O país que cabe na urna

18/10/2026

Daqui a poucos dias, o brasileiro estará sozinho diante de uma urna. Serão alguns segundos entre o primeiro número e a tecla de confirmação. Um gesto breve, quase banal, para uma decisão que continuará entrando em nossas casas durante anos.

Entrará pelo preço da comida, pela porta do posto de saúde, pela escola dos filhos, pela oportunidade de emprego. Entrará também pela liberdade de dizer o que se pensa sem medo de uma ameaça na calçada ou de uma perseguição nas redes sociais.

É esse o tamanho do voto.

A campanha tenta reduzir tudo a nomes, números e cores. Mas há momentos em que uma eleição exige uma resposta mais profunda: que país estamos dispostos a construir e o que aceitamos fazer uns com os outros para chegar até ele?

Penso nisso quando vejo a facilidade com que tanta gente repete uma mentira recebida pelo telefone. Não procura a origem, não pergunta pela prova, não admite a dúvida. Aperta o botão de encaminhar e vai adiante, convencida de ter cumprido um dever patriótico. Do outro lado da tela pode haver uma reputação destruída, uma família ameaçada, uma comunidade dividida. Para quem compartilha, porém, foi apenas mais uma mensagem.

Assim a mentira ganha intimidade. Chega pelo grupo da família, acompanhada de um “bom dia”, e encontra a confiança que uma fonte desconhecida jamais mereceria.

Há quem se declare de direita sem conseguir explicar o que defende além da derrota de um inimigo. A expressão passa a servir de abrigo para ressentimentos, preconceitos e certezas que não suportam uma pergunta. Sob ela, a ignorância ganha aparência de posição política, e a crueldade se apresenta como coragem.

A direita democrática tem responsabilidade diante disso. Quem acredita na liberdade precisa defendê-la também para o adversário. Quem invoca a ordem precisa aceitar a lei quando ela alcança os seus. Quem fala em família precisa enxergar a família que depende do salário mínimo, da escola pública e de uma consulta pelo SUS.

O compromisso democrático aparece justamente quando contraria uma conveniência.

Também me inquieta esse patriotismo que se agiganta diante dos pobres brasileiros e se apequena diante do poder estrangeiro. Há uma contradição profunda em vestir a bandeira nacional e tratar a submissão aos Estados Unidos como destino desejável. A soberania exige mais do que cores na roupa: exige respeito pelo direito de o Brasil decidir seus próprios caminhos.

E há milhões de brasileiros para quem esse caminho continua difícil. Gente que trabalha muito e ainda precisa escolher qual conta ficará para depois. Gente para quem um programa social significa comida no prato, permanência na escola, algum alívio numa vida sem folga.

Uma perspectiva progressista precisa responder a essas pessoas com políticas públicas, serviços e oportunidades. Precisa aceitar fiscalização, corrigir erros e prestar contas. Seu valor está na capacidade de ampliar direitos e melhorar a vida concreta de quem mais precisa.

É por isso que me recuso a tratar esta escolha como simples competição entre dois candidatos. O que está em disputa alcança a maneira como reconheceremos o vizinho, educaremos os filhos e enfrentaremos nossas diferenças.

Podemos discordar profundamente e continuar pertencendo ao mesmo país. Mas isso exige abandonar o conforto da mentira e reconhecer no outro uma pessoa com direitos, inclusive quando seu voto nos desagrada.

Dentro de poucos dias, a cabine será pequena e a decisão será imensa. Antes de confirmar, cada brasileiro deveria pensar em quem estará esperando do lado de fora: os filhos, os trabalhadores, os idosos, aqueles que ainda precisam ser alcançados pelas promessas da República.

Todos eles terão de viver no país que sair daquela urna.

Vladimir Barros

Vladimir Barros

Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e editor do jornal Tribuna do Sertão. Advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com pós-graduação em Direito Processual e Docência Superior. É também membro da Academia Palmeirense de Letras e fundador da Rádio Cacique FM de Palmeira dos Índios.