Conhecimento
'Narcocultura digital': conteúdos associados a facções alcançam jovens nas redes em 20 minutos
Especialistas explicam que esses conteúdos romantizam ou normalizam o universo do crime organizado
O algoritmo do TikTok levou apenas 21 minutos para começar a sugerir a um usuário de 17 anos vídeos com referências a facções criminosas em um teste feito pelo GLOBO. As publicações apresentavam músicas, emojis e outros símbolos associados ao Comando Vermelho (CV), ao Terceiro Comando Puro (TCP) e ao Primeiro Comando da Capital (PCC), elementos que especialistas apontam como parte de uma estratégia de construção de identidade e pertencimento entre jovens expostos à chamada “narcocultura digital”.
No teste, que criou uma nova conta para simular um jovem ainda menor de idade, foram realizadas apenas duas buscas: primeiro por “baile” e, dois minutos depois, por “baile em SP”. Em ambos os casos, a pesquisa foi encerrada, e a navegação voltou para a aba “Para Você”. Pouco tempo depois, surgiu o primeiro vídeo com música relacionada ao CV. Aos 25 minutos e cinco segundos, o feed já havia recomendado cinco vídeos com referências ao CV (dois), PCC (dois) e TCP (um). Procurado, o TikTok informou que removeu os conteúdos indicados.
No momento da criação da conta, a plataforma exibiu o aviso: “como você tem menos de 18 anos, a lei no Brasil exige que você tenha um dos pais ou responsável legal para representar e auxiliar no uso do Tiktok. Ao continuar você reconhece que conta com a supervisão dos pais”. O perfil foi configurado como público, assim como comentários, reutilização de conteúdo e mensagens.
Os conteúdos exibidos fazem parte da chamada “narcocultura digital”, explica o sociólogo e professor de história e sociologia Wesley Santana, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. São práticas, símbolos e expressões que romantizam ou normalizam o universo do crime organizado.
— Quando as políticas públicas não chegam a todos, a corrupção política e a violência nos mostram, através das redes sociais, a necessidade de gritar. E esse grito vem de narrativas e discursos como fazem as facções, que nascem da desigualdade. Jovens se identificam com esses símbolos, alguns influencers incentivam essas narrativas, e os impactos são enormes na construção da identidade dos adolescentes — destaca Santana.
A dimensão dessa exposição acompanha o crescimento do uso das redes entre adolescentes. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), o país tem cerca de 24,6 milhões de usuários de internet entre 9 e 17 anos, o equivalente a 92% dessa população. Entre eles, 57% afirmam usar o TikTok várias vezes ao dia ou diariamente.
Semiologista, doutora em Letras e professora de linguística da Universidade Federal Fluminense (UFF), Silvia Maria de Sousa afirma que a repetição desses códigos faz com que eles se tornem familiares e percam parte do impacto que inicialmente poderiam causar.
— Nas redes sociais, emojis, expressões linguísticas, cores ou gestos atuam como sinais de adesão a determinados discursos. Ao utilizá-los, os sujeitos não apenas comunicam informações, mas manifestam pertencimento, afinidade e compartilhamento de valores. O adolescente que adota determinado símbolo não está apenas comunicando, está construindo uma identidade, inscrevendo no próprio corpo o seu pertencimento a um grupo — pontua Sousa.
Fase de identificação
Doutora em psicologia social e professora da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, Sibele Aquino pondera, contudo, que o uso desses símbolos não significa, necessariamente, adesão ao crime, mas pode refletir um processo de identificação típico da adolescência.
— Parte importante da nossa identidade é construída a partir dos grupos com os quais nos identificamos e dos significados que atribuímos a eles. Na adolescência e juventude, essa construção identitária tem especial importância, porque adolescentes e jovens estão definindo quem são e do que fazem parte — reitera Aquino.
Especialistas destacam que a presença desses elementos nas redes não significa, por si só, a prática de um crime. A advogada criminalista Silvana Campos explica que a apologia ao crime, prevista no artigo 287 do Código Penal, depende da análise do contexto, da intenção e dos efeitos da publicação:
— O Direito Penal exige a análise do contexto, da intenção e dos efeitos da publicação. O limite entre a manifestação cultural e a ilegalidade está justamente na finalidade do conteúdo. Quando há exaltação, incentivo, promoção ou tentativa de legitimar atividades criminosas, pode haver enquadramento em crimes como apologia ao crime ou apologia de criminoso. Já a mera reprodução de um fato, uma obra artística, uma reportagem ou um conteúdo documental, em regra, está protegida pela liberdade de expressão e artística.
Ela acrescenta que, dependendo do conteúdo, influenciadores podem responder por apologia ao crime e até serem investigados por outros delitos relacionados ao crime organizado, caso haja indícios de participação, colaboração ou favorecimento das atividades criminosas.
O advogado criminalista André de Oliveira Silva afirma que muitos produtores de conteúdo desconhecem as consequências penais da divulgação desse tipo de material, inclusive com previsão de prisão.
Em nota, o TikTok informou que os vídeos identificados pelo GLOBO foram analisados e removidos por violarem as Diretrizes da Comunidade.
“Nossas diretrizes deixam claro que não permitimos conteúdo que promova, elogie ou forneça apoio material a organizações criminosas violentas. Nossa abordagem de moderação de conteúdo combina tecnologia com revisão humana para identificar e remover materiais que possam violar as Diretrizes da Comunidade. Contamos com mais de 40 mil profissionais dedicados à segurança, incluindo moderadores brasileiros”, afirmou a plataforma.
A empresa acrescentou que publica relatórios trimestrais de moderação em seu Centro de Transparência. Segundo o documento referente ao primeiro trimestre de 2026, 99,6% dos vídeos que violaram as políticas sobre organizações e indivíduos violentos ou que promovem o ódio foram removidos de forma proativa, antes de qualquer denúncia. Desse total, 89,8% foram retirados antes de receber visualizações. Ainda de acordo com a empresa, 96,2% dos conteúdos denunciados por usuários receberam resposta em até duas horas, e apenas 0,2% levaram mais de 24 horas para análise.
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