Cidades
Obras milionárias do turismo religioso em Pilar e Santana do Ipanema param e expõem desperdício de dinheiro público
Denúncia feita pelo engenheiro civil Marcos Carnaúba lança luz sobre um problema que vai além da engenharia: o uso de milhões de reais em obras iniciadas sem planejamento técnico
O que foi anunciado como redenção econômica e símbolo de fé para municípios alagoanos hoje serve de alerta sobre falta de planejamento, improvisação técnica e risco ao erário. Dois dos maiores projetos de turismo religioso do estado — o Santuário de Senhora Sant’Ana, em Santana do Ipanema, e a estátua do Cristo no Pilar — foram paralisados após problemas graves de engenharia, sobretudo pela ausência de estudos sobre a ação do vento, fator básico em obras verticais de grande porte.
O diagnóstico foi feito pelo engenheiro civil Marcos Carnaúba, 83 anos, ex-presidente do Instituto do Meio Ambiente (IMA) e fundador do grupo “Calculistas”, uma das referências da engenharia estrutural em Alagoas. Em entrevista recente, o veterano foi direto: “Uma estrutura sujeita a vento pesado não dá”.
Santana do Ipanema: fé no alto da serra, risco no chão
No Sertão, a construção do Santuário de Senhora Sant’Ana, com uma imagem de 38 metros de altura no topo da Serra Aguda, foi apresentada pela gestão municipal como motor da chamada “economia criativa”. O projeto previa mirante, praça de alimentação, geração de empregos e atração de romeiros, vendendo a ideia de um novo ciclo de desenvolvimento para Santana do Ipanema.
Mas o discurso político não resistiu à realidade técnica. Segundo Marcos Carnaúba, a obra foi iniciada sem estudos aerodinâmicos, mesmo estando em uma área de ventos intensos. Ao questionar informalmente a segurança da construção, o engenheiro ouviu uma resposta que, segundo ele, traduz o nível de improvisação: “Pra que estudar vento? O vento faz o quê?”.
Carnaúba afirma que tentou obter os cálculos estruturais junto à prefeitura, sem sucesso. Pouco tempo depois, recebeu a informação de que a obra havia sido interrompida justamente por problemas relacionados ao vento. A reação foi de alívio: “Graças a Deus. Vai me proteger”, disse, ao avaliar que a paralisação evitou um possível colapso com risco direto a fiéis e visitantes.
Pilar: o gigante que parou antes de ficar em pé
Se em Santana o problema foi detectado a tempo, no Pilar o cenário é ainda mais emblemático do desperdício de recursos públicos. A estátua do Cristo, projetada para ter 70 metros de altura e ser a maior do mundo, teve apenas cerca de 20% da obra executada antes de ser paralisada.
A interrupção ocorreu após técnicos do Crea-AL e da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) apontarem a necessidade urgente de auditoria nas fundações e na estrutura. Marcos Carnaúba, que visitou o canteiro, relatou falhas graves: armaduras cortadas no mesmo nível, solução incompatível com uma obra sujeita a fortes cargas de vento.
“Uma estrutura dessas precisa de peso, rigidez e cálculo fino. O que vi ali não resiste”, afirmou.
Para ele, a situação beirou o absurdo quando surgiu, nos bastidores, a proposta de substituir paredes de concreto de 15 centímetros por uma tela metálica importada para reduzir o peso da estátua.
A ironia veio pronta: “Queriam o quê? Que o Cristo voasse?”.
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