Curiosidades
Muncab abre exposição com trabalhos que integram a maior repatriação de obras de arte afro-brasileira da história do Brasil
Batizada de 'Inclassificáveis', mostra na instituição baiana traz parte de uma coleção com 600 peças devolvidas ao Brasil por professoras americanas e tem como intuito valorizar narrativas marginalizadas: 'Percebemos que a estrutura de racismo coloca artistas pretos dentro de uma caixinha', diz diretora
A boa notícia veio da boca de duas mulheres americanas num belo dia do ano de 2023, durante uma visita surpresa ao Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), em Salvador: a instituição ganharia mais de 665 novas obras de 135 artistas brasileiros.
Ney Matogrosso.
Simone.
É que por mais de 30 anos, as professoras de História da arte americanas Bárbara Cervenka e Marion Jackson viajaram pelo Nordeste pesquisando e adquirindo trabalhos de artistas locais. E depois de três décadas desejavam doar toda a coleção, que reunia pinturas, esculturas, fotografias, gravuras, xilogravuras, arte sacra e diversas tipologias produzidas entre as décadas de 1960 e 2000 por artistas negros. Entre eles, J. Cunha, Babalu (Sinval Nonato Cunha), Goya Lopes, Zé Adário, Lena da Bahia, Raimundo Bida, Sol Bahia e Emma Valle abrangendo diferentes gerações, territórios e linguagens artísticas.
A operação acabou se tornando a maior repatriação de obras de arte da história do Brasil, cuja logística envolveu embalagem especializada, normativas de conservação museológica, trâmites alfandegários e transporte internacional, com suporte de diversos órgãos públicos e parceiros.
O presentaço caiu como uma luva bem no momento em que a história da arte está fazendo uma revisão histórica do olhar tradicional na categorização canônica da história da arte. A diretora geral, Cintia Maria, e a diretora artística, Jamile Coelho, haviam estreado à frente do museu com a exposição "Um defeito de cor" e seguem tendo como norte a proposta de fortalecer, preservar e difundir a cultura afro-brasileira em suas múltiplas expressões artísticas e intelectuais.
Em meio a debates sobre o papel de um museu no tempo presente, o que são as artes afro-brasileiras nesse presente e o diálogo dela com a arte contemporânea e outras diásporas, se depararam com a riqueza de linguagens daquela coleção. Ela ia, justamente, de encontro não só à missão que acreditavam ser a do Muncab, como ampliava o leque das pesquisas que desejavam realizar.
Além de fortalecer o acervo permanente do museu, possibilitava novos modos de leitura sobre autoria, circulação e memória na arte brasileira. Dava match perfeito com a ideia de preservar e difundir narrativas historiográficas antes marginalizadas, especialmente aquelas produzidas por artistas negros ao longo de décadas.
— Essas quase 700 obras eram exemplo do que estava sendo produzido, sobretudo no Pelourinho, além de outras regiões do Nordeste, neste período. A gente percebe que muitos desses artistas produziam de maneira orgânica e empírica obras muito específicas, mas tudo era enquadrado como arte popular, naïf, primitiva. — analisa Jamile. — A primeira inquietação que nasce quando nos deparamos com esse acervo, foi perceber a estrutura de racismo que acaba colocando os artistas pretos, em vez dessa definição de escolas, sobretudo escolas que vêm do cânone acadêmico, numa caixinha sem que haja estudo apurado sobre a produção. Percebemos que havia muitos diferenciais e precisávamos pensar em como essa produção é classificada.
Esses questionamentos acabaram se tornando o mote da exposição "Inclassificáveis", que o Muncab abre no mês que vem com cerca de 100 trabalhos selecionados da coleção, que vem passando por um processo de conservação preventiva e restauração.
'Conversa vai.
— Tem a escola esculturas de Cachoeira (BA) do Louco (Boaventura da Silva Filho), que começa e encabeça esse processo que vemos até hoje de esculturas de madeira; em Salvador a gente faz uma caminhada por todos os ateliês que nomeamos de Escola Pelourinho, com Gil Abelha, cuja produção se volta para a narrativa do cotidiano do que era o Pelourinho na década de 90, Sol Bahia, que produzia muito relacionado a tanto do ponto de vista das revoltas da Bahia, Alfredo Cruz, que faz paralelo com as festas populares do Nordeste, Mauro Verde, J Cunha, Goya Lopes — exemplifica Jamile.
Se trinta anos depois, sabemos que J. Cunha é um dos nomes mais conhecidos das artes visuais brasileiras, é possível conhecer obras do início da produção do artista, em 1996.
— Há duas obras importantes de destacar: um díptico chamado "Cabeça de Iaô", com referencial afro-religioso, e "Bois tombados", em que ele fala sobre o quanto nós humanos acabamos criando uma ideia de que somos superiores a qualquer forma de vida, que pode subalternizar outros seres. J. traz essa perspectiva em 1996 de um debate que é muito atual. Destaque também para seu Zé Dário, que ganhou em 2023 o prêmio de melhor exposição individual pela revista "Select", mas durante muito tempo não teve reconhecimento. Tem uma produção específica voltada para a arte sacra, sobretudo ferramentas de Orixás. Há ali obras que ele nem se lembrava de ter feito -— detalha Jamile.
A longo do ano, o museu desenvolverá um programa de exposição que se desdobra em outras mostras de longa duração, catálogos e iniciativas educativas vinculadas à coleção. Para o Muncab, espaço que visa destacar a influência da cultura de matriz africana na construção do Brasil com trabalhos que falam da identidade negra, a repatriação representa um marco para o campo das artes visuais, da museologia e da cultura brasileira. Reverte o fluxo histórico de saída, apagamento e dispersão de obras produzidas por artistas negros, muitas vezes excluídos dos circuitos institucionais, do mercado e da historiografia oficial da arte. E faz repensar conceitos:
— Discutimos sobretudo acerca do uso da nomenclatura “repatriar” que, geralmente, é utilizada nestes contextos. Em substituição, preferimos a palavra "rematriar", terminologia criada a partir da poética do professor doutor Ayrson Heráclito já que toda a narrativa desse movimento histórico aconteceu por empenho da força feminina: desde o processo de doação com as historiadoras Bárbara Cervenka e Marion Jackson até às diretoras do Muncab, Cintia Maria e Jamile Coelho. Retornar esse legado civilizatório da cultura afro-brasileira para a nossa população via Bahia, onde tudo começou, é simbólico. Por tudo isso, temos destacado o conceito de "rematriar". Diferente de repatriação, que foca no estado/nação, a rematriação proposta frequentemente por artistas afro-diaspóricos, incluindo a poética de Heráclito, foca na terra, na ancestralidade, no corpo feminino (mátria) e nos saberes sagrados — .
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