigues, iniciando sua trajetória como assistente de direção.
No Bar Barbas, Nelsinho criou um espaço que extrapolava o conceito tradicional de restaurante, consolidando-se como importante produtor cultural da cidade. “Sempre acreditamos que um restaurante pode ser muito mais do que apenas um restaurante, que pode ser um local para as mais diversas atividades culturais”, declarou ao GLOBO em julho de 1984. “Já no primeiro mês de funcionamento, promovemos o lançamento do disco do conjunto Galo Preto e, posteriormente, organizamos exposições, lançamentos de livros e discos, inovando ao dinamizar esses eventos com debates e shows. Acredito que, nesse sentido, fomos mesmo pioneiros.”
O Bar Barbas encerrou suas atividades no início dos anos 2000, mas o bloco carnavalesco fundado em suas bases segue animando a folia carioca.
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