Cidades
Quando chega o São João, Jacinto Silva volta para casa
Obra do mestre do coco sincopado atravessa gerações e devolve a Palmeira dos Índios, a cada mês de junho, a voz de um dos maiores artistas de sua história
Quando as primeiras bandeirolas aparecem, o cheiro de milho assado toma conta das ruas e o som da sanfona volta a ocupar as praças, Jacinto Silva retorna a Palmeira dos Índios.
Não fisicamente. O artista morreu em 19 de fevereiro de 2001, em Caruaru, Pernambuco. Mas basta o São João se aproximar para que sua voz rápida, clara e inconfundível reapareça nas rádios, nos paredões, nos salões, nas feiras e nas memórias das famílias nordestinas.
É como se Jacinto nunca tivesse ido embora.
Durante o mês de junho, suas músicas recuperam a atmosfera dos antigos arraiais, dos terreiros iluminados por fogueiras e das festas em que o forró não era apenas atração de palco, mas expressão direta da vida popular.
Sebastião Jacinto da Silva nasceu em 23 de agosto de 1933, no então povoado de Canudos, ligado à região de Palmeira dos Índios. Antes de se tornar um nome conhecido da música nordestina, trabalhou como agricultor, ajudante de caminhão, pedreiro e fabricante de mosaicos.
A música, contudo, já fazia parte de sua vida desde a infância.
Aos 12 anos, começou a cantar emboladas em feiras, festas e outros ambientes populares. Ali se formou o artista que aprenderia a transformar o cotidiano do povo em versos, ritmo e humor.
O Rojão em Pessoa
Jacinto Silva recebeu o apelido de “O Rojão em Pessoa”.
A definição dizia muito sobre sua maneira de cantar. Ele acelerava as palavras, brincava com a divisão rítmica e conduzia os versos com uma precisão que impressionava músicos e ouvintes.
Seu coco era veloz, mas não confuso. Mesmo nas composições mais rápidas, cada palavra podia ser compreendida.
O canto de Jacinto carregava o ruído das feiras, o balanço das carroças, a conversa dos trabalhadores, as brincadeiras do interior, os amores, as dificuldades e as pequenas confusões da vida nordestina.
Era uma música criada a partir da observação do povo.
Jacinto não cantava um Nordeste imaginado à distância. Cantava o Nordeste que conhecia, no qual trabalhou, circulou e construiu sua própria história.
Discípulo de Jackson do Pandeiro
A trajetória de Jacinto Silva esteve profundamente ligada a Jackson do Pandeiro, uma das maiores referências da música popular brasileira.
Considerado discípulo do mestre paraibano, Jacinto desenvolveu uma identidade própria dentro do coco e do forró. Absorveu a complexidade rítmica de Jackson, mas construiu uma maneira particular de interpretar, marcada pela velocidade, pelo sincopado e pela articulação das palavras.
Em 1951, participou de um programa de calouros da Rádio Difusora de Alagoas. Alguns anos depois, passou a se apresentar em circos e programas de rádio, levando inicialmente ao público músicas do repertório de Jackson do Pandeiro.
Em 1958, mudou-se para Caruaru, cidade que se tornaria uma das principais bases de sua carreira.
Na capital do forró, participou de programas da Rádio Cultura do Nordeste e da Rádio Difusora de Caruaru, além de integrar caravanas de artistas que percorriam cidades de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e outros estados.
Das feiras para os discos
Jacinto Silva gravou seu primeiro disco em 1962.
A partir daí, iniciou uma extensa trajetória fonográfica, passando por gravadoras como Mocambo, CBS, Continental, Ariola e Polygram.
Em 1965, lançou o LP “Ritmo Explosivo”. No ano seguinte, veio “Cantando”, disco que incluía “Coco Sincopado”, composição que se tornou uma referência de seu estilo.
Ao longo da carreira, Jacinto gravou 24 LPs e dois CDs.
Entre cocos, baiões, rojões, xotes e outros ritmos, deixou uma obra numerosa, marcada pela criatividade e por uma capacidade rara de unir tradição e inovação.
Músicas como “Coco Trocado”, “Amei Amei”, “Coco do Gago”, “Confusão no Galinheiro”, “O Vestido da Mariana”, “Cante Cantador” e “Coco Sincopado” ajudam a compreender a diversidade de sua produção.
Jacinto também participou das tradicionais coletâneas “Pau de Sebo”, ao lado de nomes como Marinês, Trio Nordestino, Abdias dos Oito Baixos, Coronel Ludugero e o próprio Jackson do Pandeiro.
Um cronista do povo
As composições de Jacinto Silva funcionam como pequenos retratos do Nordeste.
Ele escrevia sobre festas, profissões, animais, relações familiares, costumes, crenças, amores e situações engraçadas. Encontrava matéria musical nas coisas aparentemente simples.
Seus personagens não pertenciam aos salões das elites. Eram agricultores, vaqueiros, feirantes, sanfoneiros, mulheres do interior e homens que enfrentavam as dificuldades da vida sem perder o humor.
O artista transformava a oralidade popular em canção.
Por isso, sua música não envelheceu. As gravações preservam expressões, sotaques, histórias e maneiras de viver que continuam reconhecíveis para quem nasceu ou cresceu no interior nordestino.
Jacinto cantava com graça, mas não tratava o povo como caricatura. Ele fazia parte daquele universo.
Palmeira gravada na obra
Mesmo depois de construir parte importante de sua carreira em Pernambuco, Jacinto Silva permaneceu ligado às suas origens alagoanas.
Palmeira dos Índios o reconhece como um de seus principais representantes culturais. Seu nome aparece ao lado de figuras da arte como Jofre Soares e mais recentemente Carlos Moura na galeria de personalidades que projetaram o município para além de suas fronteiras.
A cidade já realizou homenagens, exposições e eventos dedicados ao artista. Sua imagem também foi utilizada em selo comemorativo da emancipação política de Palmeira dos Índios.
Mas a maior homenagem ocorre de forma espontânea todos os anos.
Quando suas músicas voltam a tocar nas festas juninas, Jacinto deixa de ser apenas um personagem da história e volta a ocupar seu lugar como artista presente.
Uma memória que precisa ser preservada
A obra de Jacinto Silva precisa ser apresentada às novas gerações.
O artista não pode ficar restrito à lembrança daqueles que compraram seus discos, acompanharam seus programas de rádio ou participaram de seus shows.
Seu repertório deve chegar às escolas, aos projetos culturais, às rádios e aos palcos dos festejos juninos.
Palmeira dos Índios possui a responsabilidade especial de preservar essa memória.
É necessário digitalizar gravações, reunir fotografias, recuperar documentos, ouvir familiares e pesquisadores e criar espaços permanentes de divulgação de sua obra.
Em 2013, o professor e poeta Luciano José lançou o livro “Jacinto Silva — As Canções”, reunindo e catalogando parte importante da produção do compositor.
O trabalho demonstra a dimensão de um repertório que ultrapassa o período junino e ocupa lugar relevante na história da música brasileira.
O São João que nunca envelhece
Jacinto Silva não precisa ser reinventado para continuar atual.
A força de sua música está justamente na autenticidade. Sua obra preserva uma identidade cultural que não depende de efeitos grandiosos, estruturas milionárias ou estratégias de publicidade.
Bastam o ritmo, a voz e a história.
No período em que as festas juninas se tornam cada vez mais dominadas por atrações de outros gêneros, lembrar Jacinto também é defender a presença do forró e do coco na programação cultural nordestina.
Não se trata de rejeitar o novo, mas de impedir que a modernização apague aqueles que ajudaram a construir a festa.
Jacinto Silva pertence ao patrimônio cultural de Palmeira dos Índios, de Alagoas e do Nordeste.
Quando junho chega, o artista volta a circular pelas ruas da cidade onde sua história começou.
Volta na vitrola, no rádio, no celular e na memória.
Volta porque o verdadeiro artista não desaparece quando termina o espetáculo. Permanece nas canções que o povo continua cantando.
Quando chega o São João, Jacinto Silva volta para casa.
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