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Aos 88 anos, Arlete Salles faz monólogo pela primeira vez e aborda a dor do luto, mas com muito humor: ‘Tenho pavor da morte'

Atriz sobe ao palco em 'Mande notícias do mundo de lá', em cartaz no Teatro dos 4, na Gávea, Zona Sul do Rio

Agência O Globo - 14/08/2026
Aos 88 anos, Arlete Salles faz monólogo pela primeira vez e aborda a dor do luto, mas com muito humor: ‘Tenho pavor da morte'
Arlete Salles - Foto: Reprodução / internet

Nunca é tarde para aprender algo novo. Nem mesmo para uma atriz veterana, que é referência quando o assunto é teatro, cinema e televisão. Arlete Salles , de 88 anos, sobe ao palco em seu primeiro monólogo, “Mande notícias do mundo de lá”, em cartaz no Teatro dos 4, na Gávea, Zona Sul do Rio. Com poucos objetos de cena, a atriz protagoniza a história de Eulália Eugênia , uma idosa que vai ao velório de uma amiga querida. Mas, de onde menos se espera, vem muito humor.

Ao lado do caixão, ela quer garantir que uma amiga não faça parte sozinha. Entre lembranças e implicâncias, Eulália alterna gargalhadas e lágrimas numa reflexão sobre envelhecimento e perdas. Assim como sua personagem, Arlete assume ter medo da morte, mas diz que estar na ativa não a deixa pensar tanto no assunto. Prova disso é que a veterana sobe aos palcos menos de três meses após o fim de “Três Graças”, novela em que interpretou Josefa . Haja fôlego! Confira a entrevista abaixo.

Como é fazer um monólogo pela primeira vez?

É uma novidade na minha carreira e acho um desafio enorme que ele chegou exatamente neste momento. Nunca desejei fazer um monólogo. Tinha receios, descobri que não era necessário para minha carreira. Mantive a distância por um bom tempo. Mas eu encantei com a sensibilidade de que a amizade de duas mulheres idosas e o envelhecimento são envolvidos.

Por que você resistiu tanto a fazer um monólogo?

Eu tinha muito receio de não ter com quem dialogar. O medo era: “e se em algum momento eu esqueci o texto?”. Para as cortinas se abrirem, tem que haver segurança sobre o que vai ser feito, né? Por isso, ensaiei muito. Acredito que o monólogo foi uma coisa do destino. Nunca desejei estar num palco sozinho, mas agora me sinto muito feliz porque o resultado tem sido maravilhoso. Confesso que dá muito trabalho. Não pretendo repetir.

Como lida com o etarismo?

Temos tantas oitentinhas e oitentões trabalhando... Meu Deus do céu, 80 anos não é mais uma reportagem de que tudo acabou, ou morre ou se recolhe definitivamente. O homem está mais longevo já há muito tempo, né? Antigamente, uma mulher de 50 anos já era considerada uma velha. Agora estamos chegando aos 80 muito bem, na grande maioria. Hoje temos mais recursos, mais consciência e compreensão de que é possível prolongar a vida com cuidado.

Como foram as perdas?

O grande luto que já vivi foi a partida da minha mãe (Dona Severina morreu em 2013, aos 93 anos). É difícil lidar com o “fim.Acabou para sempre”. A morte é a coisa mais radical que existe. Apesar do grande luto, eu sobrevivi e hoje ela virou saudade, uma lembrança querida, mas não há mais o sofrimento. Tenho muita saudade da Marília Pêra e da Aracy Balabanian . Eram os colegas mais próximos de mim. Convivemos muito.

Tem medo da morte como Eulália Eugênia?

Eu tenho pavor! (risos). A finitude é uma coisa horrível, mas significativa. Mesmo que a gente nunca esteja preparada, a nossa hora vai chegar.

Apesar de católico, você acredita em vida após a morte?

Tenho que acreditar, senão enlouqueço. A certeza de que nada existe após a morte é um pensamento pra endoidecer. Mas só vamos saber na hora. A morte é um grande mistério.